Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Sociedade
Milagre de Natal

Demissões e falta de importados
assombram a Daslu; só Papai Noel resolve


Bel Moherdaui

Apenas cinco meses depois da inauguração e quatro desde a operação da Polícia Federal que apreendeu documentos e prendeu sua dona, Eliana Tranchesi (durante dez horas), o irmão e sócio Antônio Carlos e o dono de uma importadora que trabalhava para os dois (cinco dias ambos), a nova Daslu, o conglomerado de consumo mais suntuoso do Brasil, enfrenta dias complicados. Há indícios de crise, faltam mercadorias, escasseiam clientes e o inevitável corte de custos faz estragos. Fala-se na possibilidade de venda a algum grupo estrangeiro. Eliana nega (veja quadro). "Não é fácil. A gente tem de trabalhar, fazer bem feito, vender e, ainda por cima, provar para todo mundo que nosso sucesso é de verdade", queixa-se. O maior problema no momento é a falta de produtos importados numa loja onde o grande atrativo é justamente a enorme profusão de artigos de marcas caras que vêm da Itália e da França. Clientes que conhecem a localização exata de cada arara no labirinto de roupas separadas por cores notam que os importados rareiam – os poucos que restam estão pendurados lá mais ou menos desde a inauguração. "Por causa da ação da Polícia Federal, houve uma interrupção no processo de importação", confirma Raul Rosenthal, sócio da consultoria que cuida da Daslu há cerca de um ano. "Por quarenta a sessenta dias não houve embarque ou entrada de produtos importados na loja." A seca, aparentemente, continua: a Daslu das sandálias Manolo Blahnik, dos vestidos Chloé e das bolsas Balenciaga, entre outros, está lotada de roupas e acessórios com a nacionalíssima etiqueta Daslu.


Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem
A nova loja: depois da inauguração e da operação da PF, sinais de crise

Do processo contra a empresa, que corre em sigilo na Justiça, consta a acusação de importação de produtos com valores declarados muito abaixo do preço real para não pagar impostos, entre outras irregularidades. "Ao que tudo indica, a loja vem tendo dificuldade mesmo é em fazer as importações em grande escala com tudo direito, por falta de know-how. A Receita está de olho e as grifes internacionais provavelmente também estão exigindo mais cuidado", diz o consultor de negócios de moda André Robic, diretor executivo do IBModa. Nem Rosenthal nem Eliana comentam o processo ou explicam o que mudou na sua forma de, para usar um termo da moda, "internar" produtos. Só dizem que está "como sempre foi" e que neste momento, se há contratempos, eles vêm de uma greve na Receita Federal. Esta nega. "Boa parte dos auditores fiscais não está em greve e são eles os responsáveis pelo desembaraço aduaneiro", diz José Guilherme Vasconcelos, inspetor de alfândega da Receita no Porto de Santos. Sem Prada, Valentino e Burberry, entre as marcas mais procuradas, a clientela minguou visivelmente – convidadas de casamentos milionários celebrados em São Paulo na semana passada tiveram de pegar o avião e se socorrer em Miami – justo no momento em que o movimento devia ser intenso: a Daslu declara um aumento de vendas de 25% e a adição de 15.000 nomes a seu estrelado cadastro desde a badalada inauguração. Depois de contratar 300 pessoas para trabalhar na loja nova, no entanto, 180 foram dispensadas – número que Rosenthal atribui a "ajustes normais". "Por exemplo, eu achava que as clientes iam se perder aqui dentro e contratei trinta guides. Só que as clientes não se perderam, pois a loja não é tão complicada assim e as vendedoras mesmo se encarregam de conduzi-las. Então, ficamos com trinta meninas ociosas. Baixamos para quatro", diz Eliana. Vender, repetem todos, nem pensar, nem para a inglesa Harrods, a candidata mais citada, nem para nenhum outro grupo. A VEJA, o diretor de comunicação da Harrods, Michael Mann, declarou: "Não estamos comprando nenhuma loja nem abrindo nenhuma filial. Nem no Brasil, nem na China, nem em lugar algum". De acordo com as previsões da Daslu, a virada vai acontecer nas vendas de Natal. "Vamos contratar oitenta funcionários temporários", informa Eliana. Como nos filmes natalinos, a salvação está com Papai Noel. Se os importados voltarem, o bom velhinho reerguerá a Daslu em toda a sua glória.

