Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Estados Unidos
O bode expiatório de Bush

O diretor da CIA pede demissão e leva a culpa
pelas
mancadas da política externa americana


Diogo Schelp

A Casa Branca encontrou alguém para expiar seus erros. Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anunciou que George Tenet, o diretor da CIA, o serviço secreto americano, deixará o cargo em julho. Tenet disse que pediu demissão por motivos pessoais – quer dar mais atenção à esposa e ao filho. Pouca gente em Washington acreditou nessa versão. A cinco meses das eleições presidenciais, os americanos começam a pesar as decisões do presidente no que diz respeito ao terrorismo e à guerra no Iraque, e a conclusão geral não é das mais favoráveis a Bush. Alguém precisava pagar o pato. A imprensa americana pediu a cabeça do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, depois de surgirem as suspeitas de que ele próprio havia autorizado os interrogatórios violentos de prisioneiros iraquianos, cujas imagens chocaram o mundo nas últimas semanas. Demitir Rumsfeld seria uma perda política grande demais para Bush, que tem no secretário de Defesa um dos pilares ideológicos de seu governo. Tenet, indicado em 1997 para o cargo pelo presidente Bill Clinton, presta-se melhor ao papel de bode expiatório.

Toda vez que veio à tona algum erro de estratégia militar ou escândalo de espionagem durante o governo Bush, uma grande parcela da responsabilidade foi atribuída à CIA. O governo não fez nada para evitar os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001? A culpa é de Tenet, que não soube dar a devida importância às informações, colhidas por seus agentes, de que a Al Qaeda planejava um ataque aos Estados Unidos. Saddam Hussein não tinha as armas químicas, biológicas e nucleares que foram usadas como desculpa para a invasão do Iraque? Perguntem a Tenet, que utilizou indícios fracos para garantir a Bush que o ditador possuía armas de destruição em massa. São dele, Tenet, as informações sobre as fábricas de armas químicas e biológicas no Iraque, usadas pelo secretário de Estado, Colin Powell, para defender a guerra junto ao Conselho de Segurança da ONU, e que depois se revelaram totalmente fantasiosas. O Exército americano não esperava enfrentar a violência e os atentados no Iraque depois da guerra? Falha dos agentes da CIA, que, com todo o seu trabalho de espionagem, não foram capazes de prever a disposição iraquiana para a resistência.

Na verdade, o maior erro de Tenet não aconteceu no âmbito do trabalho de inteligência, mas no campo político: ele sempre procurou dizer apenas aquilo que os poderosos da Casa Branca queriam escutar. Meses antes dos atentados de 11 de setembro, Bush só tinha ouvidos para informações relacionadas a Saddam Hussein, uma obsessão que vinha desde a Guerra do Golfo, de 1991, quando os Estados Unidos deixaram escapar a oportunidade de derrubar o ditador. Tenet chegou a alertar o Congresso americano sobre a crescente ameaça representada pela Al Qaeda. Os parlamentares não deram muita importância. Depois, Tenet desistiu de insistir no assunto. Em 2002, Bush e seu gabinete procuravam argumentos para convencer os americanos da necessidade da guerra no Iraque. As provas, apresentadas por Tenet, da existência de um arsenal perigoso na mão de Saddam vinham a calhar. E os arquitetos da guerra, em especial Rumsfeld, não estavam nada interessados em pensar no que ia acontecer no Iraque depois de completada a ocupação. Prova disso é que Rumsfeld ignorou um extenso plano para o pós-guerra elaborado pela equipe de Powell.

 
AFP
AP
A CIA NEM DESCONFIAVA
Os espiões não sabiam do teste atômico indiano e da venda de tecnologia nuclear pelo Paquistão
11 DE SETEMBRO
A CIA tinha informações sobre planos da Al Qaeda, mas ninguém levou a sério

Os erros atribuídos a Tenet durante o governo Bush não foram os primeiros desde que assumiu a direção da CIA. Em 1998, a Índia fez testes com uma bomba atômica, para surpresa do governo de Bill Clinton, que não recebeu nenhuma informação da CIA a respeito. A agência também foi incapaz de descobrir que o pai da bomba paquistanesa estava vendendo tecnologia nuclear mundo afora. Nova-iorquino filho de imigrantes gregos, ele é popular entre os funcionários da CIA e foi responsável pelo papel de destaque da agência na guerra ao terror. Foi graças ao trabalho de seus agentes que dois terços da cúpula da Al Qaeda foram presos ou mortos no Afeganistão. Faltou descobrir onde o terrorista-mor, Osama bin Laden, se escondeu.

Tenet deixa o cargo às vésperas de a CIA ser bombardeada com os resultados das investigações sobre suas falhas. Neste mês, sai um relatório do Senado americano sobre os erros de informação usados para justificar a guerra no Iraque. Em julho, termina a investigação sobre as falhas que permitiram os atentados de 2001. Também falta explicar como Ahmed Chalabi, o exilado iraquiano que já foi o preferido do governo Bush para assumir a Presidência do Iraque, teve acesso às informações secretas da CIA que ele repassou ao governo do Irã. "Pegaram Tenet para bode expiatório", disse o ex-diretor da CIA Stansfield Turner ao canal de TV americano CNN. "O presidente percebeu que precisava de alguém para culpar e, indiretamente, está fazendo isso pedindo a Tenet que deixe o cargo." Uma coisa é certa: os problemas de Bush não vão desaparecer com a demissão de Tenet.

 
 
 
 
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