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 Império
instantâneo Se continuar a crescer
no mesmo e alucinante ritmo atual, a China vai construir em poucas décadas
um império global que os americanos precisaram de um século para
erguer. E não há sinais de que esse ritmo esteja diminuindo...
 Lauro
Jardim Paulo
Vitale
 | NO
TOPO DO MUNDO Estátua do gigante chinês
Yao Ming, um dos maiores jogadores de basquete do planeta, num museu de cera em
Xangai: ele parou de crescer. A China não pára há 27 anos
consecutivos |
O
grandalhão da foto acima é um dos jogadores de basquete mais altos
do mundo. Como todo bom produto made in China, Yao Ming foi exportado com sucesso
para os Estados Unidos. Pivô do Houston Rockets, é há quatro
anos uma das maiores atrações da NBA. Ming e a China cresceram como
ninguém no planeta nos últimos 26 anos. Nascido em 1980, o jogador
é um colosso de 2,26 metros. Evidentemente, ele já parou de crescer.
A China não. A China não pára: é, de longe, o país
que mais cresceu desde 1980. Uma média de 9,6% por ano neste quarto de
século. Significa dizer, por exemplo, que nos últimos três
anos acrescentou quase um Brasil inteiro ao seu PIB. No primeiro semestre de 2006,
sua economia manteve-se como a mais vigorosa entre todas. Cresceu mais 10,9%.
Cresceu também em qualidade.
Esqueça a China como o país apenas das baratíssimas camisetas
de 5 centavos de dólar e das quinquilharias. Em 2005, o país fabricou
(ou montou) 400 bilhões de dólares em produtos de alta tecnologia.
Por exemplo, sete em cada dez aparelhos de DVD vendidos no mundo das marcas
Sony, Panasonic, Philips e outras vêm de lá. Preste atenção
no seguinte fenômeno: o país ainda será por décadas
o das camisetas a preço de banana, mas será cada vez mais um superfabricante
de produtos de alta tecnologia e um criador de marcas mundiais simultaneamente.
Para segurar a base da pirâmide, não falta mão-de-obra barata
chegando todos os dias do empobrecido campo para abastecer o mercado de trabalho.
Somente a região de Xangai recebe diariamente 28.000 novos trabalhadores
ávidos por encarar jornadas de seis a sete dias por semana, doze horas
por dia, recebendo algo entre 100 e 200 dólares por mês. Para sustentar
as partes do meio e o topo dessa pirâmide, é formado por ano cerca
de meio milhão de cientistas e engenheiros. Ao ritmo de hoje, o Brasil
levaria cerca de 45 anos para formar tanta gente nessas áreas. Fotos
Antonio Ribeiro
 | EXTRAVAGÂNCIAS
Sede da Heilan, a maior fábrica de ternos do mundo, a 250 quilômetros
de Xangai: prédios monumentais que misturam colunas e estátuas da
Roma antiga, arquitetura neoclássica e imponentes edifícios da Itália
fascista dos anos 30 um samba do arquiteto doido. Abaixo, o interior de
uma dessas construções: 70% dos operários moram em prédios-dormitório
localizados dentro da empresa |  |
O país é uma máquina de produzir como nunca se viu outra
igual. Uma máquina que mistura características do comunismo e do
capitalismo. Mistura, portanto, baixos salários, partido único,
ausência de direitos civis e de reivindicação, com a busca
pela produtividade, meritocracia, capital abundante, atração de
estrangeiros e investimento em capital humano. É uma máquina bafejada
pelas circunstâncias de ter a seu dispor o maior mercado interno do mundo
e o maior mercado externo do mundo os Estados Unidos. Uma máquina
de produzir riquezas que estabeleceu com os EUA um pacto de morte, em que um precisa
que o outro esteja saudável para que ele próprio permaneça
crescendo. O espetáculo do
crescimento chinês surge de empresas como a BYD. Provavelmente, ninguém
no Brasil ouviu falar dela. É a segunda maior fabricante mundial de bateria
de celulares. Fornece para Motorola, Nokia e todas as que importam no setor. Um
em cada quatro aparelhos em funcionamento no mundo é equipado com uma bateria
da BYD. Produz também dezenas de produtos de alta tecnologia, como telas
de LCD. Tudo isso em apenas onze anos de vida. Seu segredo? Antes, essas baterias
eram fabricadas em unidades superautomatizadas no Japão. A BYD tirou os
robôs de cena, botou um exército de braços chineses no lugar
e ganhou a parada. Evidentemente, mantendo a qualidade sem isso, nada feito.
