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Comportamento Vida
sobre próteses Ativo e esportista,
Cameron Clapp foi atropelado por um trem aos 15 anos. Hoje, quatro anos
depois, voltou a ser ativo e esportista  Laura
Ming
O que acontece com um garoto de 15 anos
que perde as duas pernas e um braço? Se for Cameron Clapp, sai andando
por aí e ainda corre e nada. Como esta é uma história
real, ele também sofre, chora e se revolta. Não gosta de conversa
sentimental sobre superar obstáculos e outros clichês que afligem
as vítimas de grandes devastações físicas, mas entende
de maneira quase inatingível para pessoas comuns o valor da motivação.
Reciclado para a vida pela confluência entre a força de vontade e
a alta tecnologia, ele conta sua história com realismo. E que história.
Em 2001, quando aconteceu o fatídico 11 de Setembro, Cameron tinha 15 anos
e era um típico menino esportista de classe média da Califórnia:
gostava de surfe e de skate e jogava beisebol, basquete e futebol americano na
escola. Chocado com o atentado que destruiu o World Trade Center, chamou amigos
e vizinhos e construíram atrás da sua casa, perto de uma ferrovia,
um memorial em homenagem às vítimas. Depois, como era fim de semana,
saiu com a turma para beber. Ao voltar, às 3 da manhã, parou para
admirar o memorial. A partir daí, não se lembra de mais nada
não sabe se desmaiou em cima dos trilhos da ferrovia, se dormiu, se caiu.
Destroçado por um trem, Cameron perdeu as duas pernas na altura do joelho,
quase todo o braço direito e ainda 80% do sangue do corpo. Passou três
dias em coma e saiu, todo amputado, vinte dias depois.
"Desde o início eu odiava ver as pessoas me ajudando.
Não queria depender de ninguém", disse Cameron a VEJA. Em quatro
anos, ele reaprendeu a andar, correr e manipular objetos com a ajuda de próteses
de alta tecnologia. O aprendizado foi duro, e ainda requer um esforço fenomenal.
"Tenho de conviver com isso cada minuto que passo acordado na vida. Não
é fácil", desabafa. Vivendo com a mãe, o padrasto e quatro
irmãos, sendo um gêmeo, Cameron passou por várias ondas de
choque. "Sentia frustração e raiva. Queria andar de skate, sair
com garotas, ir a festas. Eu sempre tive tudo e, de repente, me sobrou só
um braço." Durante um ano, o adolescente mutilado viveu em cadeira de rodas,
reaprendendo tudo, até que a família chegou, via internet, à
Hanger Orthopedic Group, empresa de Maryland que desenvolve tecnologia para próteses.
Contou a história, a Hanger se interessou, o plano de saúde cobriu
as despesas (uma prótese chega a custar 40.000 dólares) e Cameron
virou uma espécie de piloto de teste do que há de mais moderno no
setor. "Desenvolvemos produtos especialmente
para ele, com amortecimento e possibilidade de expansão muscular adequados
para um jovem que pratica esportes", diz Kevin Carroll, vice-presidente da Hanger.
"Além disso, ele testa todas as nossas novidades, produtos que ainda vão
demorar um ou dois anos para chegar ao mercado." Final feliz? Nada disso. A fase
de adaptação às próteses foi terrível. "Eu
tentava ficar de pé e não conseguia, tentava andar e caía.
Caí muito. Tive um ataque de choro de ficar totalmente descontrolado",
lembra. No início, usou próteses pequenas para fortalecer os músculos
inativos. Depois trocou por aparelhos com chips que calculam o movimento da perna
e ajustam hidraulicamente os joelhos para combinarem com seu passo e o piso. Para
correr, tem uma versão levíssima, com extremidades de fibra de carbono;
para nadar, pernas e braço mecânicos mais curtos, ambos acoplados
a nadadeiras. "Demorei alguns meses
para entender que precisava ter objetivos na vida. Estabeleci como prioridade
que tinha de voltar a ficar de pé", conta Cameron, que atualmente nada
quatro dias por semana, corre dois faz 100 metros em onze segundos
e participa de competições para deficientes físicos. Vai
à faculdade (quer trabalhar no desenvolvimento de próteses) dirigindo
o próprio carro e, mais recentemente, passou a viajar sozinho
pelos Estados Unidos, pago pela Hanger para falar sobre tecnologia de próteses
e como superar limitações. Aprecia as viagens ("O maior problema
é na hora da revista no aeroporto", brinca) e ganhou desenvoltura em público.
"Eu me acostumei com a idéia de ser o garoto com três membros amputados.
Tenho um corpo diferente. É normal, tudo bem que me olhem assim", diz.
Não bebe mais ("Não acho graça") e seu único "vício"
é a tomada: o braço e as pernas biônicas têm de ser
recarregados todos os dias. Analisa com realismo o tamanho de suas dificuldades
e se permite até uma dose de otimismo: "Estou limitado a atividades robóticas
e gasto três vezes mais energia que um corpo normal para me movimentar.
Mas a tecnologia está evoluindo e minha vida só vai melhorar". |