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Brasil O caixa dois foi
mesmo o seu, o meu, o nosso suado dinheirinho A
CPI dos Correios descobre o primeiro sinal de um escândalo ainda maior:
o de que o PT pode ter afanado dinheiro dos cofres públicos para
pagar o mensalão  Julia
Duailibi Celso
Junior/AE
 | Rapahel
Neddermeyer/AE
 | | Valério
(à esq.) e Pizzolato, que foi diretor de marketing do BB: mudando
as regras para ajudar a agência do amigo |
O deputado Osmar Serraglio, do PMDB
do Paraná, foi o porta-voz da notícia mais devastadora que o governo
poderia receber no bojo das investigações do mensalão. Na
quinta-feira, Serraglio deu uma entrevista à imprensa relatando que a CPI
dos Correios descobrira que quase 10 milhões de reais saíram dos
cofres do Banco do Brasil, fizeram uma escala no caixa da agência de publicidade
DNA, de propriedade de Marcos Valério, e acabaram indo parar no bolso dos
mensaleiros. A descoberta, se vier a ser confirmada, é um tiro no coração
da tese montada pelo PT: não será mais possível sustentar,
como vinha sendo feito pelos petistas, que a dinheirama que escorreu pelo valerioduto
procedia de seis empréstimos selados junto aos bancos mineiros BMG e Rural,
somando 55 milhões de reais. Também se tornará insustentável
a versão de que, nos canais do valerioduto, não corria dinheiro
público. Por fim, ceifará o argumento do PT de que tudo se resumia
a um caixa dois, ou seja, ao caso de um partido político que, em vez de
contabilizar os recursos que recolheu, erroneamente deixou de fazê-lo. Não:
a notícia agora é a de que houve assalto aos cofres públicos
(leia-se "Nosso Suado Dinheirinho").
O caso levantado pela CPI dos Correios não pode ser tomado como prova cabal,
mas é o primeiro indício concreto de que o mensalão pode
ter sido irrigado com dinheiro público. O caso é o seguinte: o Banco
do Brasil repassou 35 milhões de reais à DNA, uma das agências
de Marcos Valério, que deveriam ter sido usados para custear campanhas
publicitárias de uma empresa da qual o bancão público é
sócio, a Visanet. Ocorre que nem todos os 35 milhões de reais tiveram
aparentemente o destino previsto. A CPI constatou que quase 10 milhões
de reais não foram aplicados em publicidade, e nem o Banco do Brasil sabe
dizer onde foram parar. Na quinta-feira, o Banco do Brasil admitiu que desconhece
o destino do dinheiro. Em linguagem destinada mais a esconder do que a revelar,
uma nota do BB diz o seguinte: "Com relação à diferença
de 9,1 milhões de reais, o Banco do Brasil encaminhou, em 25 de outubro
de 2005, notificação extrajudicial à agência DNA, tendo
em vista que até o presente momento se encontra pendente de conciliação
a aplicação desses recursos em ações de marketing
referentes a projetos autorizados pelo BB". Celso
Junior/AE
 | | O
relator Serraglio, da CPI dos Correios, está certo de que o PT afanou dinheiro
público |
Ou seja, o Banco
do Brasil não sabe onde o dinheiro está, na medida em que pede à
agência que explique o destino final dos recursos. No dia seguinte, depois
de perceber que sua nota contribuiu para a suspeita de que o mensalão foi
irrigado com dinheiro do banco, o BB lançou uma segunda nota. Nela, esclarece
que não há nenhum dado concreto para afirmar que a diferença
de 9,1 milhões de reais foi engordar o caixa do PT e faz questão
de explicar que ainda espera, da parte da DNA, a explicação detalhada
sobre o uso do dinheiro. "O BB repudia a tese, que julga prematura, de que a diferença
encontrada entre os valores adiantados à DNA e os pagamentos comprovados
tenha tido como destinação final o partido do governo." Na nota,
o Banco do Brasil faz questão de dizer que a conclusão de que o
dinheiro repassado a Marcos Valério pelo banco foi desviado para o PT é
baseada em "ilações" e que uma auditoria interna sobre o assunto
será finalizada nos próximos dias. A auditoria do banco, porém,
poderá no máximo mostrar se a DNA prestou ou não serviço
à instituição.
