Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Brasil
O vôo do dinheiro de Cuba

Ouvido por VEJA, o piloto do Seneca
confirma que voou com Vladimir Poleto
de Brasília para São Paulo e que, a bordo,
havia mesmo três caixas de "bebida"


Marcelo Carneiro


Marcos Fernandes/Ag. Luz
"FUI EU QUEM FEZ O VÔO. EM BRASÍLIA, O VLADIMIR POLETO DISSE QUE TINHA UMAS CAIXAS PARA LEVAR NO VÔO DE VOLTA PARA SÃO PAULO. ELE ME PERGUNTOU SE TINHA ALGUM PROBLEMA. EU DISSE QUE NÃO. ERAM TRÊS CAIXAS DE PAPELÃO LACRADAS. POR CAUSA DO MAU TEMPO, POUSAMOS EM CAMPINAS. ELE MESMO TIROU AS CAIXAS DO AVIÃO."
ALÉCIO FONGARO,
o piloto que levou os dólares cubanos a bordo do Seneca prefixo PT-RSX


NESTA REPORTAGEM
Quadro: A rota do Seneca

A reportagem de capa da edição passada de VEJA, na qual se noticia que o comitê eleitoral de Lula recebeu até 3 milhões de dólares vindos de Cuba, gerou um notável acirramento dos ânimos de governistas e oposicionistas. Enquanto estrelas do governo e do PT diziam que a reportagem era "fantasiosa" e "mentirosa", tucanos e pefelistas saíram anunciando a abertura de um processo de impeachment do presidente Lula e pedindo a cassação do registro do PT na Justiça Eleitoral. O fundamental, no entanto, era que a denúncia fosse devidamente investigada pelos canais competentes – e, passada a exaltação inicial, as coisas começaram a voltar aos eixos. A oposição fez um pedido de investigação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que vai se debruçar agora sobre a contabilidade eleitoral do PT. Às CPIs, foram apresentados requerimentos para a convocação de dez pessoas citadas no caso. O primeiro a falar, em depoimento marcado para esta terça-feira, será o economista Vladimir Poleto, o ex-auxiliar de Antonio Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto que transportou os dólares cubanos de Brasília para São Paulo.

O caso, porém, já não se encontra no mesmo patamar. Na semana passada, ocorreram algumas confirmações relevantes:

O empresário Roberto Colnaghi admitiu ter cedido o avião que transportou os dólares cubanos, mas ressalvou que não sabia que a aeronave seria usada para esse fim. Em nota à imprensa, Colnaghi informou o prefixo do avião (PT-RSX), o nome do piloto (Alécio Fongaro) e a data do vôo (31 de julho de 2002). A operação, portanto, ocorreu no último dia de julho, e não entre agosto e setembro, como VEJA noticiara.

A revista verificou os registros do Departamento de Aviação Civil (DAC), que arquiva dados sobre todos os vôos feitos no país, e certificou-se da informação de Roberto Colnaghi: em 31 de julho de 2002, de fato, o Seneca PT-RSX decolou de Brasília às 12h20, com destino a São Paulo, mas acabou pousando no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, por causa do mau tempo (veja o detalhamento da rota).

O piloto Alécio Fongaro, ouvido por VEJA, confirma o vôo. "Fui eu quem fez o vôo. Em Brasília, o Vladimir Poleto disse que tinha umas caixas para levar no vôo de volta para São Paulo. Ele me perguntou se tinha algum problema. Eu disse que não. Eram três caixas de papelão lacradas", diz Fongaro, informando que não sabia qual era o conteúdo das caixas. "Por causa do mau tempo, pousamos em Campinas. Ele mesmo tirou as caixas do avião."


Nelio Rodrigues/1º Plano
Buratti, que sabia da história toda: "Ouvi os detalhes contados pelo próprio Poleto"

Alécio Fongaro, 49 anos, tem brevê, a carteira de habilitação de piloto, há dezesseis anos. Ele mora em Andradina, no interior de São Paulo. Na semana passada, Fongaro falou com VEJA pela primeira vez, por telefone, na noite de quinta-feira. Na manhã seguinte, concordou em receber a revista em um hotel em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, onde se encontrava a serviço. Nesse segundo contato, Fongaro deu mais detalhes do vôo e permitiu que a entrevista fosse gravada. Ele conta que, no fim de julho de 2002, recebeu um pedido para voar até Brasília com o Seneca PT-RSX para pegar uma pessoa. Não sabia quem era a pessoa nem o motivo do transporte. O pedido foi feito por José Carlos Bico Fabril, piloto-chefe das aeronaves do empresário Roberto Colnaghi. Fongaro diz que, em 2002, Colnaghi era dono de um jato Citation em sociedade com os controladores do grupo Bertin, que atua no ramo de frigoríficos. "Como eu presto serviços para o Bertin, não podia deixar de atender a um pedido do Colnaghi", diz.

