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Cinema
Para
fazer o relógio voltar
Cazuza
O Tempo Não Pára
apresenta o cantor a uma
geração que mal ouviu falar dele

Sérgio
Martins
Divulgação
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Claudia Dantas
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UM
EMBLEMA DOS ANOS 80
Oliveira, como Cazuza: bom retrato do cantor que marcou uma
década com suas letras e o tumulto da sua vida pessoal
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O
OLHAR MATERNO
Cazuza, com sua mãe: livro de Lucinha Araújo serve
de base ao filme |
Numa
das melhores cenas de Cazuza O Tempo Não Pára
(Brasil, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
Cazuza (interpretado com bravura por Daniel de Oliveira, que é
assombrosamente parecido com o personagem real) interrompe um ensaio
do seu grupo, o Barão Vermelho, para cantarolar O Mundo
É um Moinho, do compositor Cartola. O ato de indisciplina
rende uma bronca de Roberto Frejat (Cadu Favero), líder do
Barão. "Somos uma banda de rock. Não tocamos samba."
Sempre que se manifesta sobre o filme, Frejat (o verdadeiro) nega
que tal imbróglio tenha acontecido. Da forma como é
visto no filme, porém, ele é simbólico da carreira
do cantor, morto em julho de 1990, aos 32 anos, em decorrência
da aids. Cazuza nunca escondeu a paixão pela MPB, em especial
pelas canções sobre dor-de-cotovelo de artistas como
Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues e Maysa. Único
filho de Lucinha Araújo e do produtor musical João
Araújo, Cazuza apelido de Agenor de Miranda Araújo
Neto passou a infância rodeado por grandes nomes da
MPB. "Eu acordava no meio da noite, ia para a sala e deparava com
Caetano, Gil, Bethânia e Gal", comentou. Pois se hoje Cazuza
é tido como um dos principais letristas da história
recente da música brasileira, isso se deve à vertente
dor-de-cotovelo de alguns sucessos do Barão Vermelho e de
sua carreira-solo. O flerte com o rock representa apenas uma faceta
de sua obra.
O
pop nacional dos anos 80 gerou dois ídolos: Cazuza e Renato
Russo. Enquanto o primeiro era a esbórnia em estado bruto,
Renato Russo era o introspectivo. Cazuza escancarava sua bissexualidade,
ao passo que Renato tinha dificuldades no amor. Os dois morreram
vitimados pela aids Renato, em 1996 , mas Cazuza não
desfruta do mesmo status que o cantor do Legião Urbana, nem
os jovens das novas gerações têm intimidade
com sua obra. Numa pesquisa do Instituto Cidadania realizada no
ano passado, ele não está sequer entre os dez compositores
mais admirados. Figura atrás de nomes de sucesso como Charlie
Brown Jr. e de nulidades como Sandy & Junior. A explicação
mais fácil, porém incompleta, é que Cazuza
morreu muito cedo. Outra razão pode estar na sua irreverência:
feliz com sua opção sexual e seu comportamento desregrado,
ele foi o primeiro artista brasileiro a admitir que estava com aids,
mas sem nunca sugerir que carregava algum arrependimento pelas loucuras
passadas. Para a maior parte do público, portanto, não
é tão fácil se identificar com ele quanto com
Renato Russo, que fez de seus sofrimentos uma especialidade lírica.
Feitas
as contas, porém, Cazuza é um letrista superior. Amava
eternamente por um dia, e transformava o objeto de paixão
em letra de música. Nessas horas, escrevia compulsivamente.
"Cansei de atender o Cazuza de madrugada, pedindo papel e caneta
porque a inspiração tinha baixado", diz Guto Graça
Mello, diretor musical de O Tempo Não Pára.
Muitas das letras dessa época nasceram das baladas do cantor
pelo Baixo Leblon, centro da boêmia descolada do Rio de Janeiro.
Mas as dificuldades amorosas dos amigos também serviam como
inspiração. Certa vez, Ezequiel Neves, produtor do
Barão Vermelho e "avô" de Cazuza (como gosta de ser
chamado), brigou com o namorado e com a mulher deste. Desgostoso,
saiu berrando "Eu não amo ninguém!" pelos corredores
do estúdio em que o Barão gravava seu terceiro disco.
O bordão se transformou numa das melhores letras de Cazuza
é a sexta faixa de Maior Abandonado, de 1984.
Quando o cantor descobriu estar com aids, em 1987, seus temas se
voltaram para a guerra contra um mal invencível, em que cada
batalha ganha era motivo de comemoração. Dessa fase,
não há como não lembrar do verso de Boas
Novas ("Eu vi a cara da morte e ela estava viva"). O testamento
musical de Cazuza, no entanto, é O Tempo Não Pára,
faixa-título do disco ao vivo de 1989 e que também
batiza o filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho cujo mérito
maior é apresentar o compositor ao público mais jovem.
Baseado no livro Só as Mães São Felizes,
escrito por Lucinha Araújo e pela jornalista Regina Echeverria,
O Tempo Não Pára é um retrato simpático
e bastante fiel de uma figura que merece ser redescoberta.
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