A BYD tem 60.000 empregados. Seu fundador
e presidente, Wang Chuan-fu, tem apenas 40 anos o que pode ser considerado
uma idade-padrão dos grandes empreendedores chineses de hoje. Gente jovem,
portanto. Pois bem, como se fosse pouco, Wang há três anos partiu
para a produção de carros. Quando se lançou à aventura
de competir com a GM, Ford e Honda, Wang bancou uma afirmação ousada,
tipicamente capitalista: "Em dez anos, seremos a maior fábrica de automóveis
da China". Neste ano devem sair 200.000 veículos de sua fábrica
na cidade de Xian, no noroeste do país. Ainda é pouco. A BYD (sigla
que não quer dizer nada, foi escolhida apenas pela sonoridade) exporta
apenas para o Oriente Médio e a Colômbia. Falta muito para alcançar
sua meta. Mas esse não é o ponto. O empreendedorismo floresce na
China. Ainda que de um modo bem próprio. Ex-pesquisador de uma estatal,
Wang diz que a escassez de verbas para pesquisa o fez querer abrir uma empresa,
onze anos atrás. Quando se mete num empreendimento assim, ainda que assuma
riscos, alguém como Wang obtém com certa facilidade o fundamental
para botar a bola em jogo crédito fácil nos bancos oficiais.
O financiamento é farto. Para o bem e para o mal, as garantias pedidas
pelos bancos para empréstimos são ralas em comparação
com o que ocorre no Ocidente. A empresa
tem algumas características peculiares ao capitalismo chinês. A clonagem
é uma delas. A logomarca da montadora BYD lembra muito a da BMW. O F3,
modelo lançado há menos de um ano, é parecidíssimo
com o Corolla, da Toyota (a parte dianteira), e com o Civic, da Honda (a parte
traseira). Não deve ser por acaso. Desenvolver um automóvel pode
custar de 1 bilhão a 2 bilhões de dólares para a Volkswagen,
Toyota ou Honda. Para a BYD, passa longe disso.  | MIGRAÇÃO
DESCOMUNAL Zhang Nabing, de 17 anos, desembarca
na estação ferroviária de Pequim, junto com seu pai: mais um migrante vindo do
interior chega à capital para trabalhar na construção civil. Prevê-se que 200
milhões de pessoas farão o mesmo nos próximos dez anos |
A indústria automobilística chinesa está em processo de consolidação.
As taxas de crescimento do mercado doméstico são as mais altas do
mundo. Em outubro passado, pela primeira vez, o país exportou mais carros
que importou. É verdade que suas vendas externas ainda são destinadas
a países pobres. Mas as pontes para um novo estágio já estão
sendo pavimentadas. No ano que vem, a Chery, a maior montadora chinesa, inicia
a venda de seus modelos nos EUA e no Brasil. Não são poucos os analistas
que prevêem que a entrada vigorosa da China no setor deverá bagunçar
ainda mais a cabeça de Detroit, a capital da indústria automobilística
dos EUA. No futuro, talvez Detroit tenha saudade dos tempos em que a Toyota e
a Honda eram os fantasmas que lhe tiravam o sono. Nos Estados Unidos, uma hora
de trabalho de um operário custa 37 dólares. Na indústria
automobilística chinesa sai por menos de 2 dólares (no Brasil é
o triplo disso). Os dirigentes chineses
pressionam também para que qualquer joint venture com uma grande empresa
estrangeira traga no seu bojo transferência de tecnologia. A General Motors
bateu a Ford numa disputa pela instalação de uma fábrica
em Xangai porque aceitou erguer um centro de pesquisa e desenvolvimento ali, transferindo
tecnologia de última geração para a região. São
270.000 empresas estrangeiras brigando por espaço na China. Alcançam
algo que o Brasil nunca pensou em conseguir. As companhias automobilísticas
chinesas possuem parcerias com empresas estrangeiras concorrentes. Conseguem,
portanto, acesso aos segredos de seus dois sócios em nenhum outro
lugar se vêem contratos assim.
