Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Brasil
O caixa dois foi
mesmo o seu, o meu, o
nosso suado dinheirinho

A CPI dos Correios descobre o primeiro
sinal de um escândalo ainda maior: o de
que o PT pode ter afanado dinheiro dos
cofres públicos para pagar o mensalão


Julia Duailibi

 
Celso Junior/AE
Rapahel Neddermeyer/AE
Valério (à esq.) e Pizzolato, que foi diretor de marketing do BB: mudando as regras para ajudar a agência do amigo


NESTA REPORTAGEM
Quadro: O calvário do nosso dinheirinho
Quadro: O caminho do nosso suado dinheirinho no caso Valério-Visanet

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagens sobre o governo Lula

O deputado Osmar Serraglio, do PMDB do Paraná, foi o porta-voz da notícia mais devastadora que o governo poderia receber no bojo das investigações do mensalão. Na quinta-feira, Serraglio deu uma entrevista à imprensa relatando que a CPI dos Correios descobrira que quase 10 milhões de reais saíram dos cofres do Banco do Brasil, fizeram uma escala no caixa da agência de publicidade DNA, de propriedade de Marcos Valério, e acabaram indo parar no bolso dos mensaleiros. A descoberta, se vier a ser confirmada, é um tiro no coração da tese montada pelo PT: não será mais possível sustentar, como vinha sendo feito pelos petistas, que a dinheirama que escorreu pelo valerioduto procedia de seis empréstimos selados junto aos bancos mineiros BMG e Rural, somando 55 milhões de reais. Também se tornará insustentável a versão de que, nos canais do valerioduto, não corria dinheiro público. Por fim, ceifará o argumento do PT de que tudo se resumia a um caixa dois, ou seja, ao caso de um partido político que, em vez de contabilizar os recursos que recolheu, erroneamente deixou de fazê-lo. Não: a notícia agora é a de que houve assalto aos cofres públicos (leia-se "Nosso Suado Dinheirinho").

O caso levantado pela CPI dos Correios não pode ser tomado como prova cabal, mas é o primeiro indício concreto de que o mensalão pode ter sido irrigado com dinheiro público. O caso é o seguinte: o Banco do Brasil repassou 35 milhões de reais à DNA, uma das agências de Marcos Valério, que deveriam ter sido usados para custear campanhas publicitárias de uma empresa da qual o bancão público é sócio, a Visanet. Ocorre que nem todos os 35 milhões de reais tiveram aparentemente o destino previsto. A CPI constatou que quase 10 milhões de reais não foram aplicados em publicidade, e nem o Banco do Brasil sabe dizer onde foram parar. Na quinta-feira, o Banco do Brasil admitiu que desconhece o destino do dinheiro. Em linguagem destinada mais a esconder do que a revelar, uma nota do BB diz o seguinte: "Com relação à diferença de 9,1 milhões de reais, o Banco do Brasil encaminhou, em 25 de outubro de 2005, notificação extrajudicial à agência DNA, tendo em vista que até o presente momento se encontra pendente de conciliação a aplicação desses recursos em ações de marketing referentes a projetos autorizados pelo BB".

 

Celso Junior/AE
O relator Serraglio, da CPI dos Correios, está certo de que o PT afanou dinheiro público

Ou seja, o Banco do Brasil não sabe onde o dinheiro está, na medida em que pede à agência que explique o destino final dos recursos. No dia seguinte, depois de perceber que sua nota contribuiu para a suspeita de que o mensalão foi irrigado com dinheiro do banco, o BB lançou uma segunda nota. Nela, esclarece que não há nenhum dado concreto para afirmar que a diferença de 9,1 milhões de reais foi engordar o caixa do PT e faz questão de explicar que ainda espera, da parte da DNA, a explicação detalhada sobre o uso do dinheiro. "O BB repudia a tese, que julga prematura, de que a diferença encontrada entre os valores adiantados à DNA e os pagamentos comprovados tenha tido como destinação final o partido do governo." Na nota, o Banco do Brasil faz questão de dizer que a conclusão de que o dinheiro repassado a Marcos Valério pelo banco foi desviado para o PT é baseada em "ilações" e que uma auditoria interna sobre o assunto será finalizada nos próximos dias. A auditoria do banco, porém, poderá no máximo mostrar se a DNA prestou ou não serviço à instituição.