A CPI suspeita que os 10 milhões foram parar no valerioduto porque descobriu
que a DNA, depois de receber a verba do Banco do Brasil, decidiu fazer uma aplicação
em títulos do BMG. A transferência do dinheiro, no valor de 10 milhões
de reais do BB para o BMG, foi efetuada em 22 de abril do ano passado. Quatro
dias depois, em 26 de abril, o BMG concedeu um "empréstimo" à outra
empresa de Marcos Valério, a Rogério Lanza Tolentino e Associados,
cuja garantia era justamente a aplicação de 10 milhões de
reais feita no próprio BMG. E qual foi o destino dos 10 milhões
supostamente "emprestados" pelo BMG? Bem, isso já se sabe: é o mensalão.
Valério e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares já disseram
que esses 10 milhões de reais supostamente tomados de empréstimo
ao BMG faziam parte do dinheiro que pagou o mensalão. O que falta comprovar,
é claro, é que o empréstimo dos 10 milhões de reais
tenha sido apenas uma simulação contábil destinada a encobrir
a verdadeira origem do dinheiro no caso, os cofres do Banco do Brasil.
Se isso ficar provado, então se poderá afirmar que um pedaço
da verba que bancou o mensalão saiu dos cofres do BB.
"Não há mais dúvida", decretou o relator
da CPI dos Correios, Osmar Serraglio, ao anunciar a descoberta. "Há dinheiro
público no valerioduto. Ele veio de uma estatal, o Banco do Brasil, e foi
colocado nas mãos de um partido." A história talvez ainda não
esteja tão clara, mas há outros elementos a reforçá-la.
Um deles é o fato de que o empréstimo de 10 milhões contraído
no BMG chegou a vencer duas vezes, nunca foi pago por Marcos Valério e,
mesmo assim, nunca foi cobrado pelo banco mineiro. Somente depois que o escândalo
veio a público, o BMG decidiu cobrar a "dívida" na Justiça.
O calendário pode não passar de uma tremenda coincidência,
mas não deixa de ser mais um indício de que o papagaio de 10 milhões
no BMG pode ter sido apenas uma operação bancária para inglês
ver. Celso
Junior/AE
 | | Gushiken,
que era o comandante da Secom: 343% de superfaturamento |
Desde 2000, a agência de Valério embolsou mais de 80 milhões
de reais da cota do BB sobre a publicidade da Visanet. A maior parte, 74 milhões,
foi recebida no governo do PT. Até o início de 2003, a verba publicitária
da Visanet bancada pelo governo federal era dividida entre todas as agências
que prestam serviço ao BB. Isso mudou com a chegada dos petistas ao poder.
Os recursos foram concentrados numa única agência justamente
a DNA do amigo Marcos Valério e o pagamento passou a ser feito antecipadamente,
antes da prestação do serviço. O responsável pela
mudança foi o ex-arrecadador de recursos para a campanha presidencial do
PT, Henrique Pizzolato, que assumiu a direção de marketing do Banco
do Brasil após a posse de Lula. Pizzolato se afastou do cargo em julho
passado, depois de ser pilhado recebendo 326.000 reais do valerioduto. Na época,
ninguém entendeu por que um diretor do BB, que nunca disputou uma eleição,
aparecia como beneficiário de um esquema que o governo, o PT e Valério
juravam ter sido criado para custear despesas eleitorais... Agora, com a suspeita
de que o valerioduto tinha dinheiro do BB, tem-se uma explicação
mais plausível para os 326.000 de Pizzolato.
