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Livros
Steinbeck
descobre a América
Os
ensaios do escritor de Ratos e Homens
traçam um retrato emocionado dos Estados
Unidos e de seu povo

Moacyr
Scliar
A literatura
aspira à permanência, mas nem sempre a memória
do público colabora para isso. O escritor americano John
Steinbeck (1902-1968) hoje é escassamente lembrado fora das
escolas e universidades dos Estados Unidos. No entanto, estamos
falando de um autor que arrebatou legiões de leitores, teve
romances como As Vinhas da Ira adaptados com sucesso para
o cinema e ganhou o Nobel de Literatura. Sua obra não-ficcional,
que abrange dezenas de artigos e ensaios, é ainda mais negligenciada.
É oportuno, portanto, o lançamento no Brasil de A
América e os Americanos (tradução de
Maria Beatriz de Medina; Record; 490 páginas; 59,90 reais),
antologia de ensaios que permite refazer a trajetória literária
e política de Steinbeck e da geração que começou
a publicar nos dramáticos anos 30 os anos da recessão
americana, da emergência do nazismo e do stalinismo na Europa.
"Não consigo pensar em nenhuma outra década da história
em que tenha acontecido tanta coisa", afirmava Steinbeck.
Nascido
em Salinas, Califórnia, Steinbeck levou uma vida aventureira.
Não concluiu os estudos universitários. Para sobreviver,
trabalhou na colheita de frutas, na construção de
rodovias e foi repórter. A Depressão converteu-o em
escritor engajado. Identificava-se com a luta dos trabalhadores
rurais, que transformou em personagens de romances como Ratos
e Homens e As Vinhas da Ira, mas nunca foi comunista.
Aliás, seria até acusado de direitista por sua cobertura
jornalística da Guerra do Vietnã.
Os
textos sobre literatura não estão entre os mais brilhantes
dos 65 artigos coletados em A América e os Americanos.
Steinbeck repete as acusações habituais contra os
críticos seriam todos escritores frustrados
e não ultrapassa o óbvio. O melhor da obra está
na seção que a encerra e lhe dá título.
Trata-se de um conjunto de ensaios originalmente escrito para um
livro de fotos sobre a vida americana publicado em 1966. Steinbeck
já tinha experiência na colaboração entre
texto e imagem, como prova o seu Um Diário Russo,
livro de viagens produzido com o fotógrafo Robert Capa em
1947. Na presente edição, sem fotos, os ensaios sustentam
sua autonomia. O escritor opina sobre seus compatriotas, esses seres
"complicados, paradoxais, cabeças-duras, tímidos,
cruéis, fanfarrões, indizivelmente queridos e belíssimos".
Os Estados Unidos definem-se pelo paradoxo: são "uma nação
de puritanos públicos e devassos privados". Bom narrador,
Steinbeck ilustra seus argumentos com casos que testemunhou. Ao
abordar o racismo, conta uma cena: um negro, conhecido seu, vinha
caminhando pela rua quando uma mulher, bêbada, escorregou
e caiu. Em vez de ajudá-la, o homem se afastou rapidamente.
"Ela poderia achar que sou um tarado", explicou o rapaz, acrescentando:
"Tenho uma longa experiência do que é ser negro". Os
ensaios de Steinbeck atestam sua longa e rica experiência
no métier de escritor.
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