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 A
novíssima ChinaA prosperidade
é impressionante, as reformas avançam e os chineses têm
o principal para melhorar mais ainda: a confiança de que o futuro pertence
a eles  Vilma
Gryzinski Paulo
Vitale
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Andar pelas ruas de uma grande cidade chinesa e são tantas, e tão
imensas é testemunhar prodígios brotando, literalmente, da
terra. O passeio pode começar diante dos gigantes de cimento e vidro: prédios
de dimensões espantosas, projetos arquitetônicos de fazer cair o
queixo, prefeituras que parecem shopping centers e shopping centers, bem, que
parecem isso mesmo, mas se enfileiram , lado a lado, como uma interminável
Grande Muralha do consumo. Mais adiante, começam as fábricas, e
mais fábricas, e mais fábricas ainda, numa atordoante sucessão
em que quase se pode ouvir o furor produtivo da economia que mais cresce, há
mais tempo, no mundo. Contra esse cenário em permanente mutação,
a paisagem humana causa impacto mais forte ainda. Não apenas pela visível
e constante melhoria do nível de vida de um país que ao longo do
catastrófico século XX passou por sofrimentos indizíveis,
entre dilacerações internas, invasões estrangeiras, períodos
de fome coletiva e experimentos comunistas alucinadamente radicais, deixando em
seu rastro, a cada surto, mortos contados às dezenas de milhões.
Não apenas pelos celulares grudados em todas as mãos, pelos tênis
de qualidade em quase todos os pés, pelas cabeleiras repicadas,
eriçadas, aloiradas que despontam entre os jovens, tornando-os imediatamente
reconhecíveis como membros da comunidade global dos internetizados, plugados
e descolados. Por trás de tantos sinais de progresso material, revela-se
um terceiro fenômeno, sob a forma de um dos bens mais preciosos que uma
nação pode ter: a confiança no futuro.
Essa mercadoria intangível não pode ser produzida nas indústrias
que abastecem e assombram o mundo por sua prodigiosa capacidade, nem copiada pela
incontrolável usina de falsificações, nem induzida pela propaganda
oficial do regime, nominal e operacionalmente ainda comunista, por mais que este
o faça com a constância e o método típicos do autoritarismo.
A novíssima China a nova foi assim rebatizada depois da vitória
da revolução comunista, em 1949 acredita que as coisas vão
ficar melhores ainda por dois motivos simples: a vida de uma imensa massa humana
já deu um grande e verdadeiro salto adiante e essa massa, mais uma parcela
dos que ainda estão esperando ser incorporados a ela, encara o futuro com
otimismo galopante. A experiência recente lhes dá razão. A
"era das reformas" está perto de completar três décadas. Em
escala chinesa, com uma história contínua de mais de cinco milênios,
é menos que um piscar de olhos mas o suficiente para que uma geração
inteira de jovens só tenha experimentado seus efeitos benéficos.
Desencadeado timidamente em 1978 por Deng Xiaoping, o processo de reformas foi
como um terremoto ao contrário. Em lugar de força destrutiva, libertou
a lendária energia empreendedora dos chineses, aprisionada pelo igualitarismo
comunista e por uma economia dirigida formidavelmente ineficiente. Sob a denominação
de "economia socialista com características chinesas", ou, numa variação
mais bizarra ainda, "economia de mercado com características socialistas",
a contradição funcionou. Desde o milagre de Deng, saíram
da pobreza cerca de 400 milhões de pessoas, a maior massa humana a ascender
de patamar, em menos tempo, em toda a história da humanidade. Reprodução
 | Paulo
Vitale
 | GIGANTESCO
SALTO ADIANTE A camponesa miserável, vestida
de trapos, com os filhos desnudos e uma tigela de arroz – vazia – na mão, é um
retrato das desgraças do passado. Mesmo na rica Xangai do começo do século XX,
a polícia recolhia anualmente de 20 000 a 30 000 corpos de gente que morria nas
ruas de fome ou de frio. Famílias e grupos de jovens com todas as marcas da prosperidade,
fotografados no centro de Pequim, são o sinal mais evidente do progresso atual
da China. Uma pesquisa de âmbito global confirma: os chineses são o povo mais
otimista do mundo no momento. Nada menos que 81% estão satisfeitos com os rumos
do país |
Desde então,
a economia de mercado eufemismo pudico para capitalismo desenfreado
passou por um processo muito parecido com o roteiro clássico dos outros
países asiáticos que se transformaram em potências. Numa primeira
etapa, utilização de um imenso e esforçado exército
de mão-de-obra baratíssima, produção de bugigangas
a preços sem concorrência, atração em massa de investimentos
estrangeiros, imbricação do Estado com a iniciativa privada. Como
a China é a China, a arrancada adquiriu dimensões titânicas.
