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Espaço
A
ameaça que vem do céu
Quanto
mais os
astrônomos observam
o espaço, mais descobrem cometas
e
asteróides.
Alguns deles pregam sustos

Thereza Venturoli
Fotos NASA/divulgação
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| O
cometa Neat, que esteve visível do Brasil em maio: a
população de corpos celestes "aumenta"
graças à tecnologia |
De tempos em tempos, a internet é varrida por uma onda de
rumores e desmentidos sobre algum corpo celeste desgarrado
que estaria em rota de colisão com a Terra. Quase sempre,
o pivô da boataria é um objeto inócuo
como o asteróide Toutatis, que deve chegar às vizinhanças
do planeta no fim de setembro e gerou alarde alguns meses atrás.
Apesar de muito grande, com 4,5 quilômetros de comprimento
e 2,5 de largura, o Toutatis passa inofensivamente pela órbita
da Terra a cada quatro anos. Seu plano de vôo não inclui
nenhum pouso sobre a superfície terrestre, nem agora nem
para os próximos 600 anos, pelo menos. Assim como ele, não
se conhece ainda nenhum outro corpo que possa se chocar
com o planeta. O que não significa que não haja motivo
para o nosso medo ancestral das tempestades celestiais de pedra
e fogo. Não só o sistema solar está repleto
de cometas e asteróides, como seu número parece aumentar
a cada vez que se olha para o céu. Não é que
eles estejam se multiplicando, claro: é que, quanto mais
se refinam os instrumentos de observação, mais deles
se vêem.
Cometas
e asteróides são restos da formação
dos planetas. Boa parte deles se mantém estável em
algumas ilhas bem delimitadas, como o Cinturão Principal,
entre Marte e Júpiter, o Cinturão de Kuiper, que fica
além de Netuno, e a Nuvem de Oort, um aglomerado de lascas
geladas que envolve todo o sistema solar, como a casca de um ovo.
De vez em quando, atraídos pela gravidade dos grandes planetas,
alguns desses corpos escapam, mergulham em direção
ao Sol e passam muito perto da Terra. São os chamados NEOs
(sigla para objetos próximos da Terra, em inglês).
Os NEOs têm vocação para a destruição.
Caso algum despenque por aqui, os estragos podem ser irremediáveis.
Acredita-se que tenha sido um desses assassinos voadores que eliminou
os dinossauros, há 65 milhões de anos. Em 1908, outro
asteróide desgarrado irrompeu sobre a região de Tunguska,
na Sibéria. Nem chegou a tocar o solo, mas sua explosão
em pleno ar destroçou 2.000 quilômetros
quadrados de bosques. Por fim, as crateras que marcam a superfície
terrestre deixam claro que esses foram apenas dois dentre milhares
de bombardeios sofridos pelo planeta.
Todos
os dias, milhares de pedregulhos invadem a atmosfera terrestre.
Calcula-se que o planeta receba, a cada dia, algo entre 1.000
e 10.000 toneladas de matéria
vinda do espaço. A sorte é que a maioria desses invasores
é muito pequena, e se desintegra ao cruzar o escudo de ar
que nos protege. No máximo, proporcionam o poético
espetáculo de uma estrela cadente. Mas, de tempos em tempos,
algum corpo maior prega um susto. E não precisa nem mesmo
entrar na atmosfera. Em março deste ano, um asteróide
de 35 metros de diâmetro passou a meros 43.000
quilômetros de nós um décimo da distância
entre a Terra e a Lua. Em termos astronômicos, é uma
fina, e o mais perto que um objeto alienígena chegou de nós
sem nos atingir (veja
ilustração).
E
tem muito mais por aí. O Minor Planet Center órgão
da União Astronômica Internacional (IAU) que centraliza
as informações sobre cada novo corpo suspeito
tem registrados algo em torno de 3.000
NEOs, 700 dos quais com mais de 1 quilômetro de diâmetro.
Ainda assim, o sistema solar vive um período de extrema calmaria,
se comparado ao campo de batalha no qual os planetas se formaram,
há mais de 4 bilhões de anos. Àquela época,
rochas e nuvens de poeira se chocavam no espaço e, atraídas
pela força gravitacional, rodopiavam em torno do Sol, agregando-se
no que hoje chamamos de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte,
e daí por diante. Se hoje o céu segue o compasso de
uma marcha, o ritmo dominante naquele passado remoto era uma mistura
de heavy metal com batuque do Olodum.
