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Internacional
Paris está em chamas
Semana marcada por confrontos
em subúrbios da capital francesa
põe em evidência a dificuldade
de integrar imigrantes

Antonio Ribeiro, de Paris
Thomas Coex/AAFP
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NOITES VIOLENTAS
Policiais franceses em Clichy-sous-Bois, subúrbio
de Paris: a explosão dos guetos |
Na semana passada, grupos de jovens
desempregados, na maioria de origem árabe ou africana, transformaram
os subúrbios de Paris em campo de batalha. Eles depredaram
escolas e estabelecimentos comerciais, atearam fogo a centenas de
carros e entraram em confronto com a polícia e os bombeiros.
Enquanto isso, em Marselha, sindicalistas radicais decidiram manter
uma greve dos transportes públicos que já dura mais
de um mês e deixa a cidade no caos. No âmbito da Comunidade
Européia, a França não é a única
a enfrentar tensões causadas pela imigração,
pelo desemprego e pelo apego de certos grupos a privilégios
arcaicos. Mas a violência com que esses fantasmas assombraram
o país nos últimos dias lançou luz sobre um
fato incômodo: a França está cada vez mais atolada
na estagnação econômica e nas crises que dela
decorrem. E não existe consenso entre suas lideranças
políticas a respeito de como sair do buraco.
Nas últimas décadas,
a França tem gasto muito mais do que arrecada. A dívida
pública acumulada é de 1 trilhão de euros,
ou 64% do PIB. A indústria francesa perdeu, nas últimas
três décadas, 1,5 milhão de empregos. A redução
da jornada semanal de trabalho, introduzida pelos socialistas, não
criou novos empregos, mas encetou a falência de milhares de
pequenas empresas que formam a base da economia francesa. Num mundo
cada dia mais competitivo, os franceses trabalham menos que seus
vizinhos europeus. Eles entram mais tarde no mercado de trabalho
e saem mais cedo. Em média, aposentam-se com 57 anos
e os europeus, com 64. Hoje, quatro entre dez franceses vivem de
aposentadoria. A previsão para 2040 é de sete para
dez. O déficit do serviço previdenciário é
da ordem de 11 bilhões de euros. O custo da mão-de-obra
francesa é o dobro do da espanhola, quatro vezes superior
ao da polonesa. A França é recordista mundial de encargos
salariais, com 39% do custo da mão-de-obra. A falta de dinamismo
explica a taxa de crescimento anêmica, de menos de 2% do PIB.
Frank Prevel/Reuters
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MENOS CONVERSA
Nicolas Sarkozy, ministro do Interior: ele defende tolerância
zero para os distúrbios |
Nesse cenário, as centrais sindicais francesas, na maioria
atreladas aos partidos de extrema esquerda, têm mostrado uma
formidável resistência a reformas que flexibilizem
o mercado de trabalho e fomentem a competitividade. A greve em Marselha
é um exemplo dessa resistência. Ela é uma represália
à proposta do governo de terceirizar a administração
dos serviços de transporte público. A idéia
é corrigir certas aberrações que pesam no bolso
do contribuinte. Por exemplo, a taxa de insalubridade criada para
beneficiar os condutores de trens movidos a carvão
há décadas os trens franceses são elétricos.
Por obra do sindicalismo intransigente, a segunda maior cidade francesa
foi privada dos seus 600 ônibus e de 140 trens suburbanos,
metrôs e bondes. Os transtornos são enormes, sobretudo
entre a população mais carente. Desde o início
da greve as consultas médicas nos hospitais marselheses diminuíram
em 80%, e as crianças das famílias mais pobres estão
privadas de escola. Segundo a câmara de comércio local,
a paralisação já causou um prejuízo
de 30 milhões de euros.
O vandalismo que amedronta a
periferia de Paris, e que ameaça se alastrar para outros
pontos do país, teve início no dia 27 de outubro,
depois da morte de dois jovens africanos, eletrocutados numa central
elétrica em que haviam se escondido aparentemente
para escapar de uma batida policial. Mas o combustível da
revolta é outro. Nos conjuntos habitacionais que ficam às
margens das grandes cidades francesas, 30% da população
está desempregada o triplo do índice nacional.
No ano passado, apenas 15% dos jovens suburbanos entre 15 e 24 anos
conseguiram emprego. Essa taxa de atividade é a metade da
média européia. A ampla maioria dos estudantes que
abandonam a escola sem diploma pertence à primeira e à
segunda gerações de imigrantes do Oriente Médio
e da África. Muitos desses jovens são arregimentados
pelo fundamentalismo islâmico e pelo tráfico de drogas.
A violência em Paris na
semana passada pôs o governo francês em situação
delicada. O presidente Jacques Chirac permaneceu alheio aos conflitos
enquanto pôde. Depois, apareceu para "pedir calma". As atenções
se concentraram mesmo na ação dos dois herdeiros políticos
do presidente, o primeiro-ministro Dominique de Villepin e o ministro
do Interior, Nicolas Sarkozy. Villepin é conciliador. Prega
o "patriotismo econômico" e mudanças graduais no sistema
de benefícios sociais e previdenciários. Nos episódios
de Paris, demorou para agir e depois disse que "não existe
situação milagrosa para a situação das
periferias". Sarkozy é apóstolo da ruptura total com
o passado. Defende a introdução de reformas rápidas
e substanciais sem temor de enfrentar quem resiste. Para
ele, a solução dos distúrbios nos arredores
de Paris passa pela ação firme da polícia.
Ele causou polêmica ao afirmar que os revoltosos são
"a escória da sociedade". Apesar de Villepin e Sarkozy pertencerem
ao mesmo governo, é regra um sabotar o outro. Ambos têm
os olhos fixos nas eleições presidenciais da primavera
de 2007, nas quais, segundo as pesquisas, são os favoritos.
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