Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Ciência
O rato que canta

Os sons do camundongo, embora
inaudíveis para os humanos, são tão
musicais quanto os dos pássaros


Thereza Venturolli

Por causa das semelhanças de seu código genético com o dos seres humanos, os camundongos são as cobaias preferidas dos cientistas para experiências em laboratório. Agora, descobriu-se que esses pequenos roedores têm outra característica em comum com o homem: eles são capazes de cantar maviosas melodias – principalmente quando querem atrair o sexo oposto. Há tempos se sabe que os camundongos machos emitem sons quando farejam uma fêmea por perto. Mas, como esses sons são produzidos em freqüência muito alta, acima do que o ouvido humano consegue captar (veja o quadro abaixo), nunca se pôde ouvi-los. Dois neurologistas da Universidade Washington em Saint Louis acabam de descobrir que os sons emitidos pelos camundongos não são guinchos inarticulados, mas complexas seqüências sonoras, com padrões rítmicos bem determinados.

Os autores da pesquisa, Timothy Holy e Zhongsheng Guo, gravaram os sons de 45 camundongos machos expostos à urina de fêmeas carregada de feromônios – hormônios que transmitem mensagens químicas na forma de odores, particularmente em época de acasalamento. Depois, usando um computador, os pesquisadores baixaram a freqüência do som emitido por cada camundongo a um nível bem mais grave, perceptível pelo homem. Notaram que os sons seguem um padrão que lembra o do canto dos pássaros: notas musicais e longas frases melódicas. O padrão se mantém em todos os animais pesquisados, com algumas pequenas variações que soam como arranjos musicais pessoais. "É claro que a melodia não é sofisticada como a humana, mas é marcada por repetições e refrões", disse a VEJA Timothy Holy.

Conquistar a fêmea cantando não é privilégio dos camundongos. Muitas espécies recorrem a esse estratagema. Os campeões são, é claro, as aves canoras. "Usar a voz para cortejar a fêmea é uma forma de o macho demonstrar suas qualidades de reprodutor e afastar os rivais", explica o psicólogo César Ades, da Universidade de São Paulo, especializado em comportamento animal. Entre mamíferos, o dom do canto é mais raro. Observa-se entre as baleias, os golfinhos e os morcegos, por exemplo.

Agora, os pesquisadores querem verificar como a camundongo fêmea reage à cantoria do macho e descobrir se o dom musical é ditado pela genética ou aprendido pelo animal. A resposta pode levar a uma maior compreensão das causas de distúrbios de comunicação no homem, como o autismo. Os cientistas já sabem que os camundongos carregam um dos genes que, no homem, se relacionam à fala, o Foxp2. Quando esse gene é desativado, o ratinho simplesmente deixa de fazer a corte sonora.

 

 


 


 
 
 
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