A CPI suspeita que os 10 milhões foram parar no valerioduto porque descobriu que a DNA, depois de receber a verba do Banco do Brasil, decidiu fazer uma aplicação em títulos do BMG. A transferência do dinheiro, no valor de 10 milhões de reais do BB para o BMG, foi efetuada em 22 de abril do ano passado. Quatro dias depois, em 26 de abril, o BMG concedeu um "empréstimo" à outra empresa de Marcos Valério, a Rogério Lanza Tolentino e Associados, cuja garantia era justamente a aplicação de 10 milhões de reais feita no próprio BMG. E qual foi o destino dos 10 milhões supostamente "emprestados" pelo BMG? Bem, isso já se sabe: é o mensalão. Valério e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares já disseram que esses 10 milhões de reais supostamente tomados de empréstimo ao BMG faziam parte do dinheiro que pagou o mensalão. O que falta comprovar, é claro, é que o empréstimo dos 10 milhões de reais tenha sido apenas uma simulação contábil destinada a encobrir a verdadeira origem do dinheiro – no caso, os cofres do Banco do Brasil. Se isso ficar provado, então se poderá afirmar que um pedaço da verba que bancou o mensalão saiu dos cofres do BB.

"Não há mais dúvida", decretou o relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio, ao anunciar a descoberta. "Há dinheiro público no valerioduto. Ele veio de uma estatal, o Banco do Brasil, e foi colocado nas mãos de um partido." A história talvez ainda não esteja tão clara, mas há outros elementos a reforçá-la. Um deles é o fato de que o empréstimo de 10 milhões contraído no BMG chegou a vencer duas vezes, nunca foi pago por Marcos Valério e, mesmo assim, nunca foi cobrado pelo banco mineiro. Somente depois que o escândalo veio a público, o BMG decidiu cobrar a "dívida" na Justiça. O calendário pode não passar de uma tremenda coincidência, mas não deixa de ser mais um indício de que o papagaio de 10 milhões no BMG pode ter sido apenas uma operação bancária para inglês ver.

 

Celso Junior/AE
Gushiken, que era o comandante da Secom: 343% de superfaturamento

Desde 2000, a agência de Valério embolsou mais de 80 milhões de reais da cota do BB sobre a publicidade da Visanet. A maior parte, 74 milhões, foi recebida no governo do PT. Até o início de 2003, a verba publicitária da Visanet bancada pelo governo federal era dividida entre todas as agências que prestam serviço ao BB. Isso mudou com a chegada dos petistas ao poder. Os recursos foram concentrados numa única agência – justamente a DNA do amigo Marcos Valério – e o pagamento passou a ser feito antecipadamente, antes da prestação do serviço. O responsável pela mudança foi o ex-arrecadador de recursos para a campanha presidencial do PT, Henrique Pizzolato, que assumiu a direção de marketing do Banco do Brasil após a posse de Lula. Pizzolato se afastou do cargo em julho passado, depois de ser pilhado recebendo 326.000 reais do valerioduto. Na época, ninguém entendeu por que um diretor do BB, que nunca disputou uma eleição, aparecia como beneficiário de um esquema que o governo, o PT e Valério juravam ter sido criado para custear despesas eleitorais... Agora, com a suspeita de que o valerioduto tinha dinheiro do BB, tem-se uma explicação mais plausível para os 326.000 de Pizzolato.