O país onde há menos de trinta anos o salário de todo mundo
correspondia a 20 dólares, os moradores das cidades tinham direito a um
espaço designado pelo Estado de 6 metros quadrados cada um e o PIB era
de 413 bilhões de dólares já passou à frente de potências
tradicionais como o Reino Unido e a França. Com um PIB de 1,9 trilhão
registrado no ano passado, é a quarta economia do mundo, superada apenas
por Estados Unidos, Japão e Alemanha. As perspectivas futuras são
mais assombrosas ainda. Em dez anos, se continuar crescendo nesse ritmo, a economia
chinesa poderá empatar em tamanho com a americana. Numa data projetada
para 2050, atingirá 44 trilhões, já solidamente à
frente dos Estados Unidos (a reportagem sobre o crescimento
chinês está na pág. 146).
O momento atual é fascinante por estar justamente na decolagem rumo ao
patamar que separa os países em crescimento dos desenvolvidos de verdade.
Embora persistam em larga escala as condições que pouca gente na
China ainda se lembraria de chamar de acumulação primitiva de capital,
as fatias mais adiantadas da economia já miram em produtos high tech, de
alto valor agregado, enquanto o governo promove a formação em massa
de cientistas e faz uma caçada mundial aos cérebros, de forma a
aglutinar a matéria-prima que move o desenvolvimento avançado (o
sistema educacional chinês é retratado na pág. 122). A
primeira leva de novos milionários ainda se exibe em "castelos" franceses
copiados tijolo por tijolo e toma conhaque de 2 dólares a garrafa, mas
já desponta uma camada de ricos e chiques que estão aprendendo a
desfrutar o ápice do luxo o bom gosto despojado. "Como é
possível trabalhar só por dinheiro? As pessoas precisam de inspiração",
diz a beldade fotografada na página 111, JinR, uma self-made woman
que contraria o senso comum segundo o qual os chineses só pensam em dinheiro
por sinal, extensamente confirmado fora do círculo dos novos chiques.
As universidades chinesas produzem anualmente uma legião de 1 milhão
de engenheiros, mas profissões típicas das sociedades da abundância
designers, fotógrafos, estilistas e até tatuadores
se propagam entre os jovens (flagrantes desse fenômeno
são mostrados na pág. 134). Reprodução
 | Antonio
Ribeiro
 | VIVA
A REVOLUÇÃO COMERCIAL A Revolução
Cultural foi uma briga que começou no interior do Partido Comunista Chinês.
Para combater os "reacionários", Mao Tsé-tung promoveu o suplício
de dezenas de milhões de pessoas e a destruição de tesouros
históricos. Na foto à esquerda, estudantes, usados como massa de
manobra, arrebentam a marretadas um templo milenar. Na foto à direita,
jovens funcionários de um restaurante temático em Shenzen
sim, o mote é a Revolução Cultural vestem-se como
membros da Guarda Vermelha. O nome do restaurante é Primeira Brigada, Todos
Felizes e a decoração reproduz a propaganda da era maoísta.
