Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Comportamento
Vida sobre próteses

Ativo e esportista, Cameron Clapp
foi atropelado por um trem aos
15 anos. Hoje, quatro anos depois,
voltou a ser ativo e esportista


Laura Ming

O que acontece com um garoto de 15 anos que perde as duas pernas e um braço? Se for Cameron Clapp, sai andando por aí – e ainda corre e nada. Como esta é uma história real, ele também sofre, chora e se revolta. Não gosta de conversa sentimental sobre superar obstáculos e outros clichês que afligem as vítimas de grandes devastações físicas, mas entende de maneira quase inatingível para pessoas comuns o valor da motivação. Reciclado para a vida pela confluência entre a força de vontade e a alta tecnologia, ele conta sua história com realismo. E que história. Em 2001, quando aconteceu o fatídico 11 de Setembro, Cameron tinha 15 anos e era um típico menino esportista de classe média da Califórnia: gostava de surfe e de skate e jogava beisebol, basquete e futebol americano na escola. Chocado com o atentado que destruiu o World Trade Center, chamou amigos e vizinhos e construíram atrás da sua casa, perto de uma ferrovia, um memorial em homenagem às vítimas. Depois, como era fim de semana, saiu com a turma para beber. Ao voltar, às 3 da manhã, parou para admirar o memorial. A partir daí, não se lembra de mais nada – não sabe se desmaiou em cima dos trilhos da ferrovia, se dormiu, se caiu. Destroçado por um trem, Cameron perdeu as duas pernas na altura do joelho, quase todo o braço direito e ainda 80% do sangue do corpo. Passou três dias em coma e saiu, todo amputado, vinte dias depois.

"Desde o início eu odiava ver as pessoas me ajudando. Não queria depender de ninguém", disse Cameron a VEJA. Em quatro anos, ele reaprendeu a andar, correr e manipular objetos com a ajuda de próteses de alta tecnologia. O aprendizado foi duro, e ainda requer um esforço fenomenal. "Tenho de conviver com isso cada minuto que passo acordado na vida. Não é fácil", desabafa. Vivendo com a mãe, o padrasto e quatro irmãos, sendo um gêmeo, Cameron passou por várias ondas de choque. "Sentia frustração e raiva. Queria andar de skate, sair com garotas, ir a festas. Eu sempre tive tudo e, de repente, me sobrou só um braço." Durante um ano, o adolescente mutilado viveu em cadeira de rodas, reaprendendo tudo, até que a família chegou, via internet, à Hanger Orthopedic Group, empresa de Maryland que desenvolve tecnologia para próteses. Contou a história, a Hanger se interessou, o plano de saúde cobriu as despesas (uma prótese chega a custar 40.000 dólares) e Cameron virou uma espécie de piloto de teste do que há de mais moderno no setor.

"Desenvolvemos produtos especialmente para ele, com amortecimento e possibilidade de expansão muscular adequados para um jovem que pratica esportes", diz Kevin Carroll, vice-presidente da Hanger. "Além disso, ele testa todas as nossas novidades, produtos que ainda vão demorar um ou dois anos para chegar ao mercado." Final feliz? Nada disso. A fase de adaptação às próteses foi terrível. "Eu tentava ficar de pé e não conseguia, tentava andar e caía. Caí muito. Tive um ataque de choro de ficar totalmente descontrolado", lembra. No início, usou próteses pequenas para fortalecer os músculos inativos. Depois trocou por aparelhos com chips que calculam o movimento da perna e ajustam hidraulicamente os joelhos para combinarem com seu passo e o piso. Para correr, tem uma versão levíssima, com extremidades de fibra de carbono; para nadar, pernas e braço mecânicos mais curtos, ambos acoplados a nadadeiras.

"Demorei alguns meses para entender que precisava ter objetivos na vida. Estabeleci como prioridade que tinha de voltar a ficar de pé", conta Cameron, que atualmente nada quatro dias por semana, corre dois – faz 100 metros em onze segundos – e participa de competições para deficientes físicos. Vai à faculdade (quer trabalhar no desenvolvimento de próteses) dirigindo o próprio carro e, mais recentemente, passou a viajar – sozinho – pelos Estados Unidos, pago pela Hanger para falar sobre tecnologia de próteses e como superar limitações. Aprecia as viagens ("O maior problema é na hora da revista no aeroporto", brinca) e ganhou desenvoltura em público. "Eu me acostumei com a idéia de ser o garoto com três membros amputados. Tenho um corpo diferente. É normal, tudo bem que me olhem assim", diz. Não bebe mais ("Não acho graça") e seu único "vício" é a tomada: o braço e as pernas biônicas têm de ser recarregados todos os dias. Analisa com realismo o tamanho de suas dificuldades e se permite até uma dose de otimismo: "Estou limitado a atividades robóticas e gasto três vezes mais energia que um corpo normal para me movimentar. Mas a tecnologia está evoluindo e minha vida só vai melhorar".

 
 
 
 
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