Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Bilhões embaixo d'água

Como mergulhadores cortam árvores
no fundo escuro e frio do lago de Tucuruí


Leonardo Coutinho

Ganhar a vida cortando árvores submersas no lago da usina de Tucuruí, no Pará, exige que um mergulhador desça a profundidades de mais de 20 metros para, amarrado ao tronco da árvore, manejar uma motosserra acionada por um sistema hidráulico. O corte se faz com praticamente zero de visibilidade, a baixas temperaturas, com o lenhador subaquático conectado a um barco na superfície por dois tubos, um que leva ar comprimido para o equipamento que lhe permite respirar e outro que transporta o óleo bombeado para acionar a serra. Apesar dos riscos evidentes, os envolvidos na extração das árvores garantem que não houve acidentes desde o início da atividade, há cinco anos.

"Depois de se amarrar lá embaixo, é só dar um puxão no cabo para ligarem a serra e a gente fazer o trabalho", descreve o mergulhador Temistocles Cardoso, que fica até uma hora no fundo do lago para cortar uma árvore. Seu colega Benedito de Medeiros conta que chega a fazer até dez mergulhos por dia. Num mês, isso pode render a retirada de 1.000 metros cúbicos – ou mais de 100.000 reais, para o dono do barco, dos equipamentos e da serraria que processa as árvores cortadas. Estima-se em mais de 2 bilhões de reais o valor da madeira de lei ainda submersa em Tucuruí. Como não tem contato com o ar, a parte submersa dessas árvores não apodrece.

Construída a toque de caixa pelo regime militar, Tucuruí inundou uma área de 2.000 quilômetros quadrados sem que dela se retirasse a floresta. A decomposição orgânica elevou os níveis de emissão de gases a ponto de fazer da represa, nos anos 90, a maior emissora de poluentes do Brasil, segundo estudo do ecólogo americano Philip Fearnside. Até janeiro passado, a exploração da riqueza submersa era conduzida por madeireiras que tinham concessões da Eletronorte, dona da usina. Os contratos foram suspensos porque a atividade estaria prejudicando áreas de reprodução de peixes. Mas os mergulhadores continuam na região.

Ex-concessionários, como o empresário Rogério Corte Real, dizem que os trabalhadores agora prestam serviços para madeireiras menores. A Eletronorte afirma que não tem como saber para quem trabalham. Os mergulhadores, por seu lado, nem têm idéia de que estão envolvidos com uma atividade ilegal. Só querem saber do salário: 500 reais por mês, quando conseguem uma boa comissão.

 


 
 
 
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