Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Educação
Existe outra diferença

As meninas dão um banho nos meninos
no
desempenho escolar e em número
de
matrículas nos colégios


Rosana Zakabi

 
Gilvan Barreto/Ag. Lumiar

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Os defensores renitentes da superioridade masculina na espécie humana, aqueles que teimam em usar a expressão "sexo frágil", devem se preparar para mais uma surpresa. Já se sabe que as mulheres vivem mais e são menos sujeitas a males como infarto, câncer e diabetes. Agora, elas estão se tornando o sexo forte também na educação, tanto em termos de presença nas salas de aula como de rendimento escolar, em todas as etapas do aprendizado. Primeiro, os números: dez anos atrás, havia praticamente o mesmo número de meninos e meninas nas escolas brasileiras, entre públicas e particulares. Hoje, segundo dados do Ministério da Educação, há 100.000 garotas a mais do que garotos nas turmas da 5ª à 8ª série do ensino fundamental. No ensino médio, são 800.000 a mais. Na universidade, a diferença é de 400 000 matrículas a favor das mulheres.

Parte desse fenômeno pode ser atribuída ao fato de que mais meninos e rapazes desistem dos estudos no meio do caminho para trabalhar. Mas muitos educadores destacam outro fator: com a conquista pelas mulheres de cada vez mais espaço no mercado de trabalho, estudar, para elas, tornou-se mais importante do que nunca. Nessa corrida, de acordo com pesquisas da Unesco e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), e segundo testemunhos das próprias escolas, o desempenho das meninas tornou-se superior ao dos meninos na maioria das disciplinas. Elas tiram notas maiores que eles, passam de ano com menores períodos de recuperação e se adaptam melhor às exigências dos professores.

 
Gilvan Barreto/Ag. Lumiar

Historicamente, o comportamento das meninas na escola sempre foi melhor que o dos meninos. Elas são mais dedicadas e prestam mais atenção às aulas. Eles são mais agitados, desafiam os professores com maior freqüência e dão menos atenção às lições. Ainda assim, do ponto de vista do aproveitamento escolar, as diferenças entre os sexos eram insignificantes. Na última década, isso mudou. No fim do ano passado, a Rede Pitágoras de Ensino, uma das maiores do Brasil, fez uma pesquisa com 25.500 alunos de 241 escolas da rede em 22 Estados brasileiros para saber como andava o desempenho dos estudantes em português e matemática. O levantamento foi feito com alunos da 4ª e da 8ª série do ensino fundamental e da 3ª série do ensino médio. Em todas elas, as meninas foram melhores que os meninos em português. As alunas da 4ª série também superaram os meninos em matemática. Na 8ª e na 3ª série, elas ficaram praticamente empatadas com eles. "Esse é um fenômeno recente. Há dez anos, os meninos iam muito melhor que as meninas em matemática e, hoje, elas já estão superando os garotos nessa área", diz Regina Cançado, diretora de pesquisas educacionais da Rede Pitágoras.

No âmbito acadêmico, é de notar também o avanço das mulheres em direção a profissões nas quais a predominância masculina era avassaladora. Embora a maioria das candidatas ao vestibular ainda opte por cursos de freqüência predominantemente feminina, como psicologia, nutrição e letras, sua participação nas faculdades de engenharia aumentou 68% entre 1991 e 2002. No curso de direito, no mesmo período, a porcentagem de alunas aumentou 223% e elas hoje ocupam 49% das vagas. Nos Estados Unidos, ocorre fenômeno semelhante. Na última seleção para vagas na Universidade Harvard, a mais antiga e prestigiada daquele país, anunciada há poucas semanas, pela primeira vez na história da instituição as mulheres superaram os homens na quantidade de vagas conquistadas – nos anos 60, seus bancos abrigavam quatro homens para cada mulher. "A presença das mulheres em posições que antigamente eram só dos homens tem aumentado cada vez mais e isso também se reflete na educação", diz Celio da Cunha, assessor da Unesco e professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.

 
Nélio Rodrigues/1º Plano
Alunas no laboratório de ciências do colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte: uma teoria diz que elas têm melhor conexão entre os lados do cérebro

Como as meninas conseguiram passar a perna nos meninos no desempenho escolar? Há duas explicações para isso, e ambas remetem às diferenças fisiológicas e psicológicas entre os sexos, principalmente na infância e na adolescência. A primeira delas diz respeito ao ritmo de amadurecimento de meninos e meninas. "Os garotos demoram dois anos, em média, para alcançar o desenvolvimento das meninas da mesma idade", explica o psiquiatra paulista Içami Tiba, especializado em jovens. "Eles também amadurecem mais tarde que elas." Um levantamento de Tiba mostra que as diferenças entre meninos e meninas se tornam mais claras na 5ª e na 7ª séries. Na 5ª série, enquanto as meninas já estão se transformando em moças, os meninos ainda agem como crianças. É nessa fase que os garotos mais repetem de ano. "A situação entre os sexos começa a se equiparar apenas no 2º ano da faculdade", diz Tiba. Estimativas mundiais mostram que os meninos da 8ª série repetem o ano 50% mais que as meninas e, para cada quatro rapazes que repetem no ensino médio, há apenas uma garota. "Os meninos deveriam aguardar um ano a mais que as meninas para entrar na 1ª série do ensino fundamental", defende o psicólogo inglês Steve Biddulph, um dos mais requisitados especialistas em educação infantil de hoje.

A segunda explicação mais freqüente sobre o rendimento escolar superior das meninas baseia-se na diferença entre o cérebro deles e o delas. O cérebro de todos os animais tem dois hemisférios. Em espécimes simples, como um lagarto ou um pássaro, as características são duplicadas e os dois lados exercem a mesma função. Nos seres humanos é diferente – cada metade tem sua especialização. O direito responde pelas habilidades espaciais. O esquerdo está ligado à linguagem. As duas metades conversam entre si por meio de um feixe central de fibras, chamado corpo caloso, que nos meninos é menor. Por isso, as meninas fazem a conexão entre os dois lados com mais facilidade. "O grande problema é que a maioria dos educadores não leva isso em conta", diz o terapeuta americano Michael Gurian, autor do livro Boys and Girls Learn Differently (Garotos e Garotas Aprendem de Forma Diferente). "Eles aprenderam há décadas que a diferença entre os sexos é apenas uma questão social."

 
Nélio Rodrigues/1º Plano
Meninos da 5ª série do Santo Antônio: eles amadurecem mais tarde do que as coleguinhas da mesma idade

Nada disso significa que as meninas sejam de alguma forma superiores aos meninos. Os dois grupos apenas possuem características diferentes entre si. Mas os especialistas estão cada vez mais convencidos de que essas diferenças acabam beneficiando as meninas na escola. Como possuem maior sensibilidade para entender o comportamento das pessoas, elas têm maior facilidade para descobrir exatamente o que o professor espera de um aluno. Nos primeiros anos escolares, em que aprendem a ler e a escrever, elas se saem melhor que os garotos, pois seu desempenho em linguagem e vocabulário é superior ao deles. Outros estudos realizados na última década mostram que as garotas são sempre mais tolerantes e mais atentas que os rapazes. Os garotos, segundo os médicos, sofrem até quatro vezes mais que elas de déficit de atenção. Essas vantagens das meninas acabam se refletindo no desempenho escolar. Segundo os professores, os meninos já repararam que ficaram para trás nos boletins de notas. A solução é encorajá-los a desenvolver o que eles têm de melhor.

 

 

 
 
 
 
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