Talvez a característica mais forte do "socialismo de mercado chinês"
seja a mistura de papéis entre o Partido Comunista e a iniciativa privada.
Praticamente todas as empresas têm uma participação estatal,
ainda que pequena. Seja do governo central, do da província, seja do governo
da cidade. O peso do setor público na economia ainda é gigantesco.
Estima-se algo entre 40% e 50% do PIB. O controle do empreendimento pode ser privado,
mas a mão forte do Estado está lá, onipresente. Os burocratas
do PCCh metem-se a ser empresários. É comum que se aproveitem de
facilidades dos cargos para passar de burocratas a capitães de indústria
em transformações pouco transparentes. A Heilan, surgida dezoito
anos atrás, é um desses fenômenos de "co-habitação"
entre a iniciativa privada e o partido. É a maior fabricante de ternos
do mundo. Neste ano deve produzir 10 milhões de peças, a maioria
para exportação. (É quase o dobro do que o Brasil fabrica
em igual período.) Algo como 27.300 ternos por dia, numa conta que considera
funcionamento a pleno vapor nos moldes chineses. Ou seja, sete dias por semana.
Quem a comanda é Zhoujianping, fundador da empresa e também alto
dirigente do partido. Ele é deputado com cadeira no Congresso Nacional
do Povo e integra a administração da província de Jiangsu,
onde a fábrica está instalada. Zhoujianping, 46 anos, é o
sócio majoritário, mas o governo local tem uma parte e há
outra pulverizada na Bolsa de Valores de Hong Kong. Yan Haifeng, assessor da presidência
da Heilan, vê esse atrelamento como normal e até desejável.
"Ser do partido ajuda a empresa, claro", admite ele. "Mas ajuda o país
também: se a empresa tem lucros, reverte para o país através
de impostos e empregos." A Heilan
é um filho legítimo de outra particularidade chinesa a monumentalidade
e o delírio arquitetônico. Sua sede na cidade de Jiangying é
composta de um hotel cinco-estrelas e seis prédios gigantescos, cinco deles
para a manufatura. Não são prédios quaisquer. Misturam a
arquitetura dos edifícios da Itália fascista dos anos 30 do século
passado com colunas, estátuas e mármores da Roma antiga tudo
isso em prédios, repita-se, de dimensões monumentais. Um samba do
arquiteto doido. Nos limites da Heilan, há também vários
prédios de dormitórios, onde moram 70% dos 15.000 funcionários.
É o que há de mais comum nas fábricas chinesas: como quase
todos os operários são migrantes, eles moram nesses quartos, de
graça. Podem ser quartos para abrigar de seis a dez operários, sempre
muito jovens (entre 18 e 24 anos), com salários entre 150 e 200 dólares
mensais. É possível interromper o trabalho dos operários
para algumas perguntas? "Sim, só não é permitido perguntar
sobre política", ressalva o porta-voz que acompanha a equipe de VEJA. A
história de cada um deles é entediantemente semelhante: todos vieram
do campo, de famílias de agricultores, e mensalmente enviam entre 30% e
50% do salário para ajudar os pais. Em outras fábricas pelo país,
mesmo nas que produzem para multinacionais de ponta, encontram-se operários
que recebem 50 dólares por mês e enfrentam um batente de quinze horas
diárias. Uma delas, denunciada em junho, fabricava iPods para a Apple e
chips para a Intel. O dedo do Estado
em todo o mundo de negócios remete a outra característica do país
o guanxi, um misto de poder de influência, teia de relações
e interesses, ajuda aos amigos. É algo entranhado na cultura local como
cuspir na rua, tomar chá sem açúcar ou comer com pauzinhos.
