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Demografia O
país dos solteirões Devido
à campanha do filho único, um em cada seis chineses nunca
encontrará uma noiva  José
Eduardo Barella Claro
Cortes/Reuters
 | | Casal
de namorados em Xangai: a China tem 23 milhões de jovens encalhados |
Em uma população de 1,3 bilhão de habitantes, o mais difícil
para um jovem chinês é encontrar uma noiva. A razão é
um excesso de 23 milhões de rapazes em relação à população
feminina numa idade em que, normalmente, as pessoas se casam pela primeira vez.
Os solteirões chineses concentram-se na faixa dos 20 aos 30 anos. Para
cada 100 moças, há 120 rapazes nesse grupo populacional. Até
2020, um em cada seis chineses jamais encontrará uma esposa. Em circunstâncias
biológicas normais sem interferências de epidemias, guerras
ou políticas de controle de natalidade , uma sociedade costuma ter
uma proporção de 105 homens para cada 100 mulheres. Na China, o
desequilíbrio deve-se, em primeiro lugar, à política de filho
único que o governo adotou em 1979 para conter o crescimento populacional.
Em segundo, à preferência cultural por herdeiros homens. Os incentivos
dados aos pais que limitassem a família a apenas um filho fizeram a taxa
de fertilidade, que era de seis crianças por mulher, cair para 1,7 nos
últimos 25 anos. Um efeito não desejado foi o aumento brutal do
infanticídio de meninas. Na
China, como em outras sociedades patriarcais, as famílias preferem filhos
homens. Não existe orgulho maior para um pai chinês do que o nascimento
de um bebê do sexo masculino. As filhas, em contrapartida, são consideradas
um estorvo. Elas não têm a mesma força física para
o trabalho braçal no campo e ainda dão prejuízo à
família ao se casar a tradição manda que os pais paguem
um dote ao noivo. A prática de matar meninas recém-nascidas, tradicionalmente
elevada na China, disparou a partir da década de 80. Atualmente, a taxa
de mortalidade infantil de bebês femininos é o dobro da registrada
entre os do sexo masculino. Nos últimos anos, com a popularização
de exames de ultra-som, os pais também passaram a recorrer ao aborto quando
descobrem que o feto é de uma menina. Não é, no entanto,
a primeira vez que há falta de mulheres na China. Na história do
país, o aumento exagerado da população masculina em certas
regiões costumava estar ligado a períodos prolongados de fome. Algumas
famílias, para assegurar que os demais integrantes não morressem
por falta de comida, matavam as meninas logo que nasciam.
Para evitar que a próxima geração de jovens enfrente a mesma
falta de mulheres verificada hoje, o governo chinês precisaria rever imediatamente
a regra do filho único mas, por enquanto, o governo de Pequim prefere
deixar as coisas como estão. As conseqüências dessa superpopulação
de solteirões não são nada animadoras. Demógrafos
prevêem um aumento na migração de jovens do campo para as
cidades em busca de uma parceira. Outra tendência é a do crescimento
da prostituição e, por tabela, da disseminação de
doenças sexualmente transmissíveis, como a aids. Para completar,
sociedades em que faltam mulheres costumam ver um crescimento das taxas de violência.
Isso já vem ocorrendo em algumas áreas rurais da China. O seqüestro
de mulheres é a modalidade de crime que mais cresce nessas regiões.
Elas são obrigadas a se casar ou acabam sendo vendidas para a prostituição.
No mercado negro, uma jovem em idade certa para ser esposa pode custar 2.000 dólares,
uma pequena fortuna para os padrões chineses. Goh
Chai Hin/AFP
 | | Jovens
numa festa em Pequim: sem noivas |
Recentemente, as autoridades chinesas decidiram oferecer uma pensão extra
às famílias com filhas. A medida é insuficiente, segundo
especialistas. "Se a política do filho único não for alterada,
o que dificilmente deve ocorrer antes de 2010, a China será obrigada a
incentivar a imigração de mulheres de outros países", disse
a VEJA a cientista política americana Valerie Hudson, autora de um estudo
sobre o crescimento da população masculina na China. As mulheres
estão aproveitando o excesso de oferta para escolher a dedo o pretendente.
Até se criou uma espécie de mercado casamenteiro informal num parque
de Pequim, ao lado da Cidade Proibida. Pais e mães se reúnem semanalmente
levando cartazes com fotos e dados do rebento com a esperança de arrumar
uma noiva para o filho. É uma medida desesperada em um país onde,
por serem pouco valorizadas, as mulheres jovens começam a se transformar
em uma raridade.
Terror em Linyi Funcionários
públicos obrigam mulheres a fazer abortos e esterilizações
Goh
Chai Hin/AFP
 | | Cartaz
da campanha do filho único: multa para as famílias que têm mais de uma criança
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A cidade de Linyi, na província
de Shandong, no leste da China, está mergulhada no terror. Desde março
passado, funcionários públicos já forçaram pelo menos
7 000 mulheres a fazer aborto ou a se submeter a cirurgias de esterilização.
Os relatos impressionam pela violência. Um deles narra a história
de uma mulher que, no nono mês de gestação, foi rendida dentro
de sua própria casa. Agentes do governo aplicaram-lhe uma injeção
no ventre e dez horas depois ela deu à luz uma menina morta. Nas
famílias com mais de um filho, muitas mulheres simplesmente foram arrastadas
às clínicas de esterilização. Parentes que resistiram
à medida foram ameaçados, presos ou torturados. Essas atrocidades
são reflexo da rígida política de controle de natalidade
que vigora no país há mais de vinte anos. Os funcionários
das províncias que registram as menores taxas de nascimento ao longo de
um ano são promovidos e recebem benefícios extras. Em 2004, como
Linyi foi a recordista de nascimentos em toda Shandong, os servidores partiram
para a solução da força, a fim de cumprir suas "metas".
O porta-voz da Comissão Nacional de Planejamento Populacional e Familiar
da China, Yu Xuejon, reconhece os crimes cometidos pelos funcionários de
Linyi e promete punição. "Como, no entanto, o objetivo primordial
dessas ações é conter o crescimento populacional, duvido
que alguém seja realmente punido", disse a VEJA Teng Biao, professor de
ciência política e direito da Universidade da China, que acompanha
o caso de perto. Até agora, a única condenação é
a de Chen Guangcheng. Aos 34 anos, cego, ele foi o primeiro a denunciar, em agosto
último, as perseguições ocorridas em Linyi. Em represália,
foi colocado atrás das grades. Hoje, Guangcheng está em prisão
domiciliar sem telefone e sem computador.
Na China, o aborto é legal e, em algumas regiões, até incentivado,
como forma de conter o avanço demográfico. Em 1949, ano da criação
da República Popular da China, o país contava com 540 milhões
de habitantes. Vinte anos mais tarde, chegava a 800 milhões de pessoas.
Entre o fim da década de 70 e o início dos anos 80, a população
do país chegou a 1 bilhão. Como forma de conter esse aumento, o
governo implementou um rígido programa de controle de natalidade. Sob pena
de multas pesadas e outras sanções, os chineses foram proibidos
de ter mais de um filho. Exceção feita aos pais de meninas, moradores
de áreas rurais, e àqueles casais que geraram crianças com
deficiências físicas. Ainda assim, a China conta hoje com 1,3 bilhão
de habitantes. Giuliana Bergamo |
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