Henrique Pizzolato teve uma passagem um tanto barulhenta pela direção de marketing do Banco do Brasil. Em julho do ano passado, ele gastou 70.000 reais em dinheiro público na compra de mesas para um show da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, em Brasília, cujo objetivo era levantar recursos para a compra de uma sede própria para o PT. Com a descoberta da mutreta, e a repercussão do escândalo, os organizadores do evento devolveram o dinheiro ao BB – e Pizzolato quase perdeu o cargo. Neste ano, aconteceu outro escândalo. Pizzolato usou um cartão corporativo do Banco do Brasil para pagar despesas com sites pornográficos da internet. Mas, de novo, ele resistiu no cargo. Só acabou caindo quando foi flagrado recebendo dinheiro do valerioduto. Na época, descobriu-se que um contínuo do fundo de pensão do Banco do Brasil, a Previ, levara um envelope com mais de 300 00 reais para Pizzolato. Na ocasião, Pizzolato confirmou que recebeu o envelope, mas disse candidamente que não conferiu seu conteúdo – e despachou o envelope para a DNA. Soube-se que, um mês depois de não olhar o conteúdo do envelope, Pizzolato comprou um apartamento de 400.000 reais no Rio de Janeiro. Pagou 100.000 reais em dinheiro vivo.

 

Wilson Dias/ABR
Ivan Guimarães, do Banco Popular: mais gastos com publicidade do que com empréstimos para o povo

No Banco do Brasil, havia outros petistas empenhados em mandar carinho para Marcos Valério. Um deles era Ivan Guimarães, que, a exemplo de Pizzolato, também auxiliou Delúbio Soares a arrecadar dinheiro para a campanha de Lula. Como presidente do Banco Popular, uma invenção petista destinada a prestar serviços bancários para pessoas de baixa renda, durante um ano e sete meses, Guimarães conseguiu a proeza de gastar mais em publicidade (24 milhões de reais) do que em empréstimos ao povo (20 milhões de reais). A empresa que recebeu essa verba de publicidade, sem que se tenha feito nenhuma licitação, foi justamente a DNA de Marcos Valério.

Na semana passada, por intermédio de seu advogado, Mário de Oliveira Filho, Pizzolato não negou nem confirmou o desvio dos 10 milhões de reais da DNA. Limitou-se a afirmar que a agência de Valério foi contratada por meio de licitação, que a DNA já prestava serviços ao BB antes da chegada do PT ao governo e que não tinha poder individual para contratar agências de propaganda. "Ele tem documentos para provar que nunca agiu sozinho", disse Oliveira Filho. O PT, por meio da assessoria de imprensa de seu presidente, Ricardo Berzoini, afirmou que "o partido não tem informação nenhuma sobre isso e, portanto, não tem o que comentar". A empresa Visanet, por sua vez, afirmou em nota que apenas atendeu à orientação do Banco do Brasil quando repassou dinheiro para a DNA. "O banco, que é um dos acionistas da empresa, indicou a DNA Propaganda como agência responsável por suas campanhas publicitárias na promoção de seus cartões de crédito e débito." De acordo com a Visanet, cabe ao banco explicar o que foi feito com o dinheiro.

Dida Sampaio/AE
Delúbio Soares, o tesoureiro expulso do PT: a tese dos empréstimos está ruindo


O lobista Marcos Valério foi um dos poucos a contestar a acusação da CPI. "Não vou me precipitar e gerar uma animosidade. Vou esperar e então apresentar uma argumentação sólida, fundamentada e baseada em documentos", declarou Marcos Valério a VEJA. A outra negativa veio da Secretaria de Comunicação do governo (Secom), responsável pela publicidade oficial e comandada até pouco tempo atrás pelo ex-ministro Luiz Gushiken. A Secom afirma que "não há superfaturamento em contratos firmados por órgãos da administração direta e estatais com agências de publicidade". Parece piada. O Banco do Brasil, cliente da DNA, além de reconhecer que não sabe onde o dinheiro foi parar, informou na semana passada em nota que já fez uma notificação extrajudicial à DNA cobrando o desvio. Duas semanas atrás, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou um superfaturamento de 343% em contratos de duas agências de propaganda, a Duda Mendonça e a Matisse, selados com a Secom. Os contratos superfaturados, segundo o TCU, causaram um prejuízo de 9,3 milhões de reais aos cofres públicos. A Duda Mendonça, como o nome já diz, pertence ao publicitário homônimo, que fez a campanha presidencial de Lula em 2002. Está intimada a devolver 4,8 milhões de reais ao governo. Já a Matisse, que pertence a outro amigão de Lula, o publicitário petista Paulo de Tarso Santos, deve devolver 4,5 milhões de reais ao governo.

 
 
 
 
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