|
|
Educação
Existe
outra diferença
As
meninas dão
um banho nos
meninos
no desempenho
escolar
e em número
de matrículas
nos
colégios

Rosana
Zakabi
Gilvan Barreto/Ag. Lumiar
 |
 |
Os
defensores renitentes da superioridade masculina na espécie
humana, aqueles que teimam em usar a expressão "sexo frágil",
devem se preparar para mais uma surpresa. Já se sabe que
as mulheres vivem mais e são menos sujeitas a males como
infarto, câncer e diabetes. Agora, elas estão se tornando
o sexo forte também na educação, tanto em termos
de presença nas salas de aula como de rendimento escolar,
em todas as etapas do aprendizado. Primeiro, os números:
dez anos atrás, havia praticamente o mesmo número
de meninos e meninas nas escolas brasileiras, entre públicas
e particulares. Hoje, segundo dados do Ministério da Educação,
há 100.000 garotas a mais do que garotos nas turmas da 5ª
à 8ª série do ensino fundamental. No ensino médio,
são 800.000 a mais. Na universidade, a diferença é
de 400 000 matrículas a favor das mulheres.
Parte
desse fenômeno pode ser atribuída ao fato de que mais
meninos e rapazes desistem dos estudos no meio do caminho para trabalhar.
Mas muitos educadores destacam outro fator: com a conquista pelas
mulheres de cada vez mais espaço no mercado de trabalho,
estudar, para elas, tornou-se mais importante do que nunca. Nessa
corrida, de acordo com pesquisas da Unesco e do Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), e segundo testemunhos
das próprias escolas, o desempenho das meninas tornou-se
superior ao dos meninos na maioria das disciplinas. Elas tiram notas
maiores que eles, passam de ano com menores períodos de recuperação
e se adaptam melhor às exigências dos professores.
Gilvan Barreto/Ag. Lumiar
 |
 |
Historicamente,
o comportamento das meninas na escola sempre foi melhor que o dos
meninos. Elas são mais dedicadas e prestam mais atenção
às aulas. Eles são mais agitados, desafiam os professores
com maior freqüência e dão menos atenção
às lições. Ainda assim, do ponto de vista do
aproveitamento escolar, as diferenças entre os sexos eram
insignificantes. Na última década, isso mudou. No
fim do ano passado, a Rede Pitágoras de Ensino, uma das maiores
do Brasil, fez uma pesquisa com 25.500 alunos de 241 escolas da
rede em 22 Estados brasileiros para saber como andava o desempenho
dos estudantes em português e matemática. O levantamento
foi feito com alunos da 4ª e da 8ª série do ensino
fundamental e da 3ª série do ensino médio. Em
todas elas, as meninas foram melhores que os meninos em português.
As alunas da 4ª série também superaram os meninos
em matemática. Na 8ª e na 3ª série, elas
ficaram praticamente empatadas com eles. "Esse é um fenômeno
recente. Há dez anos, os meninos iam muito melhor que as
meninas em matemática e, hoje, elas já estão
superando os garotos nessa área", diz Regina Cançado,
diretora de pesquisas educacionais da Rede Pitágoras.
No
âmbito acadêmico, é de notar também o
avanço das mulheres em direção a profissões
nas quais a predominância masculina era avassaladora. Embora
a maioria das candidatas ao vestibular ainda opte por cursos de
freqüência predominantemente feminina, como psicologia,
nutrição e letras, sua participação
nas faculdades de engenharia aumentou 68% entre 1991 e 2002. No
curso de direito, no mesmo período, a porcentagem de alunas
aumentou 223% e elas hoje ocupam 49% das vagas. Nos Estados Unidos,
ocorre fenômeno semelhante. Na última seleção
para vagas na Universidade Harvard, a mais antiga e prestigiada
daquele país, anunciada há poucas semanas, pela primeira
vez na história da instituição as mulheres
superaram os homens na quantidade de vagas conquistadas nos
anos 60, seus bancos abrigavam quatro homens para cada mulher. "A
presença das mulheres em posições que antigamente
eram só dos homens tem aumentado cada vez mais e isso também
se reflete na educação", diz Celio da Cunha, assessor
da Unesco e professor da Faculdade de Educação da
Universidade de Brasília.
