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Economia e
Negócios Querida, encolhi o laptop! O
pioneiro digital Nicholas Negroponte idealizou um PC portátil de 100
dólares para jovens pobres do Terceiro Mundo
 Carlos
Rydlewski Chitose
Suzuki/AP
 | | Negroponte:
"O Brasil é uma das prioridades, mas o governo terá de decidir rápido se vai aderir"
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Certas
barreiras, quando são ultrapassadas, provocam rupturas estrondosas. Esses
limites podem ser superados por guinadas tecnológicas, por inovações
no modo de produção, pela sintetização de matérias-primas
ou pela descoberta de novas fontes de energia. As barreiras caem também
quando se combina uma revolução nos métodos de produção
com uma escala de produção na casa da centena de milhões.
É por essa última razão que o mundo recebeu com enorme interesse
a notícia da fabricação iminente de um laptop que vai custar
apenas 100 dólares ou 225 reais, valor inferior ao de um modesto
par de tênis e um décimo do preço de um aparelho semelhante
vendido nas lojas. A curiosidade em torno da nova máquina foi aguçada
pelo cacife do autor do anúncio. Trata-se de Nicholas Negroponte, co-fundador
do lendário Media Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Foi no MIT, que já abrigou 61 vencedores do Nobel, que surgiram descobertas
em torno de temas tão amplos como a pele artificial ou a confirmação
da existência dos quarks, as partículas do núcleo dos átomos.
O foco de Negroponte não está
propriamente na máquina, mas em seu uso. Ele quer que o aparelho seja comprado
por governos e distribuído gratuitamente a estudantes de escolas públicas
de países pobres e em desenvolvimento. O laptop serviria como uma ferramenta
para abrir inusitadas possibilidades didáticas, além de alçar
milhões de jovens ao mundo digital. É por isso que o aparelho tem
de ser tão barato. A idéia do projeto surgiu em 1999, quando Negroponte
e sua mulher, Elaine, acompanharam uma experiência de uso de notebooks por
escolares no Camboja. Animado com o ensaio, ele criou a organização
One Laptop per Child (Um Laptop por Criança). O pesquisador vai apresentar
um protótipo da maquininha em novembro, na Cúpula da Sociedade Mundial
da Informação, na Tunísia. Ele tem metas ambiciosas: entregar
entre 5 milhões e 15 milhões de laptops em 2006 e produzir entre
100 milhões e 150 milhões em 2007. Isso seria uma façanha
considerável. Em 2004, toda a indústria vendeu no mundo 172 milhões
de computadores pessoais. Claudio
Rossi
 | | Crianças
em escola pública de São Bernardo, em São Paulo: com laptop, milhões teriam acesso
à internet |
O desafio ainda
não foi completado. Negroponte e sua equipe conseguiram baixar o custo
dos laptops para algo em torno de 130 dólares. Para alcançar o valor
proposto é preciso reduzir ainda mais o custo de produção.
Atingir a quantia simbólica de 100 dólares é uma meta a ser
perseguida. Muito intimamente, Negroponte admite que talvez se chegue a algo próximo
de 110 dólares. O item mais caro do produto, e o mais difícil de
baratear, é a tela. O pesquisador acredita que o preço desse componente
vai cair quando houver a certeza de que as maquininhas serão fabricadas
em grande volume. Isso garantiria, no jargão técnico, a escala de
produção. Outros entraves são de distribuição
e manutenção. Mas Negroponte defende que os aparelhos sejam entregues
nas escolas como os livros didáticos. Eventuais consertos seriam feitos
pelos estudantes mais habilidosos no manuseio do laptop. Outro obstáculo,
isso para citar só mais um, é superar a burocracia dos governos.
"A proposta não está totalmente clara, mas já permite ver
que o laptop de 100 dólares é viável", diz Marcelo Zuffo,
do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica,
da Universidade de São Paulo (USP).
A indústria acompanha o desenvolvimento do produto com atenção.
O projeto já recrutou parceiros como o Google, que ganharia milhões
de novos pesquisadores com esse tipo de iniciativa, além da fabricante
de chips AMD. O fato é que hoje todas as firmas do setor de informática
quebram a cabeça para tentar produzir mais, pois a competitividade alucinada
e os avanços tecnológicos diminuem cada vez mais os preços
dos equipamentos e as margens de lucro. Daí a relevância de
expandir ou firmar os negócios em novos mercados como os emergentes. É
esse tipo de impasse que justifica o sucesso de livros como A Riqueza na Base
da Pirâmide Como Erradicar a Pobreza com o Lucro, do indiano
C.K. Prahalad, professor da Universidade de Michigan. No texto, o autor fornece
uma série de exemplos de companhias que se dão bem ao adequar produtos
e estratégias para vender para os mais pobres. Fotos
divulgação e The New York Times
 | | Hector
Ruiz, da AMD, que vende computadores baratos no Brasil com o gabinete do PIC (à
esq.): é possível ganhar dinheiro dessa forma |
A questão é saber se de fato é possível ganhar dinheiro
nessa base da pirâmide, já que o lucro é microscópico.
"A resposta é sim", disse a VEJA o presidente mundial da AMD, Hector Ruiz.
A indústria, também parceira de Negroponte, tem um projeto paralelo
para conectar metade do planeta à internet até 2015. Hoje, a rede
envolve pouco mais de 15% da população mundial. A companhia desenvolveu
um aparelho chamado Personal Internet Communicator (PIC), vendido em mais de seis
países. No Brasil, é comercializado experimentalmente em Bauru (SP)
e em Mato Grosso. Trata-se de um computador simples, com monitor e teclado, que
custa pouco menos de 900 reais. É a seguinte a lógica de Ruiz: as
pesquisas da empresa indicam que, em países como o Brasil, as pessoas vêem
a internet como um recurso para resolver entraves reais, como encontrar um emprego,
agendar consulta num médico ou incrementar a educação dos
filhos. E, uma vez que tenham acesso à rede, acabam se interessando por
soluções mais avançadas e poderosas. É também
por isso que a proposta do fundador do Media Lab pode ser comercialmente atrativa.
Negroponte resume: "Até agora não encontrei uma única pessoa
que fosse contra o projeto de dar um laptop a cada criança". |