Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Confusão do além

O núcleo de Da Cor do Pecado que não
tem nada a ver com a lógica – ou com
o resto da novela


Ricardo Valladares


Divulgação
Vanessa e Matheus, possuídos: ele vai virar um "cortiço de espíritos"

No mundinho fechado de uma novela, todas as tramas costumam ser interligadas. De alguma maneira, o suburbano se encontra com o milionário e o personagem cômico contracena com o trágico. Mas em Da Cor do Pecado, que a Globo exibe às 7 da noite, observa-se uma situação curiosa: um núcleo totalmente isolado do restante da história. Trata-se do grupo de médiuns e picaretas formado por Helinho (Matheus Nachtergaele), Tancinha (Vanessa Gerbelli), Pai Gaudêncio (Francisco Cuoco) e Cesinha (Arlindo Lopes). Enquanto a parte principal da trama acontece no Rio de Janeiro, eles vivem no Maranhão, onde passam por situações absurdas relacionadas com espíritos e assombrações. "No começo esses personagens estavam integrados ao enredo principal. Eu posso trazê-los de volta, mas por enquanto está ótimo assim. É a parte da novela em que eu mais me divirto ao escrever, porque não tenho compromisso nenhum com o realismo e a coerência", diz o autor, João Emanuel Carneiro. E bem que Carneiro está precisando de diversão. Da Cor do Pecado é sua primeira novela, e o trabalho está deixando-o tão tenso que na semana passada ele quebrou um dente molar durante o sono, de tanto apertar os maxilares.

Além de relaxar o autor, o núcleo dos espíritos desempenha um papel na equação que tem tornado Da Cor do Pecado um sucesso extraordinário para o seu horário, com média de audiência que chega aos 50 pontos. A sensual Vanessa Gerbelli atrai o público masculino, e o humor espalhafatoso das aventuras sobrenaturais atrai crianças e os espectadores das classes C e D. No começo da novela, os personagens de Francisco Cuoco e Matheus Nachtergaele davam a impressão de que seriam apenas trambiqueiros. O primeiro se apresentava como chefe de um conselho de bruxos que se concentra em obter um "DDD com o além". Helinho fingia ter dons mediúnicos para arrancar alguns trocados e beijinhos de viúvas ricas. A certa altura, porém, Helinho passou a incorporar realmente espíritos, e agora não tem o menor controle sobre eles. Depois surgiu a personagem Tancinha. Logo virá à tona que ela é um defunto, que anda por aí porque almas penadas gostam de se apoderar de seu corpão.

Na próxima semana, Matheus Nachtergaele vai gravar uma cena em que terá de mudar de identidade treze vezes. Esse momento, em que um batalhão de espíritos vai se manifestar ao mesmo tempo, está sendo chamado de "operação cortiço". O cortiço é o corpo de Helinho – e os inquilinos, é claro, são os mortos. Embora faça um papel cômico, Matheus leva a sério o espiritismo e o candomblé. Ele pratica essa última religião, só usa roupa branca às sextas-feiras e é filho de Oxalá. Para interpretar Helinho, ele pediu a bênção de seu pai-de-santo. "Mesmo assim, recebi algumas ligações de gente que dizia que eu estava desrespeitando os espíritos", conta ele. Por desencargo de consciência, Matheus diz que encomendou um ritual para os orixás. É isso aí, misi fiu.

 
 
 
 
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