Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Livros
Steinbeck descobre a América

Os ensaios do escritor de Ratos e Homens
traçam um retrato emocionado dos Estados
Unidos e de seu povo


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

A literatura aspira à permanência, mas nem sempre a memória do público colabora para isso. O escritor americano John Steinbeck (1902-1968) hoje é escassamente lembrado fora das escolas e universidades dos Estados Unidos. No entanto, estamos falando de um autor que arrebatou legiões de leitores, teve romances como As Vinhas da Ira adaptados com sucesso para o cinema e ganhou o Nobel de Literatura. Sua obra não-ficcional, que abrange dezenas de artigos e ensaios, é ainda mais negligenciada. É oportuno, portanto, o lançamento no Brasil de A América e os Americanos (tradução de Maria Beatriz de Medina; Record; 490 páginas; 59,90 reais), antologia de ensaios que permite refazer a trajetória literária e política de Steinbeck e da geração que começou a publicar nos dramáticos anos 30 – os anos da recessão americana, da emergência do nazismo e do stalinismo na Europa. "Não consigo pensar em nenhuma outra década da história em que tenha acontecido tanta coisa", afirmava Steinbeck.

Nascido em Salinas, Califórnia, Steinbeck levou uma vida aventureira. Não concluiu os estudos universitários. Para sobreviver, trabalhou na colheita de frutas, na construção de rodovias e foi repórter. A Depressão converteu-o em escritor engajado. Identificava-se com a luta dos trabalhadores rurais, que transformou em personagens de romances como Ratos e Homens e As Vinhas da Ira, mas nunca foi comunista. Aliás, seria até acusado de direitista por sua cobertura jornalística da Guerra do Vietnã.

Os textos sobre literatura não estão entre os mais brilhantes dos 65 artigos coletados em A América e os Americanos. Steinbeck repete as acusações habituais contra os críticos – seriam todos escritores frustrados – e não ultrapassa o óbvio. O melhor da obra está na seção que a encerra e lhe dá título. Trata-se de um conjunto de ensaios originalmente escrito para um livro de fotos sobre a vida americana publicado em 1966. Steinbeck já tinha experiência na colaboração entre texto e imagem, como prova o seu Um Diário Russo, livro de viagens produzido com o fotógrafo Robert Capa em 1947. Na presente edição, sem fotos, os ensaios sustentam sua autonomia. O escritor opina sobre seus compatriotas, esses seres "complicados, paradoxais, cabeças-duras, tímidos, cruéis, fanfarrões, indizivelmente queridos e belíssimos". Os Estados Unidos definem-se pelo paradoxo: são "uma nação de puritanos públicos e devassos privados". Bom narrador, Steinbeck ilustra seus argumentos com casos que testemunhou. Ao abordar o racismo, conta uma cena: um negro, conhecido seu, vinha caminhando pela rua quando uma mulher, bêbada, escorregou e caiu. Em vez de ajudá-la, o homem se afastou rapidamente. "Ela poderia achar que sou um tarado", explicou o rapaz, acrescentando: "Tenho uma longa experiência do que é ser negro". Os ensaios de Steinbeck atestam sua longa e rica experiência no métier de escritor.

 
 
 
 
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