Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Consumo
O salto do comércio justo

Cresce a venda de produtos feitos sob
a etiqueta do politicamente correto


Chrystiane Silva

 

Divulgação
Espanha: ONGs se empenham em promover os produtos Fair Trade

Somente no ano passado, consumidores de países ricos gastaram mais de 1,2 bilhão de dólares comprando produtos cujos fabricantes comprovadamente coíbem abusos trabalhistas e ambientais. Esses produtos levam o selo da Fairtrade Labelling Organization (FLO), instituição internacional que certifica fabricantes ao redor do mundo que se comprometam a cumprir regras "solidárias" – uma espécie de cartilha politicamente correta aplicada ao comércio internacional. A idéia surgiu na década de 60, quando agências de cooperação e organizações não-governamentais americanas cogitaram criar uma ajuda financeira a pequenos produtores que se dispusessem a reduzir o uso de agrotóxicos e não empregar trabalho infantil. Depois de quase cair no esquecimento por décadas, um sistema similar foi criado em 1986, e a moda "pegou" nos anos 90 com o surgimento de uma classe de consumidores, nos países ricos, disposta a pagar mais na esperança de promover a defesa do meio ambiente e dos direitos humanos em lugares distantes. No ano passado, as vendas mundiais desse tipo de produto aumentaram 30%.

Com o crescimento desse mercado, empresas como a rede de cafeterias Starbucks e a Dunkin' Donuts só passaram a importar café de produtores certificados. Outras gigantes, como a Kraft, possuem várias linhas de produtos que levam o selo do comércio justo. Calcula-se que 1 milhão de produtores e suas famílias estejam sendo beneficiados em cinqüenta países. Periodicamente fiscalizados, eles exportam não só produtos agrícolas – como café, chá e cacau –, mas também vinhos e artigos esportivos.

Divulgação
Starbucks: só café certificado


No Brasil, a implementação do sistema teve dificuldades curiosas. No início, várias empresas americanas e européias se encantavam com o compromisso ambiental e trabalhista dos produtores locais, mas negavam-se a pagar-lhes o prêmio previsto no mecanismo. Além disso, muitos sindicatos de produtores rurais diziam que o sistema de fair trade, repleto de exigências, não passava de um instrumento dos países ricos para conter exportações de nações em desenvolvimento. O mecanismo só foi implantado no Brasil em 1998. Hoje reúne dezessete grupos de produtores, que exportaram, no ano passado, 2 milhões de dólares em produtos com o selo. Um dos casos mais bem-sucedidos é o projeto Suco Justo. Alemães e austríacos ficaram sensibilizados com o trabalho infantil na colheita de laranja e se comprometeram a pagar um preço igual ou maior que o definido pelo mercado e mais um prêmio de 100 dólares por tonelada de suco vendida. O grupo de colhedores beneficiados pertence à Associação dos Citricultores do Paraná (Acipar). Com o dinheiro do prêmio foram criados cursos de capacitação de colhedores, manutenção de tratores, datilografia e informática.

 

Vendas solidárias

Exigências do sistema de fair trade

1 Criar associações democráticas que reúnam os produtores

2 Ser transparente na prestação de contas

3 Não discriminar nem mulheres nem índios

4 Reduzir o uso de agrotóxicos

5 Abolir o trabalho forçado

6 Não empregar crianças

7 Criar empregos com carteira assinada

8 Ter condições de trabalho saudáveis e seguras

Fonte: BSD – Desenvolvimento Econômico e Social
(consultoria especializada em comércio justo e responsabilidade
social, empresarial e representante da FLO no Brasil)

 
 
 
 
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