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Gastronomia
A
língua eletrônica
Aparelho
consegue identificar sabores
com precisão 1 000 vezes maior que
a do órgão humano

José
Edward
Identificar
se um vinho é de boa safra e tem características de
excelência é um prazer que para ser usufruído
em sua plenitude exige dons naturais, aprendizado e até alguma
bagagem cultural. Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) desenvolveram um aparelho que consegue
medir alguns dos aspectos puramente sensoriais dos líquidos,
inclusive do vinho. A novidade, batizada provisoriamente de "língua
eletrônica", tem sensores que, imitando as papilas gustativas
humanas, identificam os padrões básicos do paladar
doce, salgado, azedo e amargo com alto nível
de precisão. "O equipamento distingue o sabor e também
pode medir a quantidade de cada componente em um líquido",
explica o coordenador do projeto, Luiz Henrique Mattoso. "É
o mais sensível já feito em laboratório."
O
paladar é o sentido humano menos conhecido. Até recentemente,
pensava-se que cada sabor básico era detectado por uma região
da língua. Em novas pesquisas, descobriu-se que o sistema
gustativo humano não distingue separadamente os componentes
do sabor, mas identifica padrões que são reconhecidos
pelo cérebro. "Uma pessoa reconhece o gosto de café
sem precisar saber que essa bebida é um sistema líquido
complexo, composto de mais de 1.000 moléculas distintas",
exemplifica o pesquisador Antonio Riul Júnior, professor
da Universidade Estadual Paulista.
A
percepção do paladar começa no momento em que
determinado alimento é ingerido pela primeira vez. Quando
o alimento entra em contato com as células gustativas localizadas
nas papilas, ocorrem reações físico-químicas.
Delas resulta uma espécie de impressão digital do
conjunto de sabores presentes na substância experimentada.
Essa síntese é enviada ao cérebro na forma
de sinais elétricos. Nesse processo, atuam também
o olfato, a visão e, eventualmente, o tato. "Uma prova disso
é que, ao tomar café com o nariz tampado e os olhos
vendados, a pessoa consegue perceber uma substância quente,
meio amarga e meio doce, mas não necessariamente que é
café", diz Eliton Medeiros, engenheiro de materiais e pesquisador
da Embrapa Instrumentação Agropecuária. Guardada
na memória, a experiência de uma degustação
servirá de comparação nas vezes seguintes em
que a mesma substância for provada.
Kiko Ferrite
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Herszkowicz:
auxílio
para os degustadores de café
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O degustador eletrônico, que cabe dentro de uma taça
de vinho ou de uma xícara de café, funciona com a
mesma lógica de percepção e comparação
com experiências passadas que faz a maravilha do paladar humano.
O aparelho é dotado de dezenas de sensores combináveis
de acordo com a especificidade de cada bebida. Eles são constituídos
de microeletrodos de ouro cobertos por plásticos que chegam
a ter uma espessura 8.000 vezes menor que a de um fio de cabelo
e registram a alteração da condutividade elétrica
nessa película. As mudanças passam por um medidor
eletrônico, que envia as informações para um
computador. A memória desse computador contém um banco
de dados com diversas características da bebida e, por comparação,
a amostra é identificada. Essa varredura do banco de dados
é feita por redes neurais artificiais, sistemas sofisticados
de computação que imitam o aprendizado humano. "Quanto
mais informações vão sendo armazenadas, mais
acuradas vão se tornando as respostas", explica Osvaldo Novais
de Oliveira Junior, professor do Instituto de Física de São
Carlos, uma das instituições parceiras da Embrapa
nesse projeto.
O
cérebro faz a detecção de sabores em milésimos
de segundo. O degustador eletrônico, na maior parte dos casos,
precisa de um tempo infinitamente maior. A máquina necessita
de um minuto para fazer seu diagnóstico. Comparado à
língua, o sistema artificial leva vantagem no grau de sensibilidade,
que é 1.000 vezes maior. Um único grama de sal diluído
em 20.000 litros de água torna-se imperceptível para
a língua humana. Já sua versão eletrônica
é capaz de detectar o sal, mesmo diluído nessa mínima
proporção. "A título de comparação,
se a língua humana fosse um órgão tão
sensível quanto o sensor eletrônico, as bebidas e os
alimentos seriam para as pessoas insuportavelmente salgados ou doces,
amargos ou azedos", explica Osvaldo Novais. A alta sensibilidade
do degustador permitirá programá-lo também
para análises clínicas ou testes de medicamentos e
de combustíveis.
Em
um teste recente, o aparelho eletrônico analisou seis amostras
de vinho e identificou com exatidão cada variedade. A máquina
degustadora já mereceu destaque em revistas científicas,
como a Nature e a Sensors and Actuators. Em três
anos ela estará no mercado e poderá ser usada nas
pesquisas com novos adoçantes, na identificação
de compostos que neutralizem o sabor amargo de medicamentos e na
padronização do paladar nas linhas de produção
de bebidas. A Associação Brasileira da Indústria
de Café firmou uma parceria para utilizar a máquina.
"Vamos tornar ainda mais preciso o trabalho dos degustadores", diz
o diretor executivo da associação, Nathan Herszkowicz.
Não há risco de a engenhoca tirar o emprego de ninguém.
Entre outras razões, porque o aparelho não simula
o sentido do olfato. Segundo os especialistas, muito do que se chama
de sabor é, na verdade, aroma. Os alimentos, ao penetrar
na boca, liberam odores que são percebidos pelo sistema olfativo.
Diz o diretor de degustação da Associação
Brasileira de Enologia, Mauro Zanus: "O degustador eletrônico
pode distinguir um vinho de outro, mas é incapaz de afirmar
se ele terá ou não um sabor agradável quando
for bebido por uma pessoa".
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