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Estados
Unidos
O
bode expiatório de Bush
O
diretor da CIA pede
demissão e leva
a culpa
pelas mancadas
da política externa
americana

Diogo
Schelp
A
Casa Branca encontrou alguém para expiar seus erros. Na semana
passada, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anunciou
que George Tenet, o diretor da CIA, o serviço secreto americano,
deixará o cargo em julho. Tenet disse que pediu demissão
por motivos pessoais quer dar mais atenção
à esposa e ao filho. Pouca gente em Washington acreditou
nessa versão. A cinco meses das eleições presidenciais,
os americanos começam a pesar as decisões do presidente
no que diz respeito ao terrorismo e à guerra no Iraque, e
a conclusão geral não é das mais favoráveis
a Bush. Alguém precisava pagar o pato. A imprensa americana
pediu a cabeça do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld,
depois de surgirem as suspeitas de que ele próprio havia
autorizado os interrogatórios violentos de prisioneiros iraquianos,
cujas imagens chocaram o mundo nas últimas semanas. Demitir
Rumsfeld seria uma perda política grande demais para Bush,
que tem no secretário de Defesa um dos pilares ideológicos
de seu governo. Tenet, indicado em 1997 para o cargo pelo presidente
Bill Clinton, presta-se melhor ao papel de bode expiatório.
Toda
vez que veio à tona algum erro de estratégia militar
ou escândalo de espionagem durante o governo Bush, uma grande
parcela da responsabilidade foi atribuída à CIA. O
governo não fez nada para evitar os ataques terroristas de
11 de setembro de 2001? A culpa é de Tenet, que não
soube dar a devida importância às informações,
colhidas por seus agentes, de que a Al Qaeda planejava um ataque
aos Estados Unidos. Saddam Hussein não tinha as armas químicas,
biológicas e nucleares que foram usadas como desculpa para
a invasão do Iraque? Perguntem a Tenet, que utilizou indícios
fracos para garantir a Bush que o ditador possuía armas de
destruição em massa. São dele, Tenet, as informações
sobre as fábricas de armas químicas e biológicas
no Iraque, usadas pelo secretário de Estado, Colin Powell,
para defender a guerra junto ao Conselho de Segurança da
ONU, e que depois se revelaram totalmente fantasiosas. O Exército
americano não esperava enfrentar a violência e os atentados
no Iraque depois da guerra? Falha dos agentes da CIA, que, com todo
o seu trabalho de espionagem, não foram capazes de prever
a disposição iraquiana para a resistência.
Na
verdade, o maior erro de Tenet não aconteceu no âmbito
do trabalho de inteligência, mas no campo político:
ele sempre procurou dizer apenas aquilo que os poderosos da Casa
Branca queriam escutar. Meses antes dos atentados de 11 de setembro,
Bush só tinha ouvidos para informações relacionadas
a Saddam Hussein, uma obsessão que vinha desde a Guerra do
Golfo, de 1991, quando os Estados Unidos deixaram escapar a oportunidade
de derrubar o ditador. Tenet chegou a alertar o Congresso americano
sobre a crescente ameaça representada pela Al Qaeda. Os parlamentares
não deram muita importância. Depois, Tenet desistiu
de insistir no assunto. Em 2002, Bush e seu gabinete procuravam
argumentos para convencer os americanos da necessidade da guerra
no Iraque. As provas, apresentadas por Tenet, da existência
de um arsenal perigoso na mão de Saddam vinham a calhar.
E os arquitetos da guerra, em especial Rumsfeld, não estavam
nada interessados em pensar no que ia acontecer no Iraque depois
de completada a ocupação. Prova disso é que
Rumsfeld ignorou um extenso plano para o pós-guerra elaborado
pela equipe de Powell.
AFP
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AP
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A
CIA NEM DESCONFIAVA
Os espiões não sabiam do teste atômico indiano e da venda de
tecnologia nuclear pelo Paquistão |
11
DE SETEMBRO
A CIA tinha informações sobre planos da Al Qaeda, mas ninguém
levou a sério |
Os
erros atribuídos a Tenet durante o governo Bush não
foram os primeiros desde que assumiu a direção da
CIA. Em 1998, a Índia fez testes com uma bomba atômica,
para surpresa do governo de Bill Clinton, que não recebeu
nenhuma informação da CIA a respeito. A agência
também foi incapaz de descobrir que o pai da bomba paquistanesa
estava vendendo tecnologia nuclear mundo afora. Nova-iorquino filho
de imigrantes gregos, ele é popular entre os funcionários
da CIA e foi responsável pelo papel de destaque da agência
na guerra ao terror. Foi graças ao trabalho de seus agentes
que dois terços da cúpula da Al Qaeda foram presos
ou mortos no Afeganistão. Faltou descobrir onde o terrorista-mor,
Osama bin Laden, se escondeu.
Tenet
deixa o cargo às vésperas de a CIA ser bombardeada
com os resultados das investigações sobre suas falhas.
Neste mês, sai um relatório do Senado americano sobre
os erros de informação usados para justificar a guerra
no Iraque. Em julho, termina a investigação sobre
as falhas que permitiram os atentados de 2001. Também falta
explicar como Ahmed Chalabi, o exilado iraquiano que já foi
o preferido do governo Bush para assumir a Presidência do
Iraque, teve acesso às informações secretas
da CIA que ele repassou ao governo do Irã. "Pegaram Tenet
para bode expiatório", disse o ex-diretor da CIA Stansfield
Turner ao canal de TV americano CNN. "O presidente percebeu que
precisava de alguém para culpar e, indiretamente, está
fazendo isso pedindo a Tenet que deixe o cargo." Uma coisa é
certa: os problemas de Bush não vão desaparecer com
a demissão de Tenet.
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