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 Uma
vitrine para o mundo Com obras monumentais
realizadas em tempo recorde e campanhas patrocinadas pelo governo para
ensinar boas maneiras à população, a China quer aproveitar
as Olimpíadas de 2008, que irá sediar, para impressionar
o planeta com seu projeto de grandeza  Monica
Weinberg
Divulgação
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CUBO E O NINHO O novo ginásio para natação, batizado
de Cubo Aquático, e o Estádio Nacional, que ganhou o apelido de Ninho de Andorinha:
a maquete dá uma idéia do efeito dramático das obras que irão deslumbrar o público
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O ano é 2008,
a cidade é Pequim e a China está em festa por sediar, pela primeira
vez, os Jogos Olímpicos. Quem se animar a fazer a viagem pode se preparar
para um espetáculo jamais visto. Primeiro impacto: o desembarque é
num aeroporto magnífico, em formato de duas gigantescas letras ípsilon,
que vistas do alto podem lembrar tanto o ideograma chinês para "humano"
quanto um dragão. Se for à noite, ele estará iluminado pelas
cores imperiais, vermelho e dourado. Dá para aproveitar a vista sem pensar
no custo 2 bilhões de dólares. Depois, é seguir por
uma auto-estrada moderníssima e escolher qual dos quinze repetindo,
quinze novos estádios olímpicos gostaria de ver primeiro.
Esta é fácil: desde que atletas gregos corriam nus pelas pistas
de Olímpia, nada no mundo esportivo se compara ao Estádio Nacional,
um delirante exercício de desmaterialização do aço
em que 24 colunas de 1 000 toneladas cada uma sustentam sem nenhum esforço
aparente o emaranhado metálico que envolve a estrutura preparada para receber
91 000 espectadores. Atravessando a esplanada, um espantoso quadrado azul parece
criar o efeito contrário: solidificar a água. A idéia do
"cubo aquático", ou Centro Nacional de Esportes Aquáticos, é
exatamente esta, provocar a ilusão de que é feito de água.
Todo país ascendente usa as
Olimpíadas como uma espécie de megacomercial em que apresenta suas
credenciais para se sentar à mesa dos poderosos. Foi assim com o Japão,
em 1964, e com a Coréia do Sul, em 1988. Como a China não pretende
apenas um lugar entre os ricos, mas fincar pé na cabeceira, o que está
fazendo para os Jogos de 2008 supera amplamente todos os exemplos anteriores.
A enorme quantidade de dinheiro em caixa mais as contribuições
do Comitê Olímpico Internacional , a fúria construtiva
que assola o país e a prioridade absoluta conferida ao projeto olímpico
combinam-se para imprimir a Pequim uma transformação que os especialistas
comparam, por seu volume e rapidez, à reurbanização de Paris
no século XIX. Paulo
Vitale
 | MARCHA,
SOLDADO A seleção nacional de ginástica artística
posa para a foto durante o treino: sob pressão de fazer a China chegar ao pódio
olímpico, as ginastas têm a vida controlada noite e dia pela técnica. Yan Yan,
a última da fila, erra um exercício e chora. "Vivo no limite físico e psicológico",
diz |
A cidade está
sendo redesenhada por arquitetos estrangeiros e jamais recebeu tanto dinheiro
do governo em tão pouco tempo: estima-se que 40 bilhões de dólares
serão despejados na capital chinesa até 2008. Pequim é uma
cidade cheia de contradições. Tem um dos conjuntos arquitetônicos
mais sublimes do mundo a Cidade Proibida, o complexo imperial erguido durante
a dinastia Ming, há quase seis séculos e alguns dos exemplos
mais desanimadores do estilo construtivo "socialista". Os projetos olímpicos
correm o risco de aumentar o efeito "salada de frutas", por sua diversidade, mas
certamente pertencem à escola arquitetônica do altíssimo efeito
dramático. Só de imaginá-los prontos, iluminados o
Estádio Nacional terá, por dentro da estrutura de aço, um
"coração" vermelho, enquanto o centro de natação refulgirá
à noite, para aumentar a ilusão de que flutua e transmitidos
para todo o planeta já dá uma idéia de quanto a China está
investindo na imagem de superpotência econômica e esportiva.
