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Sociedade
O
homem doce da Casa Branca
Prestes
a se aposentar, o confeiteiro
que serviu a cinco presidentes americanos
conta o que acontecia na cozinha

Gabriela
Carelli
Fotos Reuters
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| Mesnier:
não é
nada fácil agradar
às primeiras-damas
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Ronald
Reagan gosta de sobremesas pequenas, com muito açúcar
e enfeitadas. Bill Clinton, alérgico a derivados de leite,
geralmente termina suas refeições com um sorbet, um
sorvete à base de frutas. Já George W. Bush tem um
gosto, digamos, mais texano. É louco por donuts, aquelas
rosquinhas lambuzadas de geléia e creme, e bolo de chocolate
com calda quente, à moda da vovó. Palavra do confeiteiro
francês Roland Mesnier, de 59 anos. Há 24 anos no comando
do setor de doces a chamada pâtisserie da cozinha
da Casa Branca, Mesnier conhece como poucos os hábitos alimentares
dos cinco últimos presidentes dos Estados Unidos. Também
coleciona lembranças sobre as primeiras-damas a quem serviu
e sobre a rotina na residência presidencial do país
mais rico do mundo. Prestes a se aposentar vai pendurar o
avental neste mês , Mesnier decidiu contar um pouco
do que sabe no livro Dessert University (Universidade das
Sobremesas), com lançamento previsto para setembro nos Estados
Unidos. "A sobremesa é o prato principal dos jantares oficiais
o doce chega, todos mudam de humor e tudo acontece", disse
o doceiro a VEJA.
Mesnier
estudou seu ofício nas boas escolas da França e da
Alemanha. Chefiou as confeitarias de hotéis ultrachiques,
como o Savoy de Londres, o George V de Paris e o