Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Cidades
Terra esquisita

Encravada no coração do capitalismo, Austin
repele a globalização e vira atração turística


Marcelo Carneiro, de Austin

Imagine uma cidade que, na última década, se tornou pólo de atração de empresas de primeira linha no mundo da informática, viu sua população crescer 54% e a média salarial de seus habitantes aumentar 65%. Em qualquer lugar do mundo, isso seria motivo de orgulho. Nos Estados Unidos, coração do capitalismo mundial, municípios que conquistam essa façanha viram símbolo da vitalidade e do dinamismo da economia de mercado. Com Austin, a capital do Estado do Texas, foi diferente. A cidade, além desses resultados, apresentou ao longo dos anos 90 taxas de crescimento superiores às do próprio país, que no mesmo período viveu uma de suas fases de maior exuberância econômica. Porém, em vez de se ufanarem do sucesso, os moradores de Austin vivem um paradoxo. Reconhecem que o dinheiro trouxe benefícios, mas enxergam no crescimento acelerado uma rendição exagerada ao que vem de fora e uma descaracterização da cultura local. É o capitalismo sob fogo cruzado, na pátria do capital.

Nos últimos anos, Austin tornou-se conhecida por demonstrações explícitas de resistência ao poder de sedução do mercado. A cidade é uma das cinqüenta maiores dos Estados Unidos e certamente a única desse grupo em que encontrar um McDonald's é uma tarefa razoavelmente difícil. A inauguração de uma filial da rede americana de cafés Starbucks, que hoje existe até na China, provocou protestos, como se representasse uma ameaça ao comércio local, formado por pequenos, empoeirados e charmosos bares de rua. O aeroporto, de porte internacional, foi construído com projeto arquitetônico, materiais e mão-de-obra locais e todas as lojas pertencem a comerciantes da região. Nos alto-falantes, nos setores de embarque e desembarque, só se ouve música texana. A cidade criou até um slogan, "Keep Austin weird" – em português, "Mantenha Austin Esquisita".

E o que torna Austin esquisita? Uma piada local diz que a cidade é a meca de hippies cinqüentões que se recusam a crescer e a se mudar para Dallas ou Houston, as duas grandes metrópoles texanas. A cidade também é uma das preferidas dos jovens americanos, por abrigar o maior campus universitário do país, o da Universidade do Texas, com 56 000 alunos. Conhecida por ser uma capital liberal em um Estado fortemente conservador – foi de uma bela mansão em estilo vitoriano, perto do centro da cidade, que o então governador do Texas, o linha-dura George W. Bush, partiu para tornar-se o 43º presidente dos Estados Unidos –, Austin sempre orgulhou-se de, até a década passada, manter-se praticamente impenetrável à opulência do capitalismo, sem arranha-céus, grandes lojas de departamento ou redes de fast food. Não por acaso, só mesmo em Austin uma drag queen poderia concorrer ao cargo de prefeito e conquistar 8% dos votos, como ocorreu em 2000. Esse jeitão descontraído e a beleza natural da cidade atraíram estrelas americanas do esporte e do cinema, como o ciclista Lance Armstrong, pentacampeão da Volta da França, e a atriz Sandra Bullock.

Uma mudança nessa história teve início a partir do final dos anos 80, quando um ex-aluno da Universidade do Texas começou a ficar rico e famoso vendendo computadores. Michael Dell deu à empresa o seu sobrenome, ganhou prestígio ao enfrentar de igual para igual a concorrência da então poderosa e quase monopolista IBM e colocou Austin no mapa das grandes corporações de informática. Em plena época de euforia financeira com o boom da internet, Austin viu sua população crescer, em menos de quinze anos, de 465 000 para 700 000 pessoas, a maioria jovens especializados na área tecnológica e empresários da indústria de informática, um dos maiores processos de migração na história recente dos Estados Unidos (veja quadro). A chegada desses barões da internet inflacionou o mercado de venda e aluguel de casas e apartamentos e injetou na economia da cidade, em um período de menos de uma década, algo em torno de 4,3 bilhões de dólares.

Em 2000, quando a bolha da internet já estava se esvaziando, mas seus efeitos em Austin ainda eram bastante visíveis, Red Wassenich, um bibliotecário de 53 anos, começou a fabricar adesivos com a frase "Keep Austin weird". O slogan tornou-se uma febre na cidade. Hoje, figura em documentos da Câmara de Vereadores local. "Com a chegada das empresas, Austin passou muito rápido de uma cidade média para uma metrópole. A influência do dinheiro me inspirou a fazer esse protesto", diz Red Wassenich a VEJA. Ele acabou comprando uma briga judicial com uma empresa que registrou o slogan e começou a vender camisetas, canecas e outros suvenires com a marca "Keep Austin weird". A idéia de Wassenich, que se assume como "um velho e louco hippie", era que a frase fosse de domínio público e não pudesse ser registrada por ninguém, mas o bibliotecário perdeu o processo. Hoje, até outras cidades americanas copiaram o slogan e boa parte do comércio turístico de Austin é sustentada pela venda de produtos com essa marca. Ou seja, no melhor estilo austiniano, até o charme da pouca importância ao dinheiro fez a cidade atrair mais dólares.

 

O que faz Austin diferente

• Nos anos 90, teve uma taxa de crescimento populacional de 54%, duas vezes maior do que a média das cidades americanas.

• Boa parte desse crescimento se deve à migração de jovens, com especialização na área tecnológica. É a cidade com a segunda maior taxa de crescimento nessa faixa etária, entre 300 cidades dos Estados Unidos.

• Tornou-se um pólo de criatividade. Tem a quinta maior concentração de trabalhadores em áreas como computação, música e cinema entre regiões metropolitanas com mais de 1 milhão de habitantes.

• Teve o maior crescimento de registro de patentes nos Estados Unidos. Foram mais de 1 milhão, entre 1975 e 1999.

Fonte: Jornal Austin American-Statesman,
a partir de dados do sociólogo Robert
Cushing

 
 
 
 
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