Os pratos, ao contrário, são fartos |
É claro que nada que acontece no país que combina
a maior população do planeta 1,3 bilhão, ou 20% de
todos os humanos com a aberração de um sistema político
comunista comandando uma explosão capitalista sem precedentes e, ainda
por cima, a economia mais turbinada da história deixa de ser cercado de
ansiedade, alto risco ou previsões catastrofistas. Os problemas por resolver
são tão imensos, ou maiores ainda, quanto os já resolvidos
e vão da magnitude dos cerca de 800 milhões de chineses que ainda
vivem no campo e, como em qualquer outro lugar do mundo, sonham em sair
de lá e ter uma vida melhor nas cidades às minúcias
do delírio de controle absoluto de um regime que mantém um exército
de anti-hackers para impedir o acesso, pela internet, a termos tão perigosos
quanto liberdade e democracia. As debilidades inerentes à economia chinesa,
o sistema financeiro de alta vulnerabilidade e um modelo de crescimento que, dizem
os especialistas, não pode durar para sempre assustam tanto quanto sua
voracidade. O raciocínio é o seguinte: se a China desmoronar, a
economia mundial vai junto; se continuar dando certo, é a ecologia que
entrará em falência. O ditado ressuscitado para explicar a teoria
do caos "O bater das asas de uma borboleta na China pode provocar um furacão
do outro lado do mundo" é evocado com sinal invertido. "Se todos
os chineses tiverem luz elétrica", "Se metade deles comprar geladeiras",
"Se 20% saírem dirigindo automóveis", ou alguma variação
similar sempre seguida de previsões sombrias sobre destruição
ambiental em escala planetária.
Produtos chineses fascinam o mundo ocidental há mais de 2 000 anos, desde
que a rainha de uma potência decadente, Cleópatra do Egito, lançou
em Roma a moda dos vestidos transparentes feitos de um raro e diáfano tecido.
Desde então, a seda tornou-se uma obsessão da aristocracia européia,
mas o remoto e fabuloso país que a produzia só voltou a reaflorar
no imaginário ocidental no século XIII, com os escritos de Marco
Polo. O deslumbramento com as dimensões, as riquezas, os refinamentos e
o poderio comercial do distante Império do Meio era compreensível.
Marco Polo vinha de Veneza, que, com 160 000 habitantes, estava no ápice
como a maior cidade européia da época, e se instalou em Hangzhou,
metrópole que tinha uma população calculada em 1,5 milhão.
Tecnologias made in China como a bússola e a pólvora, além
de técnicas de construção naval e de forja do ferro, constituíram
a base material da era dos descobrimentos e suas formidáveis conseqüências,
que empurraram a civilização ocidental para a situação
de proeminência em que se encontra até hoje. Reprodução
 | Paulo
Vitale
 | SER
RICO É CHIQUÉRRIMO As mulheres
ricas do passado, como a velha aristocrata fotografada em 1918, mal saíam
de casa: os pés, que começavam a ser quebrados e enfaixados na infância,
só permitiam um caminhar breve e vacilante. A empresária JinR, de
34 anos, na foto acima, andou com os próprios pés. Largou uma carreira
como musicista, abriu uma pequena casa de chá e, quando os clientes começaram
a pedir mais, assumiu a cozinha. "Usava meus lindos Issey Miyake para fazer comida",
relembra ela, hoje dona de um restaurante espetacular. E as perspectivas do país?
"É claro que o futuro da China é maravilhoso" |
Essa China prodigiosa descrita por Marco Polo já era, na opinião
de alguns historiadores, um império em declínio. O auge havia sido
atingido durante os séculos dourados da dinastia Tang, que foi do ano 618
ao 907 da era cristã. "Era uma civilização supremamente confiante
e extraordinariamente cosmopolita", descreveu no livro The China Dream o
jornalista inglês Joe Studwell, que morou quase dez anos na China. "Sua
sociedade combinava o budismo indiano, os passatempos cortesãos do Irã
e uma curiosidade comercial em relação a bens e serviços
estrangeiros, somada à supremacia chinesa em matéria de organização
política, tecnologia e produtividade agrícola. A China estava tão
à frente do resto do mundo que não precisava de nada dele." A era
Tang entrou no ocaso levada pelos movimentos cíclicos da longa história
chinesa: o poder central começa a se desfazer, os potentados regionais
se fortalecem, espoucam rebeliões e logo se instala o mais temido dos perigos
