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Brasil
O vôo do dinheiro de Cuba
Ouvido por VEJA, o piloto do Seneca
confirma que voou com Vladimir Poleto
de Brasília para São Paulo e que, a bordo,
havia mesmo três caixas de "bebida"

Marcelo Carneiro
Marcos Fernandes/Ag. Luz
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"FUI EU QUEM FEZ O VÔO.
EM BRASÍLIA, O VLADIMIR POLETO DISSE QUE TINHA UMAS CAIXAS
PARA LEVAR NO VÔO DE VOLTA PARA SÃO PAULO. ELE
ME PERGUNTOU SE TINHA ALGUM PROBLEMA. EU DISSE QUE NÃO.
ERAM TRÊS CAIXAS DE PAPELÃO LACRADAS. POR CAUSA
DO MAU TEMPO, POUSAMOS EM CAMPINAS. ELE MESMO TIROU AS CAIXAS
DO AVIÃO."
ALÉCIO FONGARO,
o piloto que levou os dólares
cubanos a bordo do Seneca prefixo PT-RSX |
A reportagem de capa da edição
passada de VEJA, na qual se noticia que o comitê eleitoral
de Lula recebeu até 3 milhões de dólares vindos
de Cuba, gerou um notável acirramento dos ânimos de
governistas e oposicionistas. Enquanto estrelas do governo e do
PT diziam que a reportagem era "fantasiosa" e "mentirosa", tucanos
e pefelistas saíram anunciando a abertura de um processo
de impeachment do presidente Lula e pedindo a cassação
do registro do PT na Justiça Eleitoral. O fundamental, no
entanto, era que a denúncia fosse devidamente investigada
pelos canais competentes e, passada a exaltação
inicial, as coisas começaram a voltar aos eixos. A oposição
fez um pedido de investigação ao Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), que vai se debruçar agora sobre a contabilidade
eleitoral do PT. Às CPIs, foram apresentados requerimentos
para a convocação de dez pessoas citadas no caso.
O primeiro a falar, em depoimento marcado para esta terça-feira,
será o economista Vladimir Poleto, o ex-auxiliar de Antonio
Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto que transportou os
dólares cubanos de Brasília para São Paulo.
O caso, porém, já
não se encontra no mesmo patamar. Na semana passada, ocorreram
algumas confirmações relevantes:
O empresário Roberto Colnaghi admitiu ter cedido o avião
que transportou os dólares cubanos, mas ressalvou que não
sabia que a aeronave seria usada para esse fim. Em nota à
imprensa, Colnaghi informou o prefixo do avião (PT-RSX),
o nome do piloto (Alécio Fongaro) e a data do vôo (31
de julho de 2002). A operação, portanto, ocorreu no
último dia de julho, e não entre agosto e setembro,
como VEJA noticiara.
A revista verificou os registros do Departamento de Aviação
Civil (DAC), que arquiva dados sobre todos os vôos feitos
no país, e certificou-se da informação de Roberto
Colnaghi: em 31 de julho de 2002, de fato, o Seneca PT-RSX decolou
de Brasília às 12h20, com destino a São Paulo,
mas acabou pousando no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, por
causa do mau tempo (veja
o detalhamento da rota).
O piloto Alécio Fongaro, ouvido por VEJA, confirma o vôo.
"Fui eu quem fez o vôo. Em Brasília, o Vladimir Poleto
disse que tinha umas caixas para levar no vôo de volta para
São Paulo. Ele me perguntou se tinha algum problema. Eu disse
que não. Eram três caixas de papelão lacradas",
diz Fongaro, informando que não sabia qual era o conteúdo
das caixas. "Por causa do mau tempo, pousamos em Campinas. Ele mesmo
tirou as caixas do avião."
Nelio Rodrigues/1º Plano
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| Buratti, que sabia da história toda: "Ouvi
os detalhes contados pelo próprio Poleto" |
Alécio Fongaro, 49 anos,
tem brevê, a carteira de habilitação de piloto,
há dezesseis anos. Ele mora em Andradina, no interior de
São Paulo. Na semana passada, Fongaro falou com VEJA pela
primeira vez, por telefone, na noite de quinta-feira. Na manhã
seguinte, concordou em receber a revista em um hotel em Campo Grande,
capital de Mato Grosso do Sul, onde se encontrava a serviço.
Nesse segundo contato, Fongaro deu mais detalhes do vôo e
permitiu que a entrevista fosse gravada. Ele conta que, no fim de
julho de 2002, recebeu um pedido para voar até Brasília
com o Seneca PT-RSX para pegar uma pessoa. Não sabia quem
era a pessoa nem o motivo do transporte. O pedido foi feito por
José Carlos Bico Fabril, piloto-chefe das aeronaves do empresário
Roberto Colnaghi. Fongaro diz que, em 2002, Colnaghi era dono de
um jato Citation em sociedade com os controladores do grupo Bertin,
que atua no ramo de frigoríficos. "Como eu presto serviços
para o Bertin, não podia deixar de atender a um pedido do
Colnaghi", diz.
O piloto conta que pousou em
Brasília ainda na manhã de 31 de julho de 2002. Assim
que ele chegou ao aeroporto, Vladimir Poleto apareceu a bordo de
uma van, apresentou-se e perguntou se poderia embarcar com as três
caixas. "Elas estavam lacradas com fita adesiva e pareciam caixas
de bebida, mas eu não vi o conteúdo", afirma o piloto.
