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Sociedade
Milagre de Natal
Demissões e falta de importados
assombram a Daslu; só Papai Noel resolve

Bel Moherdaui
Apenas cinco meses depois da inauguração
e quatro desde a operação da Polícia Federal
que apreendeu documentos e prendeu sua dona, Eliana Tranchesi (durante
dez horas), o irmão e sócio Antônio Carlos e
o dono de uma importadora que trabalhava para os dois (cinco dias
ambos), a nova Daslu, o conglomerado de consumo mais suntuoso do
Brasil, enfrenta dias complicados. Há indícios de
crise, faltam mercadorias, escasseiam clientes e o inevitável
corte de custos faz estragos. Fala-se na possibilidade de venda
a algum grupo estrangeiro. Eliana nega (veja
quadro). "Não é fácil. A gente
tem de trabalhar, fazer bem feito, vender e, ainda por cima, provar
para todo mundo que nosso sucesso é de verdade", queixa-se.
O maior problema no momento é a falta de produtos importados
numa loja onde o grande atrativo é justamente a enorme profusão
de artigos de marcas caras que vêm da Itália e da França.
Clientes que conhecem a localização exata de cada
arara no labirinto de roupas separadas por cores notam que os importados
rareiam os poucos que restam estão pendurados lá
mais ou menos desde a inauguração. "Por causa da ação
da Polícia Federal, houve uma interrupção no
processo de importação", confirma Raul Rosenthal,
sócio da consultoria que cuida da Daslu há cerca de
um ano. "Por quarenta a sessenta dias não houve embarque
ou entrada de produtos importados na loja." A seca, aparentemente,
continua: a Daslu das sandálias Manolo Blahnik, dos vestidos
Chloé e das bolsas Balenciaga, entre outros, está
lotada de roupas e acessórios com a nacionalíssima
etiqueta Daslu.
Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem
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| A nova loja: depois da inauguração e da operação
da PF, sinais de crise |
Do processo contra a empresa,
que corre em sigilo na Justiça, consta a acusação
de importação de produtos com valores declarados muito
abaixo do preço real para não pagar impostos, entre
outras irregularidades. "Ao que tudo indica, a loja vem tendo dificuldade
mesmo é em fazer as importações em grande escala
com tudo direito, por falta de know-how. A Receita está de
olho e as grifes internacionais provavelmente também estão
exigindo mais cuidado", diz o consultor de negócios de moda
André Robic, diretor executivo do IBModa. Nem Rosenthal nem
Eliana comentam o processo ou explicam o que mudou na sua forma
de, para usar um termo da moda, "internar" produtos. Só dizem
que está "como sempre foi" e que neste momento, se há
contratempos, eles vêm de uma greve na Receita Federal. Esta
nega. "Boa parte dos auditores fiscais não está em
greve e são eles os responsáveis pelo desembaraço
aduaneiro", diz José Guilherme Vasconcelos, inspetor de alfândega
da Receita no Porto de Santos. Sem Prada, Valentino e Burberry,
entre as marcas mais procuradas, a clientela minguou visivelmente
convidadas de casamentos milionários celebrados em
São Paulo na semana passada tiveram de pegar o avião
e se socorrer em Miami justo no momento em que o movimento
devia ser intenso: a Daslu declara um aumento de vendas de 25% e
a adição de 15.000 nomes a seu estrelado cadastro
desde a badalada inauguração. Depois de contratar
300 pessoas para trabalhar na loja nova, no entanto, 180 foram dispensadas
número que Rosenthal atribui a "ajustes normais".
"Por exemplo, eu achava que as clientes iam se perder aqui dentro
e contratei trinta guides. Só que as clientes não
se perderam, pois a loja não é tão complicada
assim e as vendedoras mesmo se encarregam de conduzi-las. Então,
ficamos com trinta meninas ociosas. Baixamos para quatro", diz Eliana.
Vender, repetem todos, nem pensar, nem para a inglesa Harrods, a
candidata mais citada, nem para nenhum outro grupo. A VEJA, o diretor
de comunicação da Harrods, Michael Mann, declarou:
"Não estamos comprando nenhuma loja nem abrindo nenhuma filial.
