Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Internacional
Paris está em chamas

Semana marcada por confrontos
em subúrbios da capital francesa
põe em evidência a dificuldade
de integrar imigrantes


Antonio Ribeiro, de Paris


Thomas Coex/AAFP
NOITES VIOLENTAS
Policiais franceses em Clichy-sous-Bois, subúrbio de Paris: a explosão dos guetos

Na semana passada, grupos de jovens desempregados, na maioria de origem árabe ou africana, transformaram os subúrbios de Paris em campo de batalha. Eles depredaram escolas e estabelecimentos comerciais, atearam fogo a centenas de carros e entraram em confronto com a polícia e os bombeiros. Enquanto isso, em Marselha, sindicalistas radicais decidiram manter uma greve dos transportes públicos que já dura mais de um mês e deixa a cidade no caos. No âmbito da Comunidade Européia, a França não é a única a enfrentar tensões causadas pela imigração, pelo desemprego e pelo apego de certos grupos a privilégios arcaicos. Mas a violência com que esses fantasmas assombraram o país nos últimos dias lançou luz sobre um fato incômodo: a França está cada vez mais atolada na estagnação econômica e nas crises que dela decorrem. E não existe consenso entre suas lideranças políticas a respeito de como sair do buraco.

Nas últimas décadas, a França tem gasto muito mais do que arrecada. A dívida pública acumulada é de 1 trilhão de euros, ou 64% do PIB. A indústria francesa perdeu, nas últimas três décadas, 1,5 milhão de empregos. A redução da jornada semanal de trabalho, introduzida pelos socialistas, não criou novos empregos, mas encetou a falência de milhares de pequenas empresas que formam a base da economia francesa. Num mundo cada dia mais competitivo, os franceses trabalham menos que seus vizinhos europeus. Eles entram mais tarde no mercado de trabalho e saem mais cedo. Em média, aposentam-se com 57 anos – e os europeus, com 64. Hoje, quatro entre dez franceses vivem de aposentadoria. A previsão para 2040 é de sete para dez. O déficit do serviço previdenciário é da ordem de 11 bilhões de euros. O custo da mão-de-obra francesa é o dobro do da espanhola, quatro vezes superior ao da polonesa. A França é recordista mundial de encargos salariais, com 39% do custo da mão-de-obra. A falta de dinamismo explica a taxa de crescimento anêmica, de menos de 2% do PIB.

Frank Prevel/Reuters
MENOS CONVERSA
Nicolas Sarkozy, ministro do Interior: ele defende tolerância zero para os distúrbios


Nesse cenário, as centrais sindicais francesas, na maioria atreladas aos partidos de extrema esquerda, têm mostrado uma formidável resistência a reformas que flexibilizem o mercado de trabalho e fomentem a competitividade. A greve em Marselha é um exemplo dessa resistência. Ela é uma represália à proposta do governo de terceirizar a administração dos serviços de transporte público. A idéia é corrigir certas aberrações que pesam no bolso do contribuinte. Por exemplo, a taxa de insalubridade criada para beneficiar os condutores de trens movidos a carvão – há décadas os trens franceses são elétricos. Por obra do sindicalismo intransigente, a segunda maior cidade francesa foi privada dos seus 600 ônibus e de 140 trens suburbanos, metrôs e bondes. Os transtornos são enormes, sobretudo entre a população mais carente. Desde o início da greve as consultas médicas nos hospitais marselheses diminuíram em 80%, e as crianças das famílias mais pobres estão privadas de escola. Segundo a câmara de comércio local, a paralisação já causou um prejuízo de 30 milhões de euros.

O vandalismo que amedronta a periferia de Paris, e que ameaça se alastrar para outros pontos do país, teve início no dia 27 de outubro, depois da morte de dois jovens africanos, eletrocutados numa central elétrica em que haviam se escondido – aparentemente para escapar de uma batida policial. Mas o combustível da revolta é outro. Nos conjuntos habitacionais que ficam às margens das grandes cidades francesas, 30% da população está desempregada – o triplo do índice nacional. No ano passado, apenas 15% dos jovens suburbanos entre 15 e 24 anos conseguiram emprego. Essa taxa de atividade é a metade da média européia. A ampla maioria dos estudantes que abandonam a escola sem diploma pertence à primeira e à segunda gerações de imigrantes do Oriente Médio e da África. Muitos desses jovens são arregimentados pelo fundamentalismo islâmico e pelo tráfico de drogas.

A violência em Paris na semana passada pôs o governo francês em situação delicada. O presidente Jacques Chirac permaneceu alheio aos conflitos enquanto pôde. Depois, apareceu para "pedir calma". As atenções se concentraram mesmo na ação dos dois herdeiros políticos do presidente, o primeiro-ministro Dominique de Villepin e o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy. Villepin é conciliador. Prega o "patriotismo econômico" e mudanças graduais no sistema de benefícios sociais e previdenciários. Nos episódios de Paris, demorou para agir e depois disse que "não existe situação milagrosa para a situação das periferias". Sarkozy é apóstolo da ruptura total com o passado. Defende a introdução de reformas rápidas e substanciais – sem temor de enfrentar quem resiste. Para ele, a solução dos distúrbios nos arredores de Paris passa pela ação firme da polícia. Ele causou polêmica ao afirmar que os revoltosos são "a escória da sociedade". Apesar de Villepin e Sarkozy pertencerem ao mesmo governo, é regra um sabotar o outro. Ambos têm os olhos fixos nas eleições presidenciais da primavera de 2007, nas quais, segundo as pesquisas, são os favoritos.

 
 
 
 
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