Sem exceção, todos os executivos e empresários que conversaram
com VEJA para esta reportagem citaram espontaneamente o guanxi como condição
fundamental para as coisas fluírem. Na prática, o guanxi num
Estado com um partido onipresente significa ter relações com algum
filiado ou com algum burocrata dos governos (local ou central) para conseguir
facilidades. Isso passa pela troca de favores. E por corrupção,
também entranhada no país até por causa dessa característica:
onde há burocracia forte e uma montanha de burocratas maiores e menores,
a tendência é a venda de facilidades. Para conseguir empréstimos
nos bancos chineses (estatais, claro), o guanxi é fundamental
seja para um financiamento maior, seja para dar em troca menos garantias. Para
conseguir um terreno para construir um arranha-céu, por exemplo
e, portanto, desalojar quem mora no tal terreno , essa teia de conexões
é crucial. É também o motivo de muitas companhias privadas
estrangeiras procurarem sócios locais: para ter guanxi e facilitar
sua atuação num país em que as regras não estão
todas escritas e o Judiciário não funciona como deveria.
Em alguns setores em que o Estado
ainda paira quase absoluto, é natural que o guanxi seja mais necessário.
A aviação comercial, por exemplo, é extremamente regulada.
O governo decide e aprova não só novas rotas, mas até a compra
de novos aviões pelas empresas. "Aqui tudo é muito controlado",
afirma Zhang Pei, 44 anos, um dos fundadores e o atual vice-presidente da Shenzhen
Airlines, a quinta maior companhia aérea do país. Ele acha que,
assim como já ocorreu em outros setores, a tendência na aviação
chinesa é a desregulamentação. A companhia é controlada
por duas empresas privadas chinesas, mas tem 25% de seu capital nas mãos
da estatal Air China. Outros 10% pertencem à prefeitura de Shenzen. Pei
tem planos ambiciosos. Diz que, nos próximos três anos, dos 33 aviões
atuais a Shenzhen Airlines passará a setenta. E que a hoje companhia regional
passará a voar para as principais cidades asiáticas. Haja guanxi
para conseguir tudo isso, observa o repórter de VEJA. Pei sorri, concordando.
Ex-funcionário de uma estatal, ele acha que nas empresas privadas as coisas
funcionam melhor. "O lucro é bom. Se formos comparar a uma partida de futebol,
antes o governo fazia o papel do juiz, dos 22 jogadores e da torcida. Agora, ficou
só com o papel do juiz. Está melhor assim", diz.
Não é verdade que o governo atue somente como juiz. Mas é
inegável que o grau de liberdade para fazer negócios é crescente.
Os milhões de companhias estatais dos tempos pré-abertura caíram
para 170.000 há dois anos. E a meta declarada do governo é ficar
com 189 conglomerados estatais, atuando em diversos setores. Mas sem monopólios
e com metas de eficiência. Pelo menos é a promessa do governo. Para
uma empresa 100% privada, é menos problemático expandir-se hoje
do que em outros tempos. A Huawei, a maior companhia de produtos de telecomunicação
do mundo, que o diga. Fundada em 1988, no começo dos anos 90 sofreu pela
falta do braço estatal. Obstáculos não faltavam. Não
era permitido enviar funcionários ao exterior para especialização.
Também havia barreiras para trazer operários de outras localidades
para trabalhar ali. Era difícil tomar empréstimos nos bancos oficiais.
