Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Cinema
Para fazer o relógio voltar

Cazuza – O Tempo Não Pára
apresenta o cantor a uma
geração que mal ouviu falar dele


Sérgio Martins


Divulgação
Claudia Dantas
UM EMBLEMA DOS ANOS 80
Oliveira, como Cazuza: bom retrato do cantor que marcou uma década com suas letras e o tumulto da sua vida pessoal
O OLHAR MATERNO
Cazuza, com sua mãe: livro de Lucinha Araújo serve de base ao filme

EXCLUSIVO ON-LINE
Para ouvir: músicas de Cazuza
DA INTERNET
Trailer do filme

Numa das melhores cenas de Cazuza – O Tempo Não Pára (Brasil, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, Cazuza (interpretado com bravura por Daniel de Oliveira, que é assombrosamente parecido com o personagem real) interrompe um ensaio do seu grupo, o Barão Vermelho, para cantarolar O Mundo É um Moinho, do compositor Cartola. O ato de indisciplina rende uma bronca de Roberto Frejat (Cadu Favero), líder do Barão. "Somos uma banda de rock. Não tocamos samba." Sempre que se manifesta sobre o filme, Frejat (o verdadeiro) nega que tal imbróglio tenha acontecido. Da forma como é visto no filme, porém, ele é simbólico da carreira do cantor, morto em julho de 1990, aos 32 anos, em decorrência da aids. Cazuza nunca escondeu a paixão pela MPB, em especial pelas canções sobre dor-de-cotovelo de artistas como Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues e Maysa. Único filho de Lucinha Araújo e do produtor musical João Araújo, Cazuza – apelido de Agenor de Miranda Araújo Neto – passou a infância rodeado por grandes nomes da MPB. "Eu acordava no meio da noite, ia para a sala e deparava com Caetano, Gil, Bethânia e Gal", comentou. Pois se hoje Cazuza é tido como um dos principais letristas da história recente da música brasileira, isso se deve à vertente dor-de-cotovelo de alguns sucessos do Barão Vermelho e de sua carreira-solo. O flerte com o rock representa apenas uma faceta de sua obra.

O pop nacional dos anos 80 gerou dois ídolos: Cazuza e Renato Russo. Enquanto o primeiro era a esbórnia em estado bruto, Renato Russo era o introspectivo. Cazuza escancarava sua bissexualidade, ao passo que Renato tinha dificuldades no amor. Os dois morreram vitimados pela aids – Renato, em 1996 –, mas Cazuza não desfruta do mesmo status que o cantor do Legião Urbana, nem os jovens das novas gerações têm intimidade com sua obra. Numa pesquisa do Instituto Cidadania realizada no ano passado, ele não está sequer entre os dez compositores mais admirados. Figura atrás de nomes de sucesso como Charlie Brown Jr. e de nulidades como Sandy & Junior. A explicação mais fácil, porém incompleta, é que Cazuza morreu muito cedo. Outra razão pode estar na sua irreverência: feliz com sua opção sexual e seu comportamento desregrado, ele foi o primeiro artista brasileiro a admitir que estava com aids, mas sem nunca sugerir que carregava algum arrependimento pelas loucuras passadas. Para a maior parte do público, portanto, não é tão fácil se identificar com ele quanto com Renato Russo, que fez de seus sofrimentos uma especialidade lírica.

Feitas as contas, porém, Cazuza é um letrista superior. Amava eternamente por um dia, e transformava o objeto de paixão em letra de música. Nessas horas, escrevia compulsivamente. "Cansei de atender o Cazuza de madrugada, pedindo papel e caneta porque a inspiração tinha baixado", diz Guto Graça Mello, diretor musical de O Tempo Não Pára. Muitas das letras dessa época nasceram das baladas do cantor pelo Baixo Leblon, centro da boêmia descolada do Rio de Janeiro. Mas as dificuldades amorosas dos amigos também serviam como inspiração. Certa vez, Ezequiel Neves, produtor do Barão Vermelho e "avô" de Cazuza (como gosta de ser chamado), brigou com o namorado e com a mulher deste. Desgostoso, saiu berrando "Eu não amo ninguém!" pelos corredores do estúdio em que o Barão gravava seu terceiro disco. O bordão se transformou numa das melhores letras de Cazuza – é a sexta faixa de Maior Abandonado, de 1984. Quando o cantor descobriu estar com aids, em 1987, seus temas se voltaram para a guerra contra um mal invencível, em que cada batalha ganha era motivo de comemoração. Dessa fase, não há como não lembrar do verso de Boas Novas ("Eu vi a cara da morte e ela estava viva"). O testamento musical de Cazuza, no entanto, é O Tempo Não Pára, faixa-título do disco ao vivo de 1989 e que também batiza o filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho – cujo mérito maior é apresentar o compositor ao público mais jovem. Baseado no livro Só as Mães São Felizes, escrito por Lucinha Araújo e pela jornalista Regina Echeverria, O Tempo Não Pára é um retrato simpático – e bastante fiel – de uma figura que merece ser redescoberta.

 
 
 
 
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