A
responsável por esse surto de sobressaltos cósmicos
é a tecnologia. Desde que se começou a caçar
os NEOs, o método de identificação continua
basicamente o mesmo: fazem-se várias imagens de uma região
do céu, com intervalos de minutos, e comparam-se as fotos
em busca de pontos que se movam contra o fundo de planetas e estrelas
(que parecem estacionados). A diferença é que, até
há alguns anos, essas imagens eram registradas em fotografia
tradicional e analisadas sob um microscópio. Hoje, as fotos
são digitais e estudadas por softwares que identificam variações
de movimento, velocidade e brilho. Assim, a localização
de asteróides deixou de ser uma brincadeira de esconde-esconde
no escuro. E meia dúzia de programas oficiais de busca
como os americanos Neat e Linear engorda o censo cósmico
de NEOs muito velozmente. Apenas o Linear já identificou
1.508 objetos próximos da Terra.
Foi graças aos avanços tecnológicos, também,
que esses dois programas encontraram os mais recentes cometas. Batizadas
de Neat e Linear, as duas bolas brilhantes foram vistas por poucos
no Brasil, em maio, como dois frustrantes chumacinhos de algodão.
A
internet também acelera a produtividade na caça por
NEOs. Um pelotão de astrônomos na maioria amadores
se incumbe de acompanhar cada suspeito, medindo seu avanço
ao longo do tempo e ajudando a traçar o seu percurso e o
eventual risco de um impacto com a Terra. As informações
são trocadas on-line. No Hemisfério Sul, onde existem
poucos observadores, o Brasil tem posição de destaque
nessa tarefa. Os programas de patrulhamento desenvolvidos pelos
astrônomos amadores Paulo Holvorcem, de Campinas, e Cristóvão
Jacques, de Belo Horizonte, por exemplo, já receberam dois
prêmios em dinheiro para continuar seu bem-sucedido trabalho.
O financiamento veio da Sociedade Planetária uma associação
fundada pelo astrônomo americano Carl Sagan para incentivar
pesquisas sobre o sistema solar. Os cálculos demonstram que
cataclismos como o que eliminou os dinossauros acontecem uma vez
a cada 100 milhões de anos, mas ainda assim os brasileiros
consideram o rastreamento uma questão de prudência.
"Quanto antes descobrirmos um asteróide que esteja vindo
para cá, mais tempo teremos para achar um meio de desviá-lo
ou destruí-lo", diz Jacques.
A
verdade é que as tecnologias de destruição
de corpos invasores apresentadas em filmes como Impacto Profundo
e Armageddon não passam, por ora, de ficção.
E, por mais preocupante que seja a notícia, o pior pode mesmo
acontecer. O americano Timothy Spahr, do Minor Planet Center, em
Massachusetts, já sentiu esse pavor. Em 1996, quando ainda
era estudante, Spahr e um colega notaram pelo telescópio
uma mancha que dobrava de tamanho a cada 48 horas ou seja,
parecia avançar em direção à Terra numa
velocidade estonteante. Quatro dias depois, um asteróide
com diâmetro equivalente à altura de um prédio
de 180 andares passou a apenas 450.000
quilômetros pouco mais que a distância até
a Lua. "Se o objeto estivesse vindo contra nós, não
teríamos tempo de fazer absolutamente nada", disse ele a
VEJA. O tempo, aliás, é o pior inimigo dos programas
de busca. "Estamos ainda longe de cumprir a meta de mapear, até
2008, 90% dos NEOs com diâmetro maior de 1 quilômetro",
afirma Spahr.
Observar
e calcular é tudo o que se pode fazer por ora, na esperança
de prevenir uma hecatombe. E, ainda assim, as certezas são
relativas. "O cosmo não é uma mesa de bilhar em que
os asteróides e os planetas se chocam como bolas, num percurso
direto e bem definido", diz o astrônomo Enos Picazzio, do
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
da Universidade de São Paulo. "O sistema solar é parecido
com um móbile, em que a atração gravitacional
entre o Sol e os planetas mexe com todo o conjunto e, a qualquer
momento, pode lançar um objeto aparentemente estável
em direção à Terra."
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