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Economia e Negócios
A nova e boa notícia
que vem da Ásia
O Japão cresce pelo terceiro ano seguido,
e isso é ótimo para a economia mundial

Giuliano Guandalini
Itsuo Inouye/AP
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| Fila em loja da Chanel em Tóquio: poupadores
vorazes, japoneses voltam às compras |
Na última década,
o fabuloso desempenho econômico da China tirou dos holofotes
outro gigante asiático. Segunda maior economia do planeta,
com um PIB per capita cinco vezes maior que o chinês, o Japão
afundou-se, nesse período, num ciclo de estagnação
crônica que parecia não ter fim. Sua economia perdeu
bilhões de dólares com o estouro da bolha dos imóveis
e das ações, no início dos anos 90. Sufocados
pela montanha de empréstimos desastrosos que concederam,
os bancos fecharam a torneira do crédito. Empresas demitiram
em massa. Há três anos, o desemprego atingiu sua marca
histórica, de 5,5%. Muitos analistas acreditavam que o país
ficaria preso nesse círculo vicioso por mais uma década.
Surpreendentemente, no entanto, o Japão começa a sair
do poço, e isso é uma ótima notícia
para a economia mundial.
Em 2005, o país terá
seu terceiro ano de crescimento seguido, ainda que modesto. O desemprego
caiu e as empresas voltaram a investir. Para completar, a deflação
dá sinais de ter chegado ao fim. Pela primeira vez desde
1998, o país deverá registrar inflação
neste ano, ainda que um tímido índice de 0,1%. Festejar
a alta dos preços soa como exercício de masoquismo
para um povo que ainda tem na memória a hiperinflação,
como o brasileiro. Mas esse não é o caso dos japoneses.
Há cinco anos, comer um hambúrguer com fritas e refrigerante
numa lanchonete em Tóquio saía por 725 ienes. A mesma
refeição, hoje, custa 610 ienes. A queda generalizada
nos preços achatou a margem de lucro das empresas, que deixaram
de investir em novos projetos. Esse processo jogou o país
num ciclo vicioso de consumo estagnado, baixo investimento, recessão
e deflação. Diante da crise, os japoneses exacerbaram
ainda mais sua conhecida voracidade por poupar, derrubando o consumo.
Entre 1995 e 2004, o Japão teve queda no PIB em quatro anos
e registrou deflação em nove fato que só
encontra precedente na recessão americana dos anos 30. Números
bem diferentes dos registrados há quatro décadas,
quando a economia crescia 10% ao ano.
Vidal Cavalcanti/AE
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| Dekassegui em fábrica no Japão: aumentam as
contratações |
O país ainda apresenta
pontos fracos, como o gigantesco déficit público,
mas a década perdida parece ter chegado ao fim. Pela primeira
vez em quinze anos houve alta no preço de imóveis
em Tóquio. Segundo analistas, o aspecto mais animador do
atual ciclo de crescimento é o fato de ele ser sustentado
pelo consumo interno, e não pelas exportações.
"A expansão está sendo liderada pelo investimento
das empresas e pelo consumo, estimulado pela recuperação
do emprego e dos salários", diz o economista Tadashi Yokoyama,
da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE).
Ponto central nesse processo
de recuperação são as reformas econômicas.
Os bancos se livraram de boa parte dos créditos podres, herança
do estouro da bolha, e estão em melhores condições
para financiar investimentos produtivos. "Houve muito progresso
na reforma de alguns dos mais intratáveis problemas do país",
afirma Matthew Sherwood, da consultoria inglesa Economist Intelligence
Unit. "A política monetária melhorou dramaticamente
em comparação com a dos anos 90. O Banco do Japão
é hoje muito mais agressivo", disse ele, referindo-se aos
juros negativos praticados pelo governo para estimular empréstimos.
Um entusiasmado defensor dessa
agressividade é o americano Ben Bernanke, que acaba de ser
nomeado para suceder Alan Greenspan na presidência do Federal
Reserve (o BC dos Estados Unidos). Para Bernanke, muitos dos problemas
do Japão se deveram à timidez do banco central do
país na década passada. Também contribuiu para
o bom momento a estabilidade política. O primeiro-ministro
Junichiro Koizumi saiu fortalecido de uma esmagadora vitória
nas eleições de setembro. Ele acaba de receber o sinal
para privatizar o Correio, vencendo dura oposição
da burocracia. Mais do que mero serviço postal, o Correio
do Japão é a maior instituição financeira
do mundo, com 330 trilhões de ienes (6,5 trilhões
de reais) em depósitos.
Para o economista Eduardo Tonooka,
que fez pós-doutorado na Universidade de Kobe, Koizumi representa
um líder político disposto a afastar-se do dirigismo
econômico e combater a corrupção. Koizumi teve
bons números para apresentar ao eleitorado. A taxa de desemprego
recuou para 4,2%. O PIB deve crescer 2,2% neste ano, o melhor índice
desde 1996.
A recuperação japonesa
é uma boa notícia para o mundo, pois favorece o crescimento
do comércio internacional e abre a porta para novos investimentos.
O Japão está entre os dez maiores clientes brasileiros,
comprando principalmente minério de ferro e frango congelado.
O reaquecimento favorece ainda os quase 300.000 dekasseguis brasileiros
que trabalham no país asiático. As remessas desses
trabalhadores, estimadas em 2,5 bilhões de dólares,
equivalem às vendas da Embraer para o exterior e estão
entre as principais fontes de divisas para a economia brasileira.
Colaborou Victor Martino
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