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Exportação
A muralha da soja
Produtores
brasileiros aprendem que
fazer negócios com a China não é fácil

Chrystiane Silva
Como
os exportadores de soja do Brasil estão sentindo na carne,
fazer negócio com a China não é fácil,
ao contrário da retórica de Lula e dos ministros que
o acompanharam na viagem a Pequim. Os importadores chineses já
recusaram 239.000 toneladas de grãos
de quatro navios brasileiros desde o fim de abril. Eles alegam que
os carregamentos de soja continham, além da conta, sementes
com fungicidas misturadas aos grãos sadios. Pela legislação
européia, que vinha sendo seguida pelos chineses, é
admissível a presença de até três sementes
de soja a cada quilo de grão. O controle sobre o número
de sementes é necessário porque elas necessariamente
têm de receber doses de fungicidas para evitar pragas e, por
isso, são nocivas à saúde. O problema com os
chineses é que eles resolveram ser mais exigentes do que
qualquer importador e estabeleceram, de uma hora para outra, uma
política de tolerância zero. O impasse tem potencial
de se tornar uma tremenda encrenca para a balança comercial.
A soja, é bom que se lembre, é o principal produto
da pauta de exportações brasileiras. No ano passado,
rendeu 4 bilhões de dólares ao país.
Analistas
chamam a atenção para a conveniência do endurecimento
chinês. Quando as cargas recusadas foram negociadas, a tonelada
da soja valia cerca de 360 dólares. Depois de uma queda de
quase 30%, hoje se encontra na faixa dos 260 dólares. Ou
seja, os chineses possivelmente estão jogando para comprar
a soja brasileira por um preço mais baixo -- ainda não
foi definido qual será o valor da tonelada do produto que
substituirá o que foi rejeitado. O temor é que eles
levem a renegociação ao limite da ameaça de
ruptura dos contratos. "A China está aproveitando a pendência
com o Brasil para derrubar mais os preços da soja", diz o
economista Marcos Sawaya Jank, presidente do Instituto de Estudos
do Comércio e Negociações Internacionais, de
São Paulo.
Os
exportadores criticam a atitude do governo Lula, que inicialmente
concordou com a tolerância zero da China. O presidente só
mudou de idéia quando já estava de volta a Brasília
e, portanto, havia perdido a oportunidade de pressionar os chineses
frente a frente. O imbróglio pelo menos serviu para que governo
e produtores decidissem controlar com mais rigidez a soja vendida
no mercado internacional. Exportadores admitem que, em algumas cargas
que iam para a China, o número de sementes com fungicida
pode ter ultrapassado um pouco os limites da legislação.
Mas não em todas. Seja como for, de agora em diante, haverá
uma vigilância estreita para impedir que alguns produtores
"desovem" sementes em carregamentos do grão e, desse modo,
comprometam as exportações de todo o setor.
O
episódio ilustra, repita-se, como as relações
comerciais com a China têm de ser encaradas como uma queda-de-braço
permanente, e não como uma suave degustação
de rolinhos primavera. Há dificuldades para quem exporta
e também para quem se estabelece por lá. É
difícil encontrar uma multinacional com sede na Europa ou
nos Estados Unidos que queira ficar fora de um mercado que cresce
a uma média anual de 9%. Uma das evidências desse poder
de atração da China é a entrada de mais de
50 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros
num único ano, como aconteceu em 2003. Mas o que as empresas
de todo o mundo estão aprendendo é que, para progredir
na China, é preciso muito mais do que dinheiro. O mercado
chinês é fragmentado, há dificuldades na distribuição
de produtos, os chineses têm hábitos de consumo específicos,
linguagem muitas vezes imprecisa e costumes que ainda precisam ser
desvendados. A maior parte das empresas que chegam à China
responde a esses desafios com uma receita simples: investe mais
e mais. Quanto mais despeja dinheiro, no entanto, mais tempo leva
para sair do vermelho.
Um
estudo da Câmara Americana de Comércio, feito em 2002
com 251 empresas dos Estados Unidos instaladas na China, mostrou
que três quartos delas achavam que já deveriam estar
lucrando mais. A Procter & Gamble é uma das que até
agora não tiveram sucesso nessa empreitada. A empresa investiu
no lançamento de xampus, mas sua participação
no mercado despencou de 50% em 1998 para 30% em 2002. Fabricantes
de cerveja investiram milhões de dólares na China
em 1990 e ainda sofrem com taxas de retorno miseráveis. O
lucro líquido das 400 maiores empresas de cerveja no país
é de mísero 0,5%. As companhias que tiveram ganhos
consistentes foram as que ignoraram o mercado doméstico e
usaram a China como base de fabricação de manufaturados
a ser exportados.
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