Ele se recorda de que duas caixas foram acomodadas atrás
da poltrona de Poleto e a terceira ficou sob os pés do economista.
Passava do meio-dia quando o avião partiu, com destino ao
Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A cerca de 200 quilômetros
do ponto de chegada, Fongaro checou as condições atmosféricas
e constatou que não poderia pousar em Congonhas. Comunicou
a Poleto que alteraria a rota para Viracopos, em Campinas, e seguiu
viagem. Após o pouso em Viracopos, Poleto desceu do avião,
sem as caixas, e retornou minutos depois. O economista, então,
perguntou ao piloto se o Seneca poderia decolar novamente e pousar
no Aeroporto dos Amarais, também em Campinas, a apenas sete
minutos de vôo do Aeroporto de Viracopos.
Fongaro disse que bastava fazer
uma notificação à sala de tráfego de
Viracopos e seguir viagem. Foi o que aconteceu. O procedimento levou
cerca de meia hora. Por que Poleto teria pedido para voar de Viracopos
para Amarais? Não se sabe, mas um piloto ouvido por VEJA
apresentou uma possível razão para a mudança
de rota. "Viracopos é um aeroporto de maior porte, sob administração
federal. Lá, certamente ele teria de declarar o conteúdo
das caixas. Já em Amarais a fiscalização é
bem menos rigorosa", especula esse piloto. O fato é que Fongaro
e Poleto chegaram a Amarais perto do fim da tarde de 31 de julho.
Logo após o pouso em Amarais, Poleto desembarcou com as três
caixas. Fongaro lembra-se de que Poleto foi ao encontro de uma pessoa,
que o esperava dentro de um automóvel. "Não conseguiria
identificar essa pessoa, nem a marca do carro, mas imagino que ela
já estava no aeroporto", diz Fongaro. Poleto, então,
despediu-se do piloto. Foi a primeira e última vez que se
viram.
A história de Fongaro
faz duas correções na versão inicial do caso.
Ele garante que, ao contrário do que Poleto dissera a VEJA
há duas semanas, eles não voaram juntos de São
Paulo para Brasília mas apenas no trajeto de volta,
de Brasília para São Paulo, quando as três caixas
estavam a bordo. Garante, também, que a última etapa
do vôo foi em Amarais, e não em Viracopos. O piloto
diz que, ao ler a edição passada de VEJA, percebeu
que participara da história: "Reconheci o Vladimir na foto
que a revista publicou e, lendo a reportagem, percebi que o trajeto
relatado, com uma mudança de rota de Congonhas para Viracopos,
tinha sido feito por mim", diz ele. "Fiquei assustado; não
tinha idéia do que ele levava no avião." Os dólares
cubanos foram apanhados em Brasília por Vladimir Poleto a
pedido de seu amigo Ralf Barquete, outro ex-assessor de Palocci
e falecido em junho de 2004. Barquete apanhou as caixas no aeroporto,
aonde chegou a bordo de um Omega preto, blindado, alugado ao comitê
eleitoral do PT pelo empresário Roberto Carlos Kurzweil.
Quem dirigia o carro era o motorista Éder Eustáquio
Soares Macedo.
Na semana passada, Kurzweil voltou
a confirmar que alugara o Omega blindado ao PT, mas o motorista
Éder Macedo, que hoje mora e trabalha no Rio de Janeiro,
passou a semana escapulindo da imprensa. Quando for à CPI,
o motorista será indagado se dirigiu o carro até o
aeroporto levando a bordo Ralf Barquete e se, ao chegar, ajudou
a colocar três caixas de papelão dentro do porta-malas.
Éder Macedo já confirmou isso a VEJA, em contato telefônico
feito há duas semanas, cujo conteúdo está gravado.
Mas, depois de admitir que participara da expedição,
o motorista resolveu fugir da imprensa. Macedo trabalha como motorista
da representação do Ministério da Fazenda no
Rio. Ali, tem regalias das quais seus colegas não compartilham.
Ganha 1.220 reais, um salário muito mais elevado do que a
média do dos demais motoristas, e tem o privilégio
de usar o elevador privativo do ministro Palocci. Com a mulher e
o filho, Macedo mora no bairro Jardim Aimorés, em Queimados,
na Baixada Fluminense, numa boa casa de dois andares.
Quem também sumiu do alcance
da imprensa foi o diplomata cubano Sérgio Cervantes. Uma
fonte petista informou a VEJA que foi no apartamento de Cervantes,
em Brasília, que Poleto pegou as três caixas de "bebida"
que levou para o comitê eleitoral de Lula em São Paulo.
Quando VEJA chegou às bancas no fim de semana passado, Cervantes
estava no Brasil, mas voou para o exterior na segunda-feira, sem
tocar no assunto. A Embaixada de Cuba, em nota oficial, desmentiu
"categoricamente" ter dado dinheiro à campanha de Lula e
achou que a reportagem "injuriosa" se deve a uma tentativa
de sabotar uma tal Operação Milagre, pela qual Cuba
faria cirurgias oftalmológicas gratuitas em 100 brasileiros
por dia... O advogado Rogério Buratti, outro ex-auxiliar
de Palocci que confirmara a VEJA ter ouvido falar dos dólares
cubanos, disse na semana passada que conhecia a história
completa. Disse Buratti: "Eu ouvi a história toda, com os
detalhes do transporte, contada pelo próprio Poleto".
Com reportagem de
Policarpo Junior, de Brasília;
e Ronaldo Soares, do Rio de Janeiro
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