Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Economia e Negócios
A nova e boa notícia
que vem da Ásia

O Japão cresce pelo terceiro ano seguido,
e isso é ótimo para a economia mundial


Giuliano Guandalini


Itsuo Inouye/AP
Fila em loja da Chanel em Tóquio: poupadores vorazes, japoneses voltam às compras


NESTA REPORTAGEM
Gráfico: A evolução da economia japonesa

Na última década, o fabuloso desempenho econômico da China tirou dos holofotes outro gigante asiático. Segunda maior economia do planeta, com um PIB per capita cinco vezes maior que o chinês, o Japão afundou-se, nesse período, num ciclo de estagnação crônica que parecia não ter fim. Sua economia perdeu bilhões de dólares com o estouro da bolha dos imóveis e das ações, no início dos anos 90. Sufocados pela montanha de empréstimos desastrosos que concederam, os bancos fecharam a torneira do crédito. Empresas demitiram em massa. Há três anos, o desemprego atingiu sua marca histórica, de 5,5%. Muitos analistas acreditavam que o país ficaria preso nesse círculo vicioso por mais uma década. Surpreendentemente, no entanto, o Japão começa a sair do poço, e isso é uma ótima notícia para a economia mundial.

Em 2005, o país terá seu terceiro ano de crescimento seguido, ainda que modesto. O desemprego caiu e as empresas voltaram a investir. Para completar, a deflação dá sinais de ter chegado ao fim. Pela primeira vez desde 1998, o país deverá registrar inflação neste ano, ainda que um tímido índice de 0,1%. Festejar a alta dos preços soa como exercício de masoquismo para um povo que ainda tem na memória a hiperinflação, como o brasileiro. Mas esse não é o caso dos japoneses. Há cinco anos, comer um hambúrguer com fritas e refrigerante numa lanchonete em Tóquio saía por 725 ienes. A mesma refeição, hoje, custa 610 ienes. A queda generalizada nos preços achatou a margem de lucro das empresas, que deixaram de investir em novos projetos. Esse processo jogou o país num ciclo vicioso de consumo estagnado, baixo investimento, recessão e deflação. Diante da crise, os japoneses exacerbaram ainda mais sua conhecida voracidade por poupar, derrubando o consumo. Entre 1995 e 2004, o Japão teve queda no PIB em quatro anos e registrou deflação em nove – fato que só encontra precedente na recessão americana dos anos 30. Números bem diferentes dos registrados há quatro décadas, quando a economia crescia 10% ao ano.


Vidal Cavalcanti/AE
Dekassegui em fábrica no Japão: aumentam as contratações

O país ainda apresenta pontos fracos, como o gigantesco déficit público, mas a década perdida parece ter chegado ao fim. Pela primeira vez em quinze anos houve alta no preço de imóveis em Tóquio. Segundo analistas, o aspecto mais animador do atual ciclo de crescimento é o fato de ele ser sustentado pelo consumo interno, e não pelas exportações. "A expansão está sendo liderada pelo investimento das empresas e pelo consumo, estimulado pela recuperação do emprego e dos salários", diz o economista Tadashi Yokoyama, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Ponto central nesse processo de recuperação são as reformas econômicas. Os bancos se livraram de boa parte dos créditos podres, herança do estouro da bolha, e estão em melhores condições para financiar investimentos produtivos. "Houve muito progresso na reforma de alguns dos mais intratáveis problemas do país", afirma Matthew Sherwood, da consultoria inglesa Economist Intelligence Unit. "A política monetária melhorou dramaticamente em comparação com a dos anos 90. O Banco do Japão é hoje muito mais agressivo", disse ele, referindo-se aos juros negativos praticados pelo governo para estimular empréstimos.

Um entusiasmado defensor dessa agressividade é o americano Ben Bernanke, que acaba de ser nomeado para suceder Alan Greenspan na presidência do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos). Para Bernanke, muitos dos problemas do Japão se deveram à timidez do banco central do país na década passada. Também contribuiu para o bom momento a estabilidade política. O primeiro-ministro Junichiro Koizumi saiu fortalecido de uma esmagadora vitória nas eleições de setembro. Ele acaba de receber o sinal para privatizar o Correio, vencendo dura oposição da burocracia. Mais do que mero serviço postal, o Correio do Japão é a maior instituição financeira do mundo, com 330 trilhões de ienes (6,5 trilhões de reais) em depósitos.

Para o economista Eduardo Tonooka, que fez pós-doutorado na Universidade de Kobe, Koizumi representa um líder político disposto a afastar-se do dirigismo econômico e combater a corrupção. Koizumi teve bons números para apresentar ao eleitorado. A taxa de desemprego recuou para 4,2%. O PIB deve crescer 2,2% neste ano, o melhor índice desde 1996.

A recuperação japonesa é uma boa notícia para o mundo, pois favorece o crescimento do comércio internacional e abre a porta para novos investimentos. O Japão está entre os dez maiores clientes brasileiros, comprando principalmente minério de ferro e frango congelado. O reaquecimento favorece ainda os quase 300.000 dekasseguis brasileiros que trabalham no país asiático. As remessas desses trabalhadores, estimadas em 2,5 bilhões de dólares, equivalem às vendas da Embraer para o exterior e estão entre as principais fontes de divisas para a economia brasileira.

Colaborou Victor Martino

 
 
 
 
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