Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Música
Terapia do rock

Quarentão, o inglês Steven Morrissey
ainda dá voz a seu adolescente interior


Sérgio Martins


Reuters
O misterioso Morrissey: gay ou sem-sexo?

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Para ouvir: músicas do disco You Are the Quarry

Segundo o romancista inglês Nick Hornby, um defensor apaixonado do rock, a principal tarefa desse tipo de música é manter seu ouvinte, seja lá de que idade for, em contato com as vibrações da juventude. Para Hornby, "a energia, o desejo ardente, as exultações inexplicáveis, um senso ocasional de invencibilidade, a esperança que queima como ácido" são os atributos juvenis que o rock tem o poder de despertar. Em sua carreira, e também no disco You Are the Quarry, que acaba de lançar depois de sete anos de silêncio, o cantor Stephen Morrissey – outro inglês – oferece uma curiosa versão dessa idéia. Aos 45 anos, Morrissey se mantém em contato com seu adolescente interior, e convida seus fãs a fazer o mesmo. Para ele, contudo, a juventude é o período da melancolia – e de um desconforto existencial de dimensões cósmicas.

Pode parecer deprimente, mas quem conhece o ex-vocalista da banda The Smiths, uma das mais importantes dos anos 80 e talvez da história do rock, sabe que não é assim. Nunca se teve notícia de um fã que houvesse cometido suicídio por causa de suas músicas, mas muita gente diz que teve sua vida salva por canções como Heaven Knows I'm Miserable Now (Os Céus Sabem Como Estou Infeliz). Segundo o crítico Michael Bracewell, Morrissey teria estabelecido com seus fãs uma relação de terapeuta. Alguns deles – gente que transformou seu novo CD num sucesso imediato na Europa e nos Estados Unidos e liquidou os ingressos para os primeiros shows de sua turnê americana – armaram um culto ao redor do cantor. Mas não é preciso ir tão longe para gostar de Morrissey. O "Senhor Tristeza" – como a imprensa chegou a apelidá-lo – talvez seja o mais irônico dos ídolos pop em atividade. Tudo o que escreve, tanto as letras confessionais quanto as políticas, está carregado de humor finíssimo e de uma divertida insolência que parece dizer: se o mundo é um lixo, não é tão ruim assim ser um desajustado. Sem contar que Morrissey é um mestre das boas melodias, apesar de não saber tocar nenhum instrumento.

Sua sexualidade é um mistério. A aposta mais óbvia seria "gay", mas ele sugere que simplesmente não tem vida sexual. Em 1998, o cantor deixou sua Inglaterra natal para viver em Los Angeles, numa mansão que foi do ator Clark Gable. A mudança lhe deu um lugar a mais sobre o qual reclamar. You Are the Quarry traz diatribes contra seus dois lares. Em America Is Not the World ele diz que só acreditará nos ideais de liberdade do país quando um negro, uma mulher ou um gay forem eleitos para a Presidência. Em Irish Blood, English Heart, diz "que tem sonhado com um tempo em que ser inglês não será doloroso". O novo CD também tem boas músicas na linha "porta-voz dos excluídos". É o caso de All the Lazy Dykes, em que ele conclama todas as lésbicas a sair do armário, ou da canção chorosa em que anuncia: "Eu perdoei Jesus".

 
 
 
 
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