As novas instalações olímpicas explicam apenas uma parte
da floresta de guindastes espalhada por Pequim. A outra parte está em operação,
noite e dia, para tirar do papel uma interminável lista de pontes, viadutos
e estradas. Alguns desses projetos seriam um dia executados no rastro do explosivo
crescimento econômico do país, mesmo que a China não se tornasse
sede olímpica. A diferença é que, com os Jogos, as obras
são realizadas, todas ao mesmo tempo, a um ritmo jamais visto. Fora os
estádios, o novo aeroporto e um teatro de 700 milhões de dólares,
o metrô ganhará outras quatro linhas e estão sendo erguidos
mais 142 hotéis de padrão internacional. O objetivo do governo é
terminar todas as obras olímpicas no ano que vem, para não correr
o risco de nenhum atraso. Paulo
Vitale
 | RECRUTADO
AOS 6 ANOS O atleta Yang Wei, da equipe chinesa
de ginástica olímpica, diz não ter idéia de como é viver fora do ambiente esportivo
na China: ainda no jardim-de-infância, um treinador achou que ele tinha força
acima do comum nos braços e o colocou num time de ginastas mirins, do qual saltou
para a seleção nacional. Ele ganhou uma medalha olímpica em Sydney e retornou
à China festejado como herói, o que rendeu à sua família uma boa casa presenteada
pelo governo. "Já cheguei a pensar em ter uma vida mais normal, mas se abandonasse
o esporte me sentiria um traidor da pátria", diz |
As obras impressionam pela quantidade e pela modernidade, mas todos os velhos
tiques dos regimes comunistas transparecem na obsessão olímpica
que tomou conta do país. Está em curso, inclusive, uma campanha
nacional de "reeducação" no sentido de ensinar bons modos
ao povo, para não fazer feio perante os 800 000 estrangeiros esperados
para os Jogos. "Os chineses devem melhorar suas maneiras e tratar bem os turistas",
resume Zhu Jing, do comitê olímpico. Nas principais ruas de Pequim,
cartazes orientam os pedestres a não cuspir bem, escarrar seria
a definição mais precisa em locais públicos, hábito
que vem refluindo na China. Anúncios veiculados no rádio pedem às
pessoas que respeitem a fila, outro conceito em implantação no país,
e os motoristas de táxi estão sendo convencidos a trocar os velhos
Peugeot barulhentos por carros novos. Entre as medidas que mais causam curiosidade
nos moradores dos bairros antigos que escaparam à onda atual de modernização
estão a reforma e a construção de 4 000 banheiros públicos,
projeto que deve consumir mais de 50 milhões de dólares do orçamento
da cidade. A meta é melhorar as instalações sanitárias
nas áreas onde ainda são coletivas e disseminar o uso de toaletes
ocidentais, relativamente raros na China.
Com 63 medalhas nas últimas Olimpíadas (32 de ouro, dezessete de
prata e catorze de bronze), a China naturalmente sonha passar do segundo para
o primeiro lugar, desbancando os Estados Unidos. Nesse esforço, aflora
com vigor redobrado o método de fabricar atletas em massa. Em qualquer
lugar do mundo, o treinamento de ginastas é um dos exercícios mais
rigorosos a que um ser humano pode ser submetido e em poucos lugares é
tão exigente quanto na China. VEJA acompanhou uma sessão de treinos
da equipe de ginástica artística. As seis meninas só saem
do alojamento para a rotina de treinamentos. À noite, passam pela fiscalização
da técnica, que verifica se estão dormindo antes das 22 horas. Durante
o ensaio de uma das coreografias, Yan Yan, de 17 anos, comete dois deslizes e
ouve a bronca da técnica, que se faz passar por um jurado russo: "Se eu
sou aquele russo, tiro 0,3 ponto por essa perna baixa". A menina tem de esticar
a perna no alto e manter-se imóvel nessa posição por um minuto.
Lágrimas lhe brotam dos olhos. "Sou testada no meu limite físico",
diz Yan Yan. "Mas, se conseguir ajudar a China a ser a número 1, terá
valido a pena." Claro
Cortes/Reuters
 | REEDUCAÇÃO
SANITÁRIA A reforma e a construção de 4 000 banheiros
públicos em estilo ocidental fazem parte de um pacote de obras que consumirá 40
bilhões de dólares e vai transformar a cidade de Pequim: Olimpíadas acirram tiques
comunistas |
Em todos
os outros setores da sociedade chinesa observa-se, em graus variados, uma flexibilização
em relação ao passado "revolucionário". Nos centros esportivos,
o relógio parece parado no passado. Nada é mais comunista no país
hoje do que a preparação para as Olimpíadas. Nos tempos da
Guerra Fria, o comunismo tentava utilizar os Jogos para demonstrar a superioridade
de suas sociedades. Na União Soviética, na finada Alemanha Oriental
e na China, imperava a filosofia de que vencer o mundo capitalista nas competições
de atletismo, natação ou lançamento de dardo era uma prova
de força de sua ideologia sobre os ocidentais decadentes. "A China quer
provar que virou uma superpotência econômica vencendo os Jogos. É,
sem dúvida, um resquício dos tempos de Mao", diz a pesquisadora
Zhao Yu. O peso da exigência
política recai sobre atletas como Yang Wei, 26 anos, e Cheng Fei, 18, da
seleção nacional de ginástica olímpica, ambos levados
a uma escola de esportes por ter aparentado boa flexibilidade por volta dos 6
anos, quando brincavam no pátio de um jardim-de-infância. Os dois
ginastas se tornaram vizinhos num alojamento patrocinado pelo governo. Cheng Fei,
a moça, tem a aparência exausta e confessa estar "sob profundo stress".
"Não posso namorar nem usar o celular e quase não vejo a luz do
dia", contabiliza ela. Yang Wei, o rapaz, que ganhou medalha de prata nos Jogos
de Sydney, conta que já pensou mais de uma vez em abandonar o esporte,
mas rapidamente desistiu. "Não me sinto livre para fazer isso. Seria uma
traição à pátria. Ficaria malvisto em meu país",
diz. Apesar dos avanços, a liberdade individual ainda é um conceito
pouco difundido no país especialmente quando o que está em
jogo é a imagem que a China quer passar ao mundo. |