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Meio
ambiente
Bilhões
embaixo d'água
Como
mergulhadores cortam árvores
no fundo escuro e frio do lago de Tucuruí

Leonardo Coutinho
Ganhar
a vida cortando árvores submersas no lago da usina de Tucuruí,
no Pará, exige que um mergulhador desça a profundidades
de mais de 20 metros para, amarrado ao tronco da árvore,
manejar uma motosserra acionada por um sistema hidráulico.
O corte se faz com praticamente zero de visibilidade, a baixas temperaturas,
com o lenhador subaquático conectado a um barco na superfície
por dois tubos, um que leva ar comprimido para o equipamento que
lhe permite respirar e outro que transporta o óleo bombeado
para acionar a serra. Apesar dos riscos evidentes, os envolvidos
na extração das árvores garantem que não
houve acidentes desde o início da atividade, há cinco
anos.
"Depois
de se amarrar lá embaixo, é só dar um puxão
no cabo para ligarem a serra e a gente fazer o trabalho", descreve
o mergulhador Temistocles Cardoso, que fica até uma hora
no fundo do lago para cortar uma árvore. Seu colega Benedito
de Medeiros conta que chega a fazer até dez mergulhos por
dia. Num mês, isso pode render a retirada de 1.000
metros cúbicos ou mais de 100.000
reais, para o dono do barco, dos equipamentos e da serraria que
processa as árvores cortadas. Estima-se em mais de 2 bilhões
de reais o valor da madeira de lei ainda submersa em Tucuruí.
Como não tem contato com o ar, a parte submersa dessas árvores
não apodrece.
Construída
a toque de caixa pelo regime militar, Tucuruí inundou uma
área de 2.000 quilômetros
quadrados sem que dela se retirasse a floresta. A decomposição
orgânica elevou os níveis de emissão de gases
a ponto de fazer da represa, nos anos 90, a maior emissora de poluentes
do Brasil, segundo estudo do ecólogo americano Philip Fearnside.
Até janeiro passado, a exploração da riqueza
submersa era conduzida por madeireiras que tinham concessões
da Eletronorte, dona da usina. Os contratos foram suspensos porque
a atividade estaria prejudicando áreas de reprodução
de peixes. Mas os mergulhadores continuam na região.
Ex-concessionários,
como o empresário Rogério Corte Real, dizem que os
trabalhadores agora prestam serviços para madeireiras menores.
A Eletronorte afirma que não tem como saber para quem trabalham.
Os mergulhadores, por seu lado, nem têm idéia de que
estão envolvidos com uma atividade ilegal. Só querem
saber do salário: 500 reais por mês, quando conseguem
uma boa comissão.
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