"Só as empresas 100% estatais ou com alguma participação
do Estado tinham acesso fácil ao crédito", admite o porta-voz da
Huawei, Fu Jun. "O governo decidia para quem eles emprestariam." Esses problemas
não existem mais. A Huawei, que faturou 8,2 bilhões de dólares
no ano passado, mistura a grandiosidade das empresas chinesas com fortes características
ocidentais. Do lado chinês, a monumentalidade. Tem 40.000 funcionários,
sua sede estende-se por 1,3 quilômetro quadrado (o equivalente ao Parque
do Ibirapuera, em São Paulo) e vende seus produtos para cerca de 100 países.
À semelhança das empresas de ponta dos países do Primeiro
Mundo, possui apreço por pesquisa e desenvolvimento de produtos ainda incomuns
na China: é dona de 11.000 patentes, um recorde entre as companhias locais.
Muito menos que a IBM no período entre 1990 e 2005, que tem patenteadas
35.000 invenções. Mas já bate de longe a maior empresa brasileira:
a Petrobras fez 1.119 pedidos de patentes em seus 53 anos de existência.
A Huawei é uma representante
genuína de uma nova China. Vários gigantes chineses já buscam
construir marcas mundiais. Marcas que o consumidor do Brasil, da Zâmbia
ou da Inglaterra reconheça como de qualidade. Querem criar suas próprias
Nike, Toyota, Samsung ou L'Oréal para ficar somente em quatro marcas
mundiais criadas em quatro países. Uma das tentativas em curso é
a da Lenovo. Em 2004, o maior fabricante chinês de computadores pessoais
surpreendeu o mundo e ficou com a divisão de PCs da IBM. Pagou 1,75 bilhão
de dólares pelo desafio. Neste momento, começa a tirar a marca IBM
de seus produtos e estampar Lenovo. É o início de uma batalha para
ser objeto de desejo mundial. Há várias outras em curso.
A ida para o exterior, como investidores, é outra dessas batalhas. O China
Construction Bank, o terceiro maior do país, está negociando a compra
de 20% do Bear Stearns, um banco de investimentos americano. Será a primeira
perna chinesa num banco de Wall Street. O governo autorizou no mês passado
que os fundos de pensões estatais invistam fora do país. Ainda é
coisa pequena. Prevê-se 1,1 bilhão de dólares neste ano. Mas
a iniciativa deve ser vista como o início de um processo. "As empresas
estatais, sobretudo no setor de energia, têm sido agressivas na compra de
bens no exterior", disse recentemente a vice-ministra do Comércio, Ma Xiuhong.
"Isso é apenas o começo."
Ao galgar novos patamares, a China tenderá a mudar de atitude com relação
à pirataria e à falsificação. As vendas de produtos
piratas e falsificados no país, segundo estimativas do próprio governo,
são de 24 bilhões de dólares ao ano. É muito mais,
reclamam as empresas lesadas. A verdade é que a China e seus governos locais
empregam muita gente com a clonagem. E o pragmatismo do governo central manda
adiar a solução do problema. Nem se pensa em desempregar por causa
disso. Alguns tentam amenizar o problema lembrando que os EUA foram grandes piratas
no século XIX. Mas atenção: não se deve achar que,
pelo fato de os EUA terem agido assim, a questão seja menor. Atualmente,
os custos de desenvolvimento de produtos são muito maiores podem
passar do bilhão de dólares nos setores automobilístico e
farmacêutico. Além disso, com o planeta mais integrado, o que se
copia ou rouba pode ser exportado para o mundo inteiro com rapidez. Finalmente,
hoje existe um organismo mundial a OMC para controlar esses abusos,
coisa em que nem se pensava antes.