políticos, o caos. Nesse oceano
histórico de eterna expansão e contração, o momento
mais lembrado, pelos paralelos que contém com o Ocidente, costuma ser o
reinado do imperador Yong le, no começo do século XV. Enquanto os
portugueses, em suas frágeis caravelas, se lançavam na exploração
da costa leste da África, do outro lado do continente os mares eram dominados
por uma fabulosa frota. No seu comando, o almirante Zheng He. Encarregado da missão
de propagar o poder imperial e coletar tributos dos "bárbaros de além-mar",
Zheng He fez sete viagens. A quarta, e mais ambiciosa, era composta de sessenta
galeões, com 30 000 homens embarcados. Coerentes com o hábito da
autocrítica cultural, historiadores ocidentais costumam exaltar como a
frota chinesa era maior e tecnologicamente superior à de seus quase contemporâneos
europeus. Mas foram os portugueses e espanhóis, em suas casquinhas de noz,
que chegaram ao Oriente e não vice-versa. Aprenderam a ir
e mais, importante, voltar , começaram com entrepostos comerciais,
criaram impérios marítimos. No processo, descobriram o continente
americano. Mudaram o mundo. Apesar da insignificância de seus países
de origem e do obscurantismo do catolicismo praticado na época, eram homens
livres, movidos por um motor poderoso a vontade de fazer bons negócios
e neles vicejava a semente do pensamento científico. Zheng He, apesar
dos feitos heróicos e da força do império por trás
dele, era um servo num império onde o gosto pelas inovações
obedecia a caprichos pessoais do soberano. Menino muçulmano do interior,
foi capturado, castrado aos 13 anos e colocado a serviço da corte
eram eunucos todos os altos funcionários da casa imperial, medida que nem
assim conseguia impedir a corrupção, tão milenar quanto a
história chinesa. Quando o imperador que o patrocinava morreu, seu substituto
acabou com a aventura marítima, proibiu as expedições de
qualquer tipo e baniu o comércio exterior. A frota fabulosa apodreceu e
a China fechou-se em mais um período de "esplêndido isolamento".
Essa breve incursão histórica
foi feita porque ajuda a tentar compreender algo do que vai na mente das multidões
descritas no começo do passeio pela China metropolitana. A longa história
chinesa, com seus períodos de glória e decadência, está
cravada no inconsciente coletivo do país. Como qualquer povo, os chineses
tendem a se achar melhores do que o resto da humanidade e, com tanto passado acumulado,
vêm fazendo isso há muito mais tempo do que os outros. Esse sentimento
de superioridade foi cruelmente destruído não só pelos "demônios
brancos" que arrancaram nacos da China durante a fase de imperialismo puro e duro
do século XIX como pelo detestado Japão, tradicionalmente visto
como um subproduto inferior da civilização-mãe. Quando a
propaganda maoísta abriu uma fresta, ruiu também a ilusão
de que o regime comunista havia criado uma potência de primeira classe.
Às vésperas do século XXI, ainda se passava fome em larga
escala no país da revolução camponesa. A idéia de
que a China não pode ficar para trás tem raízes profundas.
Perguntadas pelos jornalistas de VEJA sobre o que esperam do futuro, várias
dezenas de pessoas responderam o previsível ("Ganhar dinheiro", "Ter um
bom emprego", "Uma vida melhor para meu filho", "Comprar um carro" ou sua variação
mais ambiciosa, "Comprar uma Ferrari"). O inesperado foi ver quanta gente associa
seus sonhos privados ao desejo universal de ver a China "reocupar seu lugar" no
mundo e fala com fervor sobre o futuro. Alguns exemplos que aparecerão
nas reportagens a seguir: "Tenho a sorte de estar vivo para ver a China tornar-se
o país mais rico do planeta", Ying Wo, 19 anos, estudante de jornalismo;
"A China é o país mais promissor de todo o mundo", Pan Shiyi, 42
anos, um dos maiores empreiteiros do país; "Meu sonho é ver a China
se revitalizar e recuperar seu lugar de destaque. E que consiga deixar de ser
um país em desenvolvimento antes da data prevista, de 2050", Yang Zhongqiang,
50, economista, vice-diretor da comissão de desenvolvimento da cidade de
Tianjin, revelando o característico pensamento chinês de longo prazo.
É essa convicção dos chineses de que o futuro pertence a
eles que constrói ou reergue impérios. |