 

"NÃO FOI UMA TRAGÉDIA"


Valéria Gonçalves/AE

A dona da Daslu, Eliana Tranchesi, diz que se sentiu "injustiçada" com a ação da polícia e que não tem planos de vender a loja. Sua primeira entrevista desde a prisão:

VENDA – A gente sempre recebeu propostas para vender a Daslu. Mas eu não tenho essa intenção. Tanto que nunca procurei ninguém. Em Paris, encontrei o Mohamed Al Fayed, dono da Harrods, em um desfile. A diretora de compras dele estava sentada entre nós e disse que ele queria me conhecer. Marcamos um almoço no Ritz, porque ele disse que gostaria de saber mais sobre a Daslu, que é um negócio único no mundo. Foi só isso.

IMPORTADOS – A importação da Daslu está como sempre foi. Só que o processo ficou mais lento. A Receita Federal está em greve, por isso todo mundo está com dificuldade para receber. Além disso, quando houve a invasão, eles levaram tudo: todos os documentos e até os computadores. A gente ficou sem registro nenhum durante quinze dias, pelo menos. Toda a importação atrasou.

CLIENTES – Achávamos, imagine só, que quase toda a clientela que tem poder aquisitivo para comprar na Daslu já tinha vindo e já conhecia a loja. Mas do começo de junho, quando inauguramos a loja nova, até uns dez dias atrás, ganhamos mais 15 000 clientes.

DESÂNIMO – Quando tudo aconteceu, deu um pouco de vontade de ir fazer outra coisa. No Brasil, a gente arrisca todo o tempo. Quantas vezes não estávamos com a coleção preparada, o governo vinha e mudava alguma coisa na economia? Mas eu nunca tive medo do meu negócio. Dessa vez eu desanimei porque me senti injustiçada.

REAÇÃO – Ver meu negócio ameaçado foi como uma coisa que eu não estava vivendo, que corria paralela. Foi muito desagradável, mas não me matou. Vão apurar, se houver irregularidade vamos acertar. Mas não foi uma tragédia.

PRISÃO – Eu sou muito calma. Nunca acho que estou sozinha. Sempre acredito que estou com Deus, que vai dar tudo certo. Só quando falaram para eu ir sem cadarço no tênis foi que percebi que ia ser mesmo levada. Fui de mocassim. Levei uma imagem de Nossa Senhora, minha bolsa e fiz um nécessaire, porque achei que ia passar a noite. Também levei algumas garrafinhas de água. Mas eu fiquei numa salinha, dei meu depoimento e depois fui liberada.

APOIO – Depois da minha prisão, devo ter recebido mais de 5 000 e-mails. Na minha casa não dava para andar naquela semana, de tanta flor. Devem ter sido mais de 1 000 arranjos. Eu mandei fazer 1 500 cartões para agradecer e acabou tudo. Outro dia fui a um casamento e todos me paravam para dizer que admiram meu trabalho e me incentivar a continuar.

BENEFÍCIOS – Eu acho que sou supercorreta como patroa. O valor do salário médio aqui na Daslu é muito alto. E o seguro-saúde dos funcionários é igualzinho ao dos meus filhos, idêntico. Elas todas têm filhos no Hospital São Luiz. Quando o bebê faz 4 meses, entra na creche. Temos crianças de 0 a 14 anos.

SUCESSO – Se eu não fizesse sucesso, ninguém ia falar de mim. Se eu fosse uma multinacional, também não. Eu podia não ter investido nada no Brasil. Mas não quis nem colocar meus filhos em colégio estrangeiro. Pensei que, se eles fossem patrões um dia, não iam olhar para o funcionário como um brasileiro igual a eles.

 

 
 
 
 
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