Henrique Pizzolato teve uma passagem um tanto barulhenta pela direção
de marketing do Banco do Brasil. Em julho do ano passado, ele gastou 70.000 reais
em dinheiro público na compra de mesas para um show da dupla Zezé
Di Camargo & Luciano, em Brasília, cujo objetivo era levantar recursos
para a compra de uma sede própria para o PT. Com a descoberta da mutreta,
e a repercussão do escândalo, os organizadores do evento devolveram
o dinheiro ao BB e Pizzolato quase perdeu o cargo. Neste ano, aconteceu
outro escândalo. Pizzolato usou um cartão corporativo do Banco do
Brasil para pagar despesas com sites pornográficos da internet. Mas, de
novo, ele resistiu no cargo. Só acabou caindo quando foi flagrado recebendo
dinheiro do valerioduto. Na época, descobriu-se que um contínuo
do fundo de pensão do Banco do Brasil, a Previ, levara um envelope com
mais de 300 00 reais para Pizzolato. Na ocasião, Pizzolato confirmou que
recebeu o envelope, mas disse candidamente que não conferiu seu conteúdo
e despachou o envelope para a DNA. Soube-se que, um mês depois de
não olhar o conteúdo do envelope, Pizzolato comprou um apartamento
de 400.000 reais no Rio de Janeiro. Pagou 100.000 reais em dinheiro vivo. Wilson
Dias/ABR
 | | Ivan
Guimarães, do Banco Popular: mais gastos com publicidade do que com empréstimos
para o povo |
No Banco do
Brasil, havia outros petistas empenhados em mandar carinho para Marcos Valério.
Um deles era Ivan Guimarães, que, a exemplo de Pizzolato, também
auxiliou Delúbio Soares a arrecadar dinheiro para a campanha de Lula. Como
presidente do Banco Popular, uma invenção petista destinada a prestar
serviços bancários para pessoas de baixa renda, durante um ano e
sete meses, Guimarães conseguiu a proeza de gastar mais em publicidade
(24 milhões de reais) do que em empréstimos ao povo (20 milhões
de reais). A empresa que recebeu essa verba de publicidade, sem que se tenha feito
nenhuma licitação, foi justamente a DNA de Marcos Valério.
Na semana passada, por intermédio
de seu advogado, Mário de Oliveira Filho, Pizzolato não negou nem
confirmou o desvio dos 10 milhões de reais da DNA. Limitou-se a afirmar
que a agência de Valério foi contratada por meio de licitação,
que a DNA já prestava serviços ao BB antes da chegada do PT ao governo
e que não tinha poder individual para contratar agências de propaganda.
"Ele tem documentos para provar que nunca agiu sozinho", disse Oliveira Filho.
O PT, por meio da assessoria de imprensa de seu presidente, Ricardo Berzoini,
afirmou que "o partido não tem informação nenhuma sobre isso
e, portanto, não tem o que comentar". A empresa Visanet, por sua vez, afirmou
em nota que apenas atendeu à orientação do Banco do Brasil
quando repassou dinheiro para a DNA. "O banco, que é um dos acionistas
da empresa, indicou a DNA Propaganda como agência responsável por
suas campanhas publicitárias na promoção de seus cartões
de crédito e débito." De acordo com a Visanet, cabe ao banco explicar
o que foi feito com o dinheiro.
Dida
Sampaio/AE
 | | Delúbio
Soares, o tesoureiro expulso do PT: a tese dos empréstimos está ruindo |
O lobista Marcos Valério foi um dos poucos a contestar a acusação
da CPI. "Não vou me precipitar e gerar uma animosidade. Vou esperar e então
apresentar uma argumentação sólida, fundamentada e baseada
em documentos", declarou Marcos Valério a VEJA. A outra negativa veio da
Secretaria de Comunicação do governo (Secom), responsável
pela publicidade oficial e comandada até pouco tempo atrás pelo
ex-ministro Luiz Gushiken. A Secom afirma que "não há superfaturamento
em contratos firmados por órgãos da administração
direta e estatais com agências de publicidade". Parece piada. O Banco do
Brasil, cliente da DNA, além de reconhecer que não sabe onde o dinheiro
foi parar, informou na semana passada em nota que já fez uma notificação
extrajudicial à DNA cobrando o desvio. Duas semanas atrás, o Tribunal
de Contas da União (TCU) apontou um superfaturamento de 343% em contratos
de duas agências de propaganda, a Duda Mendonça e a Matisse, selados
com a Secom. Os contratos superfaturados, segundo o TCU, causaram um prejuízo
de 9,3 milhões de reais aos cofres públicos. A Duda Mendonça,
como o nome já diz, pertence ao publicitário homônimo, que
fez a campanha presidencial de Lula em 2002. Está intimada a devolver 4,8
milhões de reais ao governo. Já a Matisse, que pertence a outro
amigão de Lula, o publicitário petista Paulo de Tarso Santos, deve
devolver 4,5 milhões de reais ao governo. |