Se em algum momento for um competidor forte em patentes e inovações,
é óbvio que a China mudará de atitude: tentará que
a OMC interfira a seu favor em processos de dumping. Em 2005, a China ficou em
décimo lugar entre os países que mais solicitaram patentes à
Organização Mundial de Propriedade Intelectual, à frente
da Itália e do Canadá. Mas, por enquanto, por estratégia
calculada vai atirando nas duas pontas. O Ocidente também age de maneira
hipócrita em relação ao país: o nível de investimentos
na China não pára de crescer, apesar do desrespeito à propriedade
intelectual, das incertezas jurídicas, do emaranhado burocrático
e da corrupção quatro obstáculos que diminuiriam o
ânimo de grandes empresas em qualquer país. Mas ninguém quer
ficar fora da festa chinesa. Apesar
de toda a exuberância, a China ainda envia sinais contraditórios
ao mundo. Alguns a vêem como ameaça. Outros como uma bolha prestes
a estourar. Além do paradoxo de ter crescente grau de liberdade econômica
debaixo do tacão de uma ditadura. Esses sinais contraditórios ela
precisará dissipar. Um dos mais graves e evidentes problemas é a
fragilidade do sistema financeiro. Seus bancos oficiais estão com um buraco
fenomenal, provocado por empréstimos vencidos e não pagos. O FMI
já se mostrou preocupado. Relatórios de empresas internacionais
de consultoria chamam atenção para os "empréstimos ruins".
As estimativas variam entre 450 bilhões e 900 bilhões de dólares
neste último caso o valor alcançaria as formidáveis
reservas chinesas em moeda estrangeira, que são cerca de 1 trilhão
de dólares. Mas há luzes no fim do túnel bancário.
Em primeiro lugar, os bancos estrangeiros têm dado sinais de confiança.
No último ano, diversas participações expressivas, mas minoritárias,
têm sido compradas. No início do ano, por exemplo, um consórcio
liderado pela Goldman Sachs investiu 3,8 bilhões de dólares no Banco
Industrial e Comercial da China, o maior do país. Por causa de obrigações
com a OMC, bancos estrangeiros poderão atuar na China a partir de 2007,
o que certamente ajudará na profissionalização do setor.
Para manter a estabilidade política,
o país é obrigado a crescer a taxas absurdas, perto de 10% ao ano.
E seguir como destino de investimentos externos gigantescos, da ordem de 72 bilhões
de dólares por ano. Muito menos do que isso poderá ser rastilho
de pólvora para o descontentamento popular, que minaria as esperanças
de dias melhores, sobretudo no campo. A China precisa continuar a fazer a transposição
descomunal de gente da zona rural para a urbana. Algo como 200 milhões
de pessoas nos próximos dez anos número semelhante ao da
última década. É o maior fluxo humano da história
num período tão curto. Gente que servirá de braço
para a indústria e para diminuir o inchaço de uma zona rural improdutiva
e onde ainda vivem seis em cada dez chineses (veja reportagem na pág.
192). O país terá de conciliar isso com a garantia de alimento
para todos, que, na cidade e com emprego, consumirão muito mais.
O avanço da China criou um grande paradoxo: a economia mundial é
dependente dela para continuar pujante. Ao mesmo tempo, as conseqüências
de seu crescimento atordoante poderão ser fatais para o meio ambiente,
pelo menos no ritmo de hoje. Se, por hipótese, em vez de 300 milhões
de chineses, o dobro disso estiver consumindo como gente grande, a escassez de
matéria-prima poderá virar realidade. Atualmente, a renda per capita
do chinês é de 1 300 dólares anuais, equivalente a 30% da
brasileira. Ou seja, cada chinês consome em média como um angolano.
Em termos de petróleo, isso significa, por exemplo, 1,6 barril ao ano.
Se num prazo de dez anos 300 milhões de chineses atingirem os padrões
de consumo dos EUA isto é, 26 barris por ano per capita ,
simplesmente não haverá petróleo para todos. A China é
de uma ineficiência abissal no setor energético. Para cada dólar
que produz, consome quase cinco vezes mais energia que os EUA e doze vezes mais
que o Japão. Não se deve, no entanto, fazer essas contas e imaginar
o fim do mundo. Se nada for feito para deter o desperdício, ele virá,
fatalmente. Mas novas fontes de energia vêm sendo descobertas e o país
está iniciando uma troca de matriz energética. É mais um
desafio cujo sucesso interessa tanto à China quanto ao mundo. |