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Cidades
Terra
esquisita
Encravada
no coração do capitalismo, Austin
repele a globalização e vira atração
turística

Marcelo
Carneiro, de Austin
Imagine
uma cidade que, na última década, se tornou pólo
de atração de empresas de primeira linha no mundo
da informática, viu sua população crescer 54%
e a média salarial de seus habitantes aumentar 65%. Em qualquer
lugar do mundo, isso seria motivo de orgulho. Nos Estados Unidos,
coração do capitalismo mundial, municípios
que conquistam essa façanha viram símbolo da vitalidade
e do dinamismo da economia de mercado. Com Austin, a capital do
Estado do Texas, foi diferente. A cidade, além desses resultados,
apresentou ao longo dos anos 90 taxas de crescimento superiores
às do próprio país, que no mesmo período
viveu uma de suas fases de maior exuberância econômica.
Porém, em vez de se ufanarem do sucesso, os moradores de
Austin vivem um paradoxo. Reconhecem que o dinheiro trouxe benefícios,
mas enxergam no crescimento acelerado uma rendição
exagerada ao que vem de fora e uma descaracterização
da cultura local. É o capitalismo sob fogo cruzado, na pátria
do capital.
Nos
últimos anos, Austin tornou-se conhecida por demonstrações
explícitas de resistência ao poder de sedução
do mercado. A cidade é uma das cinqüenta maiores dos
Estados Unidos e certamente a única desse grupo em que encontrar
um McDonald's é uma tarefa razoavelmente difícil.
A inauguração de uma filial da rede americana de cafés
Starbucks, que hoje existe até na China, provocou protestos,
como se representasse uma ameaça ao comércio local,
formado por pequenos, empoeirados e charmosos bares de rua. O aeroporto,
de porte internacional, foi construído com projeto arquitetônico,
materiais e mão-de-obra locais e todas as lojas pertencem
a comerciantes da região. Nos alto-falantes, nos setores
de embarque e desembarque, só se ouve música texana.
A cidade criou até um slogan, "Keep Austin weird"
em português, "Mantenha Austin Esquisita".
E
o que torna Austin esquisita? Uma piada local diz que a cidade é
a meca de hippies cinqüentões que se recusam a crescer
e a se mudar para Dallas ou Houston, as duas grandes metrópoles
texanas. A cidade também é uma das preferidas dos
jovens americanos, por abrigar o maior campus universitário
do país, o da Universidade do Texas, com 56 000 alunos. Conhecida
por ser uma capital liberal em um Estado fortemente conservador
foi de uma bela mansão em estilo vitoriano, perto
do centro da cidade, que o então governador do Texas, o linha-dura
George W. Bush, partiu para tornar-se o 43º presidente dos
Estados Unidos , Austin sempre orgulhou-se de, até
a década passada, manter-se praticamente impenetrável
à opulência do capitalismo, sem arranha-céus,
grandes lojas de departamento ou redes de fast food. Não
por acaso, só mesmo em Austin uma drag queen poderia concorrer
ao cargo de prefeito e conquistar 8% dos votos, como ocorreu em
2000. Esse jeitão descontraído e a beleza natural
da cidade atraíram estrelas americanas do esporte e do cinema,
como o ciclista Lance Armstrong, pentacampeão da Volta da
França, e a atriz Sandra Bullock.
Uma
mudança nessa história teve início a partir
do final dos anos 80, quando um ex-aluno da Universidade do Texas
começou a ficar rico e famoso vendendo computadores. Michael
Dell deu à empresa o seu sobrenome, ganhou prestígio
ao enfrentar de igual para igual a concorrência da então
poderosa e quase monopolista IBM e colocou Austin no mapa das grandes
corporações de informática. Em plena época
de euforia financeira com o boom da internet, Austin viu sua população
crescer, em menos de quinze anos, de 465 000 para 700 000 pessoas,
a maioria jovens especializados na área tecnológica
e empresários da indústria de informática,
um dos maiores processos de migração na história
recente dos Estados Unidos (veja quadro). A chegada desses
barões da internet inflacionou o mercado de venda e aluguel
de casas e apartamentos e injetou na economia da cidade, em um período
de menos de uma década, algo em torno de 4,3 bilhões
de dólares.
Em
2000, quando a bolha da internet já estava se esvaziando,
mas seus efeitos em Austin ainda eram bastante visíveis,
Red Wassenich, um bibliotecário de 53 anos, começou
a fabricar adesivos com a frase "Keep Austin weird". O slogan tornou-se
uma febre na cidade. Hoje, figura em documentos da Câmara
de Vereadores local. "Com a chegada das empresas, Austin passou
muito rápido de uma cidade média para uma metrópole.
A influência do dinheiro me inspirou a fazer esse protesto",
diz Red Wassenich a VEJA. Ele acabou comprando uma briga judicial
com uma empresa que registrou o slogan e começou a vender
camisetas, canecas e outros suvenires com a marca "Keep Austin weird".
A idéia de Wassenich, que se assume como "um velho e louco
hippie", era que a frase fosse de domínio público
e não pudesse ser registrada por ninguém, mas o bibliotecário
perdeu o processo. Hoje, até outras cidades americanas copiaram
o slogan e boa parte do comércio turístico de Austin
é sustentada pela venda de produtos com essa marca. Ou seja,
no melhor estilo austiniano, até o charme da pouca importância
ao dinheiro fez a cidade atrair mais dólares.
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O
que faz Austin diferente
Nos anos 90, teve uma taxa de crescimento populacional
de 54%, duas vezes maior do que a média das cidades
americanas.
Boa parte desse crescimento se deve à migração
de jovens, com especialização na área
tecnológica. É a cidade com a segunda
maior taxa de crescimento nessa faixa etária,
entre 300 cidades dos Estados Unidos.
Tornou-se um pólo de criatividade. Tem a quinta
maior concentração de trabalhadores em
áreas como computação, música
e cinema entre regiões metropolitanas com mais
de 1 milhão de habitantes.
Teve o maior crescimento de registro de patentes nos
Estados Unidos. Foram mais de 1 milhão, entre
1975 e 1999.
Fonte: Jornal Austin American-Statesman,
a partir de dados do sociólogo Robert Cushing
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