Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Exportação
A muralha da soja

Produtores brasileiros aprendem que
fazer negócios com a China não é fácil


Chrystiane Silva

Como os exportadores de soja do Brasil estão sentindo na carne, fazer negócio com a China não é fácil, ao contrário da retórica de Lula e dos ministros que o acompanharam na viagem a Pequim. Os importadores chineses já recusaram 239.000 toneladas de grãos de quatro navios brasileiros desde o fim de abril. Eles alegam que os carregamentos de soja continham, além da conta, sementes com fungicidas misturadas aos grãos sadios. Pela legislação européia, que vinha sendo seguida pelos chineses, é admissível a presença de até três sementes de soja a cada quilo de grão. O controle sobre o número de sementes é necessário porque elas necessariamente têm de receber doses de fungicidas para evitar pragas e, por isso, são nocivas à saúde. O problema com os chineses é que eles resolveram ser mais exigentes do que qualquer importador e estabeleceram, de uma hora para outra, uma política de tolerância zero. O impasse tem potencial de se tornar uma tremenda encrenca para a balança comercial. A soja, é bom que se lembre, é o principal produto da pauta de exportações brasileiras. No ano passado, rendeu 4 bilhões de dólares ao país.

Analistas chamam a atenção para a conveniência do endurecimento chinês. Quando as cargas recusadas foram negociadas, a tonelada da soja valia cerca de 360 dólares. Depois de uma queda de quase 30%, hoje se encontra na faixa dos 260 dólares. Ou seja, os chineses possivelmente estão jogando para comprar a soja brasileira por um preço mais baixo -- ainda não foi definido qual será o valor da tonelada do produto que substituirá o que foi rejeitado. O temor é que eles levem a renegociação ao limite da ameaça de ruptura dos contratos. "A China está aproveitando a pendência com o Brasil para derrubar mais os preços da soja", diz o economista Marcos Sawaya Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais, de São Paulo.

Os exportadores criticam a atitude do governo Lula, que inicialmente concordou com a tolerância zero da China. O presidente só mudou de idéia quando já estava de volta a Brasília e, portanto, havia perdido a oportunidade de pressionar os chineses frente a frente. O imbróglio pelo menos serviu para que governo e produtores decidissem controlar com mais rigidez a soja vendida no mercado internacional. Exportadores admitem que, em algumas cargas que iam para a China, o número de sementes com fungicida pode ter ultrapassado um pouco os limites da legislação. Mas não em todas. Seja como for, de agora em diante, haverá uma vigilância estreita para impedir que alguns produtores "desovem" sementes em carregamentos do grão e, desse modo, comprometam as exportações de todo o setor.

O episódio ilustra, repita-se, como as relações comerciais com a China têm de ser encaradas como uma queda-de-braço permanente, e não como uma suave degustação de rolinhos primavera. Há dificuldades para quem exporta e também para quem se estabelece por lá. É difícil encontrar uma multinacional com sede na Europa ou nos Estados Unidos que queira ficar fora de um mercado que cresce a uma média anual de 9%. Uma das evidências desse poder de atração da China é a entrada de mais de 50 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros num único ano, como aconteceu em 2003. Mas o que as empresas de todo o mundo estão aprendendo é que, para progredir na China, é preciso muito mais do que dinheiro. O mercado chinês é fragmentado, há dificuldades na distribuição de produtos, os chineses têm hábitos de consumo específicos, linguagem muitas vezes imprecisa e costumes que ainda precisam ser desvendados. A maior parte das empresas que chegam à China responde a esses desafios com uma receita simples: investe mais e mais. Quanto mais despeja dinheiro, no entanto, mais tempo leva para sair do vermelho.

Um estudo da Câmara Americana de Comércio, feito em 2002 com 251 empresas dos Estados Unidos instaladas na China, mostrou que três quartos delas achavam que já deveriam estar lucrando mais. A Procter & Gamble é uma das que até agora não tiveram sucesso nessa empreitada. A empresa investiu no lançamento de xampus, mas sua participação no mercado despencou de 50% em 1998 para 30% em 2002. Fabricantes de cerveja investiram milhões de dólares na China em 1990 e ainda sofrem com taxas de retorno miseráveis. O lucro líquido das 400 maiores empresas de cerveja no país é de mísero 0,5%. As companhias que tiveram ganhos consistentes foram as que ignoraram o mercado doméstico e usaram a China como base de fabricação de manufaturados a ser exportados.

 
 
 
 
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