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Música
Terapia
do rock
Quarentão,
o inglês Steven Morrissey
ainda dá voz a seu adolescente interior

Sérgio
Martins
Reuters
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| O
misterioso Morrissey: gay ou sem-sexo? |
Segundo
o romancista inglês Nick Hornby, um defensor apaixonado do
rock, a principal tarefa desse tipo de música é manter
seu ouvinte, seja lá de que idade for, em contato com as
vibrações da juventude. Para Hornby, "a energia, o
desejo ardente, as exultações inexplicáveis,
um senso ocasional de invencibilidade, a esperança que queima
como ácido" são os atributos juvenis que o rock tem
o poder de despertar. Em sua carreira, e também no disco
You Are the Quarry, que acaba de lançar depois de
sete anos de silêncio, o cantor Stephen Morrissey outro
inglês oferece uma curiosa versão dessa idéia.
Aos 45 anos, Morrissey se mantém em contato com seu adolescente
interior, e convida seus fãs a fazer o mesmo. Para ele, contudo,
a juventude é o período da melancolia e de
um desconforto existencial de dimensões cósmicas.
Pode
parecer deprimente, mas quem conhece o ex-vocalista da banda The
Smiths, uma das mais importantes dos anos 80 e talvez da história
do rock, sabe que não é assim. Nunca se teve notícia
de um fã que houvesse cometido suicídio por causa
de suas músicas, mas muita gente diz que teve sua vida salva
por canções como Heaven Knows I'm Miserable Now
(Os Céus Sabem Como Estou Infeliz). Segundo o crítico
Michael Bracewell, Morrissey teria estabelecido com seus fãs
uma relação de terapeuta. Alguns deles gente
que transformou seu novo CD num sucesso imediato na Europa e nos
Estados Unidos e liquidou os ingressos para os primeiros shows de
sua turnê americana armaram um culto ao redor do cantor.
Mas não é preciso ir tão longe para gostar
de Morrissey. O "Senhor Tristeza" como a imprensa chegou
a apelidá-lo talvez seja o mais irônico dos
ídolos pop em atividade. Tudo o que escreve, tanto as letras
confessionais quanto as políticas, está carregado
de humor finíssimo e de uma divertida insolência que
parece dizer: se o mundo é um lixo, não é tão
ruim assim ser um desajustado. Sem contar que Morrissey é
um mestre das boas melodias, apesar de não saber tocar nenhum
instrumento.
Sua
sexualidade é um mistério. A aposta mais óbvia
seria "gay", mas ele sugere que simplesmente não tem vida
sexual. Em 1998, o cantor deixou sua Inglaterra natal para viver
em Los Angeles, numa mansão que foi do ator Clark Gable.
A mudança lhe deu um lugar a mais sobre o qual reclamar.
You Are the Quarry traz diatribes contra seus dois lares.
Em America Is Not the World ele diz que só acreditará
nos ideais de liberdade do país quando um negro, uma mulher
ou um gay forem eleitos para a Presidência. Em Irish Blood,
English Heart, diz "que tem sonhado com um tempo em que ser
inglês não será doloroso". O novo CD também
tem boas músicas na linha "porta-voz dos excluídos".
É o caso de All the Lazy Dykes, em que ele conclama
todas as lésbicas a sair do armário, ou da canção
chorosa em que anuncia: "Eu perdoei Jesus".
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