Nélio Rodrigues/1º Plano
 |
| Alunas
no laboratório de ciências do colégio Santo Antônio, em Belo
Horizonte: uma teoria diz que elas têm melhor conexão entre
os lados do cérebro |
Como
as meninas conseguiram passar a perna nos meninos no desempenho
escolar? Há duas explicações para isso, e ambas
remetem às diferenças fisiológicas e psicológicas
entre os sexos, principalmente na infância e na adolescência.
A primeira delas diz respeito ao ritmo de amadurecimento de meninos
e meninas. "Os garotos demoram dois anos, em média, para
alcançar o desenvolvimento das meninas da mesma idade", explica
o psiquiatra paulista Içami Tiba, especializado em jovens.
"Eles também amadurecem mais tarde que elas." Um levantamento
de Tiba mostra que as diferenças entre meninos e meninas
se tornam mais claras na 5ª e na 7ª séries. Na
5ª série, enquanto as meninas já estão
se transformando em moças, os meninos ainda agem como crianças.
É nessa fase que os garotos mais repetem de ano. "A situação
entre os sexos começa a se equiparar apenas no 2º ano
da faculdade", diz Tiba. Estimativas mundiais mostram que os meninos
da 8ª série repetem o ano 50% mais que as meninas e,
para cada quatro rapazes que repetem no ensino médio, há
apenas uma garota. "Os meninos deveriam aguardar um ano a mais que
as meninas para entrar na 1ª série do ensino fundamental",
defende o psicólogo inglês Steve Biddulph, um dos mais
requisitados especialistas em educação infantil de
hoje.
A
segunda explicação mais freqüente sobre o rendimento
escolar superior das meninas baseia-se na diferença entre
o cérebro deles e o delas. O cérebro de todos os animais
tem dois hemisférios. Em espécimes simples, como um
lagarto ou um pássaro, as características são
duplicadas e os dois lados exercem a mesma função.
Nos seres humanos é diferente cada metade tem sua
especialização. O direito responde pelas habilidades
espaciais. O esquerdo está ligado à linguagem. As
duas metades conversam entre si por meio de um feixe central de
fibras, chamado corpo caloso, que nos meninos é menor. Por
isso, as meninas fazem a conexão entre os dois lados com
mais facilidade. "O grande problema é que a maioria dos educadores
não leva isso em conta", diz o terapeuta americano Michael
Gurian, autor do livro Boys and Girls Learn Differently (Garotos
e Garotas Aprendem de Forma Diferente). "Eles aprenderam há
décadas que a diferença entre os sexos é apenas
uma questão social."
Nélio Rodrigues/1º Plano
 |
| Meninos
da 5ª série do Santo Antônio: eles amadurecem mais tarde do
que as coleguinhas da mesma idade |
Nada
disso significa que as meninas sejam de alguma forma superiores
aos meninos. Os dois grupos apenas possuem características
diferentes entre si. Mas os especialistas estão cada vez
mais convencidos de que essas diferenças acabam beneficiando
as meninas na escola. Como possuem maior sensibilidade para entender
o comportamento das pessoas, elas têm maior facilidade para
descobrir exatamente o que o professor espera de um aluno. Nos primeiros
anos escolares, em que aprendem a ler e a escrever, elas se saem
melhor que os garotos, pois seu desempenho em linguagem e vocabulário
é superior ao deles. Outros estudos realizados na última
década mostram que as garotas são sempre mais tolerantes
e mais atentas que os rapazes. Os garotos, segundo os médicos,
sofrem até quatro vezes mais que elas de déficit de
atenção. Essas vantagens das meninas acabam se refletindo
no desempenho escolar. Segundo os professores, os meninos já
repararam que ficaram para trás nos boletins de notas. A
solução é encorajá-los a desenvolver
o que eles têm de melhor.
|