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Petróleo
O
fim do começo
Não
é o petróleo que está acabando, mas a era
do petróleo como a conhecemos. As mudanças
têm mais a ver com tecnologia e instabilidade
política do que com o aumento da demanda
Como
se sabe, a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra.
Portanto, esqueça as previsões de que logo o mundo
estará sem petróleo. Elas não fazem muito sentido.
Com o atual nível de consumo, as reservas conhecidas são
suficientes para manter o abastecimento confortável por mais
de meio século. É possível encontrar novas
reservas. A tecnologia pode derrubar dramaticamente o consumo. Aí
então as contas precisarão ser refeitas. Não
se vislumbra o fim da era do petróleo. Não se está
talvez nem mesmo no começo do fim mas claramente se
encerrou o fim do começo do domínio dos combustíveis
fósseis como matriz energética primordial da civilização.
O período marcado por oferta abundante, preços baixos
e gastança abusiva de petróleo está claramente
se encerrando, como mostra a recente pressão sobre os preços
do barril, que vem batendo recorde atrás de recorde.
O mundo
do petróleo vai ser virado de cabeça para baixo não
pela falta de petróleo, mas pela falta de petróleo
barato. E qual é o preço que o mundo aceita pagar
para manter esse mineral como sua principal fonte de energia? Esse
valor não se expressa apenas no preço final de um
barril de petróleo e no seu efeito sobre a economia dos países,
mas também em custo tecnológico, ambiental, político,
militar e humano. No que diz respeito apenas a dinheiro, já
se pagaram, em valores atualizados, mais de 80 dólares o
barril, no fim dos anos 70, e 60 dólares, durante a primeira
guerra do Golfo, em 1991. A ligação entre preço
do petróleo e estabilidade econômica não é
linear. A mudança de 20 para 40 dólares nos últimos
três anos não sacudiu a economia global. Outra subida
de 20 dólares pode complicar, sobretudo se for da noite para
o dia. A atual elevação dos preços é
explicada por vários fatores. O aumento da demanda além
do previsto, puxado pelo crescimento econômico da China e
pela paixão americana por veículos beberrões,
é uma razão. Mas não a principal, pois ainda
não falta petróleo. O balanço entre suprimento
e demanda, incluindo os estoques, mostra um excesso de 1,6 milhão
de barris diários.
Na
quinta-feira passada, para esfriar o mercado e conter os preços,
a Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(Opep) anunciou um aumento na produção. O objetivo
de colocar mais óleo à venda é sobretudo exercer
pressão psicológica sobre os especuladores. O anúncio
fez o preço do barril cair alguns dólares. Mas só
uns poucos. O aumento do preço desde 2001 reflete sobretudo
a especulação em torno da instabilidade no Oriente
Médio, onde se concentram 70% das reservas petrolíferas
conhecidas. Pelo menos 8 dólares do preço de cada
barril se devem ao risco de conflagração nas regiões
produtoras. Se os terroristas atacarem a infra-estrutura petrolífera
da Arábia Saudita, que é o maior produtor do mundo
ou, pior, se o regime saudita entrar em colapso (veja
reportagem) , o impacto nos preços,
e dessa forma sobre a economia mundial, seria mais drástico
do que a perda do petróleo iraniano em 1979. "Um evento como
esse poderia elevar o preço do barril para 100 dólares",
escreveu o analista Martin Wolf, no Financial Times.
Por
um capricho da natureza, as maiores reservas estão concentradas
em áreas politicamente complicadas. Devido à confusão
política, a Venezuela, o principal exportador sul-americano,
suspendeu temporariamente a produção no ano passado.
O maior produtor africano é a Nigéria, país
com sangrentas disputas tribais e corrupção avassaladora.
A Agência Internacional de Energia calcula que dois terços
do petróleo necessário para abastecer o mundo nos
próximos trinta anos virão do Oriente Médio
ou seja, de países muçulmanos. "Cerca de 80%
dos investimentos em prospecção são feitos
em outras regiões, e ainda assim não há maneira
de substituir o Oriente Médio como o principal fornecedor
de petróleo", disse a VEJA o americano Joseph Stanislaw,
da Cambridge Energy Research Associates (Cera), uma consultoria
americana especializada em energia. O petróleo de outras
áreas é de pior qualidade e de extração
mais cara, pois costuma estar no fundo do mar ou misturado a areia.
Diante
de situação tão imponderável, que coloca
as principais economias à mercê de regimes feudais
e do humor de fanáticos religiosos, é de perguntar
em que momento o petróleo será substituído
por outra fonte de energia (veja
reportagem). Se analisarmos a história, veremos
que isso não ocorre necessariamente quando já não
há outra saída. "Mudamos a fonte de energia muito
antes de os estoques acabarem e muito antes de ela se tornar cara
demais para ser considerada inviável", disse a VEJA o checo
Vaclav Smil, professor da Universidade de Manitoba, no Canadá,
e autor do livro Energia na Encruzilhada: Perspectivas Globais
e Incertezas. "A troca do carvão pelo petróleo
como a principal fonte de energia, ocorrida na metade do século
passado, é uma prova disso. Ainda existem imensas reservas
de carvão no mundo." O petróleo não vai perder
a importância que tem para o modo de vida da sociedade atual
tão cedo. Dois terços do óleo produzido viram
combustível para automóveis, caminhões, barcos
e aviões. O restante é transformado numa quantidade
gigantesca de produtos sintéticos, de pneus a capas de chuva,
sem os quais nem sequer imaginamos viver. É bem possível
que nenhum de nós viva o suficiente para ver outra fonte
de energia ocupar o lugar do petróleo. Mas é uma transformação
que já está em marcha. Cada vez mais se vislumbram
fatores que empurram o mundo para procurar ser menos dependente
dos combustíveis fósseis.
No
mundo inteiro aumentam os esforços para reduzir a queima
de todos os combustíveis fósseis o petróleo,
o carvão e o gás natural devido às suas
conseqüências ambientais: a neblina enfumaçada
e a poluição do ar, a chuva ácida e a destruição
da camada de ozônio e, finalmente, o espectro da mudança
climática. O petróleo, um traço tão
fundamental do mundo tal qual o conhecemos, agora é acusado
de alimentar a deterioração do meio ambiente. E a
indústria petrolífera, orgulhosa de seu avanço
tecnológico e de ter contribuído para a formação
do mundo moderno, encontra-se na defensiva, acusada de ser uma ameaça
para a geração presente e a futura. Na verdade, o
consumo per capita de petróleo nas economias industrializadas
está em queda. Isso porque o setor produtivo se tornou mais
eficiente do ponto de vista do consumo energético. Além
da questão da maior eficiência está o fato de
que, em países como os Estados Unidos, a economia está
mais cada vez mais relacionada a serviços e menos à
indústria. No passado, o crescimento econômico era
diretamente proporcional ao consumo de petróleo. Hoje, pelo
menos nos países ricos, isso começa a não ser
mais verdade.
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