Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Sociedade
O homem doce da Casa Branca

Prestes a se aposentar, o confeiteiro
que serviu a cinco presidentes americanos
conta o que acontecia na cozinha


Gabriela Carelli

 
Fotos Reuters
Mesnier: não é nada fácil agradar às primeiras-damas

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Receitas

Ronald Reagan gosta de sobremesas pequenas, com muito açúcar e enfeitadas. Bill Clinton, alérgico a derivados de leite, geralmente termina suas refeições com um sorbet, um sorvete à base de frutas. Já George W. Bush tem um gosto, digamos, mais texano. É louco por donuts, aquelas rosquinhas lambuzadas de geléia e creme, e bolo de chocolate com calda quente, à moda da vovó. Palavra do confeiteiro francês Roland Mesnier, de 59 anos. Há 24 anos no comando do setor de doces – a chamada pâtisserie – da cozinha da Casa Branca, Mesnier conhece como poucos os hábitos alimentares dos cinco últimos presidentes dos Estados Unidos. Também coleciona lembranças sobre as primeiras-damas a quem serviu e sobre a rotina na residência presidencial do país mais rico do mundo. Prestes a se aposentar – vai pendurar o avental neste mês –, Mesnier decidiu contar um pouco do que sabe no livro Dessert University (Universidade das Sobremesas), com lançamento previsto para setembro nos Estados Unidos. "A sobremesa é o prato principal dos jantares oficiais – o doce chega, todos mudam de humor e tudo acontece", disse o doceiro a VEJA.

Mesnier estudou seu ofício nas boas escolas da França e da Alemanha. Chefiou as confeitarias de hotéis ultrachiques, como o Savoy de Londres, o George V de Paris e o Greenbrier Resort, no Estado americano da Virgínia Ocidental. Foi neste último que chamou a atenção dos caçadores de talentos da Casa Branca, que, a pedido da então primeira-dama Rosalynn Carter, tentavam encontrar um doceiro eclético o suficiente para criar receitas extravagantes para os jantares de gala e sobremesas comuns para as refeições da família. Em fevereiro de 1980, Mesnier assumiu seu posto. "Foi bem complicado no início", ele conta. "Os Carter não gostavam muito de doces. A primeira-dama entrava na cozinha com uma neta e colocava cookies no forno. Achava que minha função era ver quando os biscoitinhos estavam prontos", lembra. O segundo susto foi quando o chef teve de deixar de lado as porções delicadas para enveredar pelo mundo das sobremesas grandiosas – uma tradição na Casa Branca. Fez um gigantesco bolo em forma de coqueiro que provocou assombro no presidente do Egito, Hosni Mubarak. "Foi a primeira e a última aberração que criei por conta própria – as que se seguiram me foram encomendadas", diverte-se.

 
Laura Bush e um bolo de Natal: ela e o marido estão sempre de regime

Depois do episódio, Mesnier decidiu estudar com afinco os gostos pessoais dos chefes de Estado a quem deveria servir e a cultura do respectivo país. Acabou se tornando uma atração entre os visitantes oficiais. Em 1994, seu suspiro de cereja recheado de sorvete de amêndoas e coberto com um ramalhete de rosas confeccionado de açúcar, feito para o imperador Akihito, do Japão, impressionou tanto a imperatriz Michiko que ela fez questão de conhecer Mesnier. "Disse-me que havia anos não provava uma comida que a fizesse se sentir tão bem", conta o chef. Alguns doces servidos a chefes de Estado foram tão elogiados que o cozinheiro foi obrigado a divulgar a receita para os colegas de outras residências presidenciais. Entre eles estão as cestas de chocolate com musse de morango e pequenos cookies no formato do Big Ben preparadas para o primeiro-ministro britânico, Tony Blair .

Trabalhar na Casa Branca não é um mar de rosas. O chef chega pontualmente às 7 da manhã e não tem hora para sair. "No governo atual, por causa de todos os acontecimentos internacionais, trabalhei como nunca", diz ele. Mesnier precisa seguir inúmeras exigências relacionadas à segurança dos alimentos. "Não adianta eu cismar em usar um ingrediente que só existe na China. Tudo o que entra aqui é comprado diariamente por funcionários acompanhados de agentes da CIA, que visitam um supermercado previamente inspecionado no mesmo dia", revela. Além disso, tem de obedecer aos gostos e às orientações das primeiras-damas – que sempre tratam diretamente com ele, todos os dias. "A partir do momento em que você entra na Casa Branca, deve ouvir tudo com atenção e seguir as instruções, nem que sejam as mais esdrúxulas. Se não quiser fazer isso, é bom procurar outro emprego", diz ele.

Nancy Reagan, por exemplo, queria sempre as sobremesas mais luminosas e coloridas possíveis, nem que para isso o sabor fosse prejudicado. Hillary Clinton adorava inventar formas para os doces das festas familiares. Um deles foi um imenso bolo cor-de-rosa, cuja parte superior estampava uma réplica de carteira de motorista, para o aniversário de 16 anos de sua filha, Chelsea. Já a atual primeira-dama, Laura Bush, é exigente no quesito calorias. "O casal vive de dieta e ela está sempre de olho para conferir se não usei gordura animal", conta o chef. "No dia-a-dia, açúcar está proibido. Madame Laura já me pediu para usar adoçante, mas me recuso – prefiro ousar uma pequena travessura e optar pelo mel. Adoçante estraga qualquer receita!"

 
 
 
 
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