Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Economia e Negócios
Querida, encolhi o laptop!

O pioneiro digital Nicholas Negroponte
idealizou um PC portátil de 100 dólares
para jovens pobres do Terceiro Mundo


Carlos Rydlewski

 

Chitose Suzuki/AP
Negroponte: "O Brasil é uma das prioridades, mas o governo terá de decidir rápido se vai aderir"

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As aplicações do computador

Certas barreiras, quando são ultrapassadas, provocam rupturas estrondosas. Esses limites podem ser superados por guinadas tecnológicas, por inovações no modo de produção, pela sintetização de matérias-primas ou pela descoberta de novas fontes de energia. As barreiras caem também quando se combina uma revolução nos métodos de produção com uma escala de produção na casa da centena de milhões. É por essa última razão que o mundo recebeu com enorme interesse a notícia da fabricação iminente de um laptop que vai custar apenas 100 dólares – ou 225 reais, valor inferior ao de um modesto par de tênis e um décimo do preço de um aparelho semelhante vendido nas lojas. A curiosidade em torno da nova máquina foi aguçada pelo cacife do autor do anúncio. Trata-se de Nicholas Negroponte, co-fundador do lendário Media Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Foi no MIT, que já abrigou 61 vencedores do Nobel, que surgiram descobertas em torno de temas tão amplos como a pele artificial ou a confirmação da existência dos quarks, as partículas do núcleo dos átomos.

O foco de Negroponte não está propriamente na máquina, mas em seu uso. Ele quer que o aparelho seja comprado por governos e distribuído gratuitamente a estudantes de escolas públicas de países pobres e em desenvolvimento. O laptop serviria como uma ferramenta para abrir inusitadas possibilidades didáticas, além de alçar milhões de jovens ao mundo digital. É por isso que o aparelho tem de ser tão barato. A idéia do projeto surgiu em 1999, quando Negroponte e sua mulher, Elaine, acompanharam uma experiência de uso de notebooks por escolares no Camboja. Animado com o ensaio, ele criou a organização One Laptop per Child (Um Laptop por Criança). O pesquisador vai apresentar um protótipo da maquininha em novembro, na Cúpula da Sociedade Mundial da Informação, na Tunísia. Ele tem metas ambiciosas: entregar entre 5 milhões e 15 milhões de laptops em 2006 e produzir entre 100 milhões e 150 milhões em 2007. Isso seria uma façanha considerável. Em 2004, toda a indústria vendeu no mundo 172 milhões de computadores pessoais.

 

Claudio Rossi
Crianças em escola pública de São Bernardo, em São Paulo: com laptop, milhões teriam acesso à internet

O desafio ainda não foi completado. Negroponte e sua equipe conseguiram baixar o custo dos laptops para algo em torno de 130 dólares. Para alcançar o valor proposto é preciso reduzir ainda mais o custo de produção. Atingir a quantia simbólica de 100 dólares é uma meta a ser perseguida. Muito intimamente, Negroponte admite que talvez se chegue a algo próximo de 110 dólares. O item mais caro do produto, e o mais difícil de baratear, é a tela. O pesquisador acredita que o preço desse componente vai cair quando houver a certeza de que as maquininhas serão fabricadas em grande volume. Isso garantiria, no jargão técnico, a escala de produção. Outros entraves são de distribuição e manutenção. Mas Negroponte defende que os aparelhos sejam entregues nas escolas como os livros didáticos. Eventuais consertos seriam feitos pelos estudantes mais habilidosos no manuseio do laptop. Outro obstáculo, isso para citar só mais um, é superar a burocracia dos governos. "A proposta não está totalmente clara, mas já permite ver que o laptop de 100 dólares é viável", diz Marcelo Zuffo, do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo (USP).

A indústria acompanha o desenvolvimento do produto com atenção. O projeto já recrutou parceiros como o Google, que ganharia milhões de novos pesquisadores com esse tipo de iniciativa, além da fabricante de chips AMD. O fato é que hoje todas as firmas do setor de informática quebram a cabeça para tentar produzir mais, pois a competitividade alucinada e os avanços tecnológicos diminuem cada vez mais os preços dos equipamentos – e as margens de lucro. Daí a relevância de expandir ou firmar os negócios em novos mercados como os emergentes. É esse tipo de impasse que justifica o sucesso de livros como A Riqueza na Base da Pirâmide – Como Erradicar a Pobreza com o Lucro, do indiano C.K. Prahalad, professor da Universidade de Michigan. No texto, o autor fornece uma série de exemplos de companhias que se dão bem ao adequar produtos e estratégias para vender para os mais pobres.

 

Fotos divulgação e The New York Times
Hector Ruiz, da AMD, que vende computadores baratos no Brasil com o gabinete do PIC (à esq.): é possível ganhar dinheiro dessa forma

A questão é saber se de fato é possível ganhar dinheiro nessa base da pirâmide, já que o lucro é microscópico. "A resposta é sim", disse a VEJA o presidente mundial da AMD, Hector Ruiz. A indústria, também parceira de Negroponte, tem um projeto paralelo para conectar metade do planeta à internet até 2015. Hoje, a rede envolve pouco mais de 15% da população mundial. A companhia desenvolveu um aparelho chamado Personal Internet Communicator (PIC), vendido em mais de seis países. No Brasil, é comercializado experimentalmente em Bauru (SP) e em Mato Grosso. Trata-se de um computador simples, com monitor e teclado, que custa pouco menos de 900 reais. É a seguinte a lógica de Ruiz: as pesquisas da empresa indicam que, em países como o Brasil, as pessoas vêem a internet como um recurso para resolver entraves reais, como encontrar um emprego, agendar consulta num médico ou incrementar a educação dos filhos. E, uma vez que tenham acesso à rede, acabam se interessando por soluções mais avançadas e poderosas. É também por isso que a proposta do fundador do Media Lab pode ser comercialmente atrativa. Negroponte resume: "Até agora não encontrei uma única pessoa que fosse contra o projeto de dar um laptop a cada criança".

 

 

Foto divulgação
 
 
 
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