Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Petróleo
O fim do começo

Não é o petróleo que está acabando, mas a era
do petróleo como a conhecemos. As mudanças
têm mais a ver com tecnologia e instabilidade
política do que com o aumento da demanda


NESTA REPORTAGEM
Gráfico: Onde está o petróleo
Gráfico: O que há
no horizonte
NESTA EDIÇÃO
Eles são os donos do posto
O que fazer quando acabar

Como se sabe, a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. Portanto, esqueça as previsões de que logo o mundo estará sem petróleo. Elas não fazem muito sentido. Com o atual nível de consumo, as reservas conhecidas são suficientes para manter o abastecimento confortável por mais de meio século. É possível encontrar novas reservas. A tecnologia pode derrubar dramaticamente o consumo. Aí então as contas precisarão ser refeitas. Não se vislumbra o fim da era do petróleo. Não se está talvez nem mesmo no começo do fim – mas claramente se encerrou o fim do começo do domínio dos combustíveis fósseis como matriz energética primordial da civilização. O período marcado por oferta abundante, preços baixos e gastança abusiva de petróleo está claramente se encerrando, como mostra a recente pressão sobre os preços do barril, que vem batendo recorde atrás de recorde.

O mundo do petróleo vai ser virado de cabeça para baixo não pela falta de petróleo, mas pela falta de petróleo barato. E qual é o preço que o mundo aceita pagar para manter esse mineral como sua principal fonte de energia? Esse valor não se expressa apenas no preço final de um barril de petróleo e no seu efeito sobre a economia dos países, mas também em custo tecnológico, ambiental, político, militar e humano. No que diz respeito apenas a dinheiro, já se pagaram, em valores atualizados, mais de 80 dólares o barril, no fim dos anos 70, e 60 dólares, durante a primeira guerra do Golfo, em 1991. A ligação entre preço do petróleo e estabilidade econômica não é linear. A mudança de 20 para 40 dólares nos últimos três anos não sacudiu a economia global. Outra subida de 20 dólares pode complicar, sobretudo se for da noite para o dia. A atual elevação dos preços é explicada por vários fatores. O aumento da demanda além do previsto, puxado pelo crescimento econômico da China e pela paixão americana por veículos beberrões, é uma razão. Mas não a principal, pois ainda não falta petróleo. O balanço entre suprimento e demanda, incluindo os estoques, mostra um excesso de 1,6 milhão de barris diários.

Na quinta-feira passada, para esfriar o mercado e conter os preços, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) anunciou um aumento na produção. O objetivo de colocar mais óleo à venda é sobretudo exercer pressão psicológica sobre os especuladores. O anúncio fez o preço do barril cair alguns dólares. Mas só uns poucos. O aumento do preço desde 2001 reflete sobretudo a especulação em torno da instabilidade no Oriente Médio, onde se concentram 70% das reservas petrolíferas conhecidas. Pelo menos 8 dólares do preço de cada barril se devem ao risco de conflagração nas regiões produtoras. Se os terroristas atacarem a infra-estrutura petrolífera da Arábia Saudita, que é o maior produtor do mundo – ou, pior, se o regime saudita entrar em colapso (veja reportagem) –, o impacto nos preços, e dessa forma sobre a economia mundial, seria mais drástico do que a perda do petróleo iraniano em 1979. "Um evento como esse poderia elevar o preço do barril para 100 dólares", escreveu o analista Martin Wolf, no Financial Times.

Por um capricho da natureza, as maiores reservas estão concentradas em áreas politicamente complicadas. Devido à confusão política, a Venezuela, o principal exportador sul-americano, suspendeu temporariamente a produção no ano passado. O maior produtor africano é a Nigéria, país com sangrentas disputas tribais e corrupção avassaladora. A Agência Internacional de Energia calcula que dois terços do petróleo necessário para abastecer o mundo nos próximos trinta anos virão do Oriente Médio – ou seja, de países muçulmanos. "Cerca de 80% dos investimentos em prospecção são feitos em outras regiões, e ainda assim não há maneira de substituir o Oriente Médio como o principal fornecedor de petróleo", disse a VEJA o americano Joseph Stanislaw, da Cambridge Energy Research Associates (Cera), uma consultoria americana especializada em energia. O petróleo de outras áreas é de pior qualidade e de extração mais cara, pois costuma estar no fundo do mar ou misturado a areia.

Diante de situação tão imponderável, que coloca as principais economias à mercê de regimes feudais e do humor de fanáticos religiosos, é de perguntar em que momento o petróleo será substituído por outra fonte de energia (veja reportagem). Se analisarmos a história, veremos que isso não ocorre necessariamente quando já não há outra saída. "Mudamos a fonte de energia muito antes de os estoques acabarem e muito antes de ela se tornar cara demais para ser considerada inviável", disse a VEJA o checo Vaclav Smil, professor da Universidade de Manitoba, no Canadá, e autor do livro Energia na Encruzilhada: Perspectivas Globais e Incertezas. "A troca do carvão pelo petróleo como a principal fonte de energia, ocorrida na metade do século passado, é uma prova disso. Ainda existem imensas reservas de carvão no mundo." O petróleo não vai perder a importância que tem para o modo de vida da sociedade atual tão cedo. Dois terços do óleo produzido viram combustível para automóveis, caminhões, barcos e aviões. O restante é transformado numa quantidade gigantesca de produtos sintéticos, de pneus a capas de chuva, sem os quais nem sequer imaginamos viver. É bem possível que nenhum de nós viva o suficiente para ver outra fonte de energia ocupar o lugar do petróleo. Mas é uma transformação que já está em marcha. Cada vez mais se vislumbram fatores que empurram o mundo para procurar ser menos dependente dos combustíveis fósseis.

No mundo inteiro aumentam os esforços para reduzir a queima de todos os combustíveis fósseis – o petróleo, o carvão e o gás natural – devido às suas conseqüências ambientais: a neblina enfumaçada e a poluição do ar, a chuva ácida e a destruição da camada de ozônio e, finalmente, o espectro da mudança climática. O petróleo, um traço tão fundamental do mundo tal qual o conhecemos, agora é acusado de alimentar a deterioração do meio ambiente. E a indústria petrolífera, orgulhosa de seu avanço tecnológico e de ter contribuído para a formação do mundo moderno, encontra-se na defensiva, acusada de ser uma ameaça para a geração presente e a futura. Na verdade, o consumo per capita de petróleo nas economias industrializadas está em queda. Isso porque o setor produtivo se tornou mais eficiente do ponto de vista do consumo energético. Além da questão da maior eficiência está o fato de que, em países como os Estados Unidos, a economia está mais cada vez mais relacionada a serviços e menos à indústria. No passado, o crescimento econômico era diretamente proporcional ao consumo de petróleo. Hoje, pelo menos nos países ricos, isso começa a não ser mais verdade.

 
 
 
 
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