Nem no Brasil, nem na China, nem em lugar algum". De acordo com
as previsões da Daslu, a virada vai acontecer nas vendas
de Natal. "Vamos contratar oitenta funcionários temporários",
informa Eliana. Como nos filmes natalinos, a salvação
está com Papai Noel. Se os importados voltarem, o bom velhinho
reerguerá a Daslu em toda a sua glória.
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"NÃO
FOI UMA TRAGÉDIA"
Valéria Gonçalves/AE
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A dona da Daslu, Eliana Tranchesi,
diz que se sentiu "injustiçada" com a ação
da polícia e que
não tem planos de vender a loja. Sua primeira
entrevista desde a prisão:
VENDA
A gente sempre recebeu propostas para vender a Daslu.
Mas eu não tenho essa intenção.
Tanto que nunca procurei ninguém. Em Paris, encontrei
o Mohamed Al Fayed, dono da Harrods, em um desfile.
A diretora de compras dele estava sentada entre nós
e disse que ele queria me conhecer. Marcamos um almoço
no Ritz, porque ele disse que gostaria de saber mais
sobre a Daslu, que é um negócio único
no mundo. Foi só isso.
IMPORTADOS
A importação da Daslu está como
sempre foi. Só que o processo ficou mais lento.
A Receita Federal está em greve, por isso todo
mundo está com dificuldade para receber. Além
disso, quando houve a invasão, eles levaram tudo:
todos os documentos e até os computadores. A
gente ficou sem registro nenhum durante quinze dias,
pelo menos. Toda a importação atrasou.
CLIENTES
Achávamos, imagine só, que quase toda
a clientela que tem poder aquisitivo para comprar na
Daslu já tinha vindo e já conhecia a loja.
Mas do começo de junho, quando inauguramos a
loja nova, até uns dez dias atrás, ganhamos
mais 15 000 clientes.
DESÂNIMO
Quando tudo aconteceu, deu um pouco de vontade
de ir fazer outra coisa. No Brasil, a gente arrisca
todo o tempo. Quantas vezes não estávamos
com a coleção preparada, o governo vinha
e mudava alguma coisa na economia? Mas eu nunca tive
medo do meu negócio. Dessa vez eu desanimei porque
me senti injustiçada.
REAÇÃO
Ver meu negócio ameaçado foi
como uma coisa que eu não estava vivendo, que
corria paralela. Foi muito desagradável, mas
não me matou. Vão apurar, se houver irregularidade
vamos acertar. Mas não foi uma tragédia.
PRISÃO
Eu sou muito calma. Nunca acho que estou
sozinha. Sempre acredito que estou com Deus, que vai
dar tudo certo. Só quando falaram para eu ir
sem cadarço no tênis foi que percebi que
ia ser mesmo levada. Fui de mocassim. Levei uma imagem
de Nossa Senhora, minha bolsa e fiz um nécessaire,
porque achei que ia passar a noite. Também levei
algumas garrafinhas de água. Mas eu fiquei numa
salinha, dei meu depoimento e depois fui liberada.
APOIO
Depois da minha prisão, devo ter recebido mais
de 5 000 e-mails. Na minha casa não dava para
andar naquela semana, de tanta flor. Devem ter sido
mais de 1 000 arranjos. Eu mandei fazer 1 500 cartões
para agradecer e acabou tudo. Outro dia fui a um casamento
e todos me paravam para dizer que admiram meu trabalho
e me incentivar a continuar.
BENEFÍCIOS
Eu acho que sou supercorreta como patroa.
O valor do salário médio aqui na Daslu
é muito alto. E o seguro-saúde dos funcionários
é igualzinho ao dos meus filhos, idêntico.
Elas todas têm filhos no Hospital São Luiz.
Quando o bebê faz 4 meses, entra na creche. Temos
crianças de 0 a 14 anos.
SUCESSO
Se eu não fizesse sucesso, ninguém ia
falar de mim. Se eu fosse uma multinacional, também
não. Eu podia não ter investido nada no
Brasil. Mas não quis nem colocar meus filhos
em colégio estrangeiro. Pensei que, se eles fossem
patrões um dia, não iam olhar para o funcionário
como um brasileiro igual a eles.
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