Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Espaço
A ameaça que vem do céu

Quanto mais os astrônomos observam
o espaço, mais descobrem
cometas e
asteróides. Alguns deles pregam sustos


Thereza Venturoli


Fotos NASA/divulgação
O cometa Neat, que esteve visível do Brasil em maio: a população de corpos celestes "aumenta" graças à tecnologia


De tempos em tempos, a internet é varrida por uma onda de rumores – e desmentidos – sobre algum corpo celeste desgarrado que estaria em rota de colisão com a Terra. Quase sempre, o pivô da boataria é um objeto inócuo – como o asteróide Toutatis, que deve chegar às vizinhanças do planeta no fim de setembro e gerou alarde alguns meses atrás. Apesar de muito grande, com 4,5 quilômetros de comprimento e 2,5 de largura, o Toutatis passa inofensivamente pela órbita da Terra a cada quatro anos. Seu plano de vôo não inclui nenhum pouso sobre a superfície terrestre, nem agora nem para os próximos 600 anos, pelo menos. Assim como ele, não se conhece – ainda – nenhum outro corpo que possa se chocar com o planeta. O que não significa que não haja motivo para o nosso medo ancestral das tempestades celestiais de pedra e fogo. Não só o sistema solar está repleto de cometas e asteróides, como seu número parece aumentar a cada vez que se olha para o céu. Não é que eles estejam se multiplicando, claro: é que, quanto mais se refinam os instrumentos de observação, mais deles se vêem.

Cometas e asteróides são restos da formação dos planetas. Boa parte deles se mantém estável em algumas ilhas bem delimitadas, como o Cinturão Principal, entre Marte e Júpiter, o Cinturão de Kuiper, que fica além de Netuno, e a Nuvem de Oort, um aglomerado de lascas geladas que envolve todo o sistema solar, como a casca de um ovo. De vez em quando, atraídos pela gravidade dos grandes planetas, alguns desses corpos escapam, mergulham em direção ao Sol e passam muito perto da Terra. São os chamados NEOs (sigla para objetos próximos da Terra, em inglês). Os NEOs têm vocação para a destruição. Caso algum despenque por aqui, os estragos podem ser irremediáveis. Acredita-se que tenha sido um desses assassinos voadores que eliminou os dinossauros, há 65 milhões de anos. Em 1908, outro asteróide desgarrado irrompeu sobre a região de Tunguska, na Sibéria. Nem chegou a tocar o solo, mas sua explosão em pleno ar destroçou 2.000 quilômetros quadrados de bosques. Por fim, as crateras que marcam a superfície terrestre deixam claro que esses foram apenas dois dentre milhares de bombardeios sofridos pelo planeta.

Todos os dias, milhares de pedregulhos invadem a atmosfera terrestre. Calcula-se que o planeta receba, a cada dia, algo entre 1.000 e 10.000 toneladas de matéria vinda do espaço. A sorte é que a maioria desses invasores é muito pequena, e se desintegra ao cruzar o escudo de ar que nos protege. No máximo, proporcionam o poético espetáculo de uma estrela cadente. Mas, de tempos em tempos, algum corpo maior prega um susto. E não precisa nem mesmo entrar na atmosfera. Em março deste ano, um asteróide de 35 metros de diâmetro passou a meros 43.000 quilômetros de nós – um décimo da distância entre a Terra e a Lua. Em termos astronômicos, é uma fina, e o mais perto que um objeto alienígena chegou de nós sem nos atingir (veja ilustração).

E tem muito mais por aí. O Minor Planet Center – órgão da União Astronômica Internacional (IAU) que centraliza as informações sobre cada novo corpo suspeito – tem registrados algo em torno de 3.000 NEOs, 700 dos quais com mais de 1 quilômetro de diâmetro. Ainda assim, o sistema solar vive um período de extrema calmaria, se comparado ao campo de batalha no qual os planetas se formaram, há mais de 4 bilhões de anos. Àquela época, rochas e nuvens de poeira se chocavam no espaço e, atraídas pela força gravitacional, rodopiavam em torno do Sol, agregando-se no que hoje chamamos de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, e daí por diante. Se hoje o céu segue o compasso de uma marcha, o ritmo dominante naquele passado remoto era uma mistura de heavy metal com batuque do Olodum.

A responsável por esse surto de sobressaltos cósmicos é a tecnologia. Desde que se começou a caçar os NEOs, o método de identificação continua basicamente o mesmo: fazem-se várias imagens de uma região do céu, com intervalos de minutos, e comparam-se as fotos em busca de pontos que se movam contra o fundo de planetas e estrelas (que parecem estacionados). A diferença é que, até há alguns anos, essas imagens eram registradas em fotografia tradicional e analisadas sob um microscópio. Hoje, as fotos são digitais e estudadas por softwares que identificam variações de movimento, velocidade e brilho. Assim, a localização de asteróides deixou de ser uma brincadeira de esconde-esconde no escuro. E meia dúzia de programas oficiais de busca – como os americanos Neat e Linear – engorda o censo cósmico de NEOs muito velozmente. Apenas o Linear já identificou 1.508 objetos próximos da Terra. Foi graças aos avanços tecnológicos, também, que esses dois programas encontraram os mais recentes cometas. Batizadas de Neat e Linear, as duas bolas brilhantes foram vistas por poucos no Brasil, em maio, como dois frustrantes chumacinhos de algodão.

A internet também acelera a produtividade na caça por NEOs. Um pelotão de astrônomos – na maioria amadores – se incumbe de acompanhar cada suspeito, medindo seu avanço ao longo do tempo e ajudando a traçar o seu percurso e o eventual risco de um impacto com a Terra. As informações são trocadas on-line. No Hemisfério Sul, onde existem poucos observadores, o Brasil tem posição de destaque nessa tarefa. Os programas de patrulhamento desenvolvidos pelos astrônomos amadores Paulo Holvorcem, de Campinas, e Cristóvão Jacques, de Belo Horizonte, por exemplo, já receberam dois prêmios em dinheiro para continuar seu bem-sucedido trabalho. O financiamento veio da Sociedade Planetária – uma associação fundada pelo astrônomo americano Carl Sagan para incentivar pesquisas sobre o sistema solar. Os cálculos demonstram que cataclismos como o que eliminou os dinossauros acontecem uma vez a cada 100 milhões de anos, mas ainda assim os brasileiros consideram o rastreamento uma questão de prudência. "Quanto antes descobrirmos um asteróide que esteja vindo para cá, mais tempo teremos para achar um meio de desviá-lo ou destruí-lo", diz Jacques.

A verdade é que as tecnologias de destruição de corpos invasores apresentadas em filmes como Impacto Profundo e Armageddon não passam, por ora, de ficção. E, por mais preocupante que seja a notícia, o pior pode mesmo acontecer. O americano Timothy Spahr, do Minor Planet Center, em Massachusetts, já sentiu esse pavor. Em 1996, quando ainda era estudante, Spahr e um colega notaram pelo telescópio uma mancha que dobrava de tamanho a cada 48 horas – ou seja, parecia avançar em direção à Terra numa velocidade estonteante. Quatro dias depois, um asteróide com diâmetro equivalente à altura de um prédio de 180 andares passou a apenas 450.000 quilômetros – pouco mais que a distância até a Lua. "Se o objeto estivesse vindo contra nós, não teríamos tempo de fazer absolutamente nada", disse ele a VEJA. O tempo, aliás, é o pior inimigo dos programas de busca. "Estamos ainda longe de cumprir a meta de mapear, até 2008, 90% dos NEOs com diâmetro maior de 1 quilômetro", afirma Spahr.

Observar e calcular é tudo o que se pode fazer por ora, na esperança de prevenir uma hecatombe. E, ainda assim, as certezas são relativas. "O cosmo não é uma mesa de bilhar em que os asteróides e os planetas se chocam como bolas, num percurso direto e bem definido", diz o astrônomo Enos Picazzio, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. "O sistema solar é parecido com um móbile, em que a atração gravitacional entre o Sol e os planetas mexe com todo o conjunto e, a qualquer momento, pode lançar um objeto aparentemente estável em direção à Terra."

 

Fotos NASA/divulgação

 
 
 
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