O piloto conta que pousou em Brasília ainda na manhã de 31 de julho de 2002. Assim que ele chegou ao aeroporto, Vladimir Poleto apareceu a bordo de uma van, apresentou-se e perguntou se poderia embarcar com as três caixas. "Elas estavam lacradas com fita adesiva e pareciam caixas de bebida, mas eu não vi o conteúdo", afirma o piloto. Ele se recorda de que duas caixas foram acomodadas atrás da poltrona de Poleto e a terceira ficou sob os pés do economista. Passava do meio-dia quando o avião partiu, com destino ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A cerca de 200 quilômetros do ponto de chegada, Fongaro checou as condições atmosféricas e constatou que não poderia pousar em Congonhas. Comunicou a Poleto que alteraria a rota para Viracopos, em Campinas, e seguiu viagem. Após o pouso em Viracopos, Poleto desceu do avião, sem as caixas, e retornou minutos depois. O economista, então, perguntou ao piloto se o Seneca poderia decolar novamente e pousar no Aeroporto dos Amarais, também em Campinas, a apenas sete minutos de vôo do Aeroporto de Viracopos.

Fongaro disse que bastava fazer uma notificação à sala de tráfego de Viracopos e seguir viagem. Foi o que aconteceu. O procedimento levou cerca de meia hora. Por que Poleto teria pedido para voar de Viracopos para Amarais? Não se sabe, mas um piloto ouvido por VEJA apresentou uma possível razão para a mudança de rota. "Viracopos é um aeroporto de maior porte, sob administração federal. Lá, certamente ele teria de declarar o conteúdo das caixas. Já em Amarais a fiscalização é bem menos rigorosa", especula esse piloto. O fato é que Fongaro e Poleto chegaram a Amarais perto do fim da tarde de 31 de julho. Logo após o pouso em Amarais, Poleto desembarcou com as três caixas. Fongaro lembra-se de que Poleto foi ao encontro de uma pessoa, que o esperava dentro de um automóvel. "Não conseguiria identificar essa pessoa, nem a marca do carro, mas imagino que ela já estava no aeroporto", diz Fongaro. Poleto, então, despediu-se do piloto. Foi a primeira e última vez que se viram.

A história de Fongaro faz duas correções na versão inicial do caso. Ele garante que, ao contrário do que Poleto dissera a VEJA há duas semanas, eles não voaram juntos de São Paulo para Brasília – mas apenas no trajeto de volta, de Brasília para São Paulo, quando as três caixas estavam a bordo. Garante, também, que a última etapa do vôo foi em Amarais, e não em Viracopos. O piloto diz que, ao ler a edição passada de VEJA, percebeu que participara da história: "Reconheci o Vladimir na foto que a revista publicou e, lendo a reportagem, percebi que o trajeto relatado, com uma mudança de rota de Congonhas para Viracopos, tinha sido feito por mim", diz ele. "Fiquei assustado; não tinha idéia do que ele levava no avião." Os dólares cubanos foram apanhados em Brasília por Vladimir Poleto a pedido de seu amigo Ralf Barquete, outro ex-assessor de Palocci e falecido em junho de 2004. Barquete apanhou as caixas no aeroporto, aonde chegou a bordo de um Omega preto, blindado, alugado ao comitê eleitoral do PT pelo empresário Roberto Carlos Kurzweil. Quem dirigia o carro era o motorista Éder Eustáquio Soares Macedo.

Na semana passada, Kurzweil voltou a confirmar que alugara o Omega blindado ao PT, mas o motorista Éder Macedo, que hoje mora e trabalha no Rio de Janeiro, passou a semana escapulindo da imprensa. Quando for à CPI, o motorista será indagado se dirigiu o carro até o aeroporto levando a bordo Ralf Barquete e se, ao chegar, ajudou a colocar três caixas de papelão dentro do porta-malas. Éder Macedo já confirmou isso a VEJA, em contato telefônico feito há duas semanas, cujo conteúdo está gravado. Mas, depois de admitir que participara da expedição, o motorista resolveu fugir da imprensa. Macedo trabalha como motorista da representação do Ministério da Fazenda no Rio. Ali, tem regalias das quais seus colegas não compartilham. Ganha 1.220 reais, um salário muito mais elevado do que a média do dos demais motoristas, e tem o privilégio de usar o elevador privativo do ministro Palocci. Com a mulher e o filho, Macedo mora no bairro Jardim Aimorés, em Queimados, na Baixada Fluminense, numa boa casa de dois andares.

Quem também sumiu do alcance da imprensa foi o diplomata cubano Sérgio Cervantes. Uma fonte petista informou a VEJA que foi no apartamento de Cervantes, em Brasília, que Poleto pegou as três caixas de "bebida" que levou para o comitê eleitoral de Lula em São Paulo. Quando VEJA chegou às bancas no fim de semana passado, Cervantes estava no Brasil, mas voou para o exterior na segunda-feira, sem tocar no assunto. A Embaixada de Cuba, em nota oficial, desmentiu "categoricamente" ter dado dinheiro à campanha de Lula e achou que a reportagem – "injuriosa" – se deve a uma tentativa de sabotar uma tal Operação Milagre, pela qual Cuba faria cirurgias oftalmológicas gratuitas em 100 brasileiros por dia... O advogado Rogério Buratti, outro ex-auxiliar de Palocci que confirmara a VEJA ter ouvido falar dos dólares cubanos, disse na semana passada que conhecia a história completa. Disse Buratti: "Eu ouvi a história toda, com os detalhes do transporte, contada pelo próprio Poleto".

Com reportagem de Policarpo Junior, de Brasília;
e
Ronaldo Soares, do Rio de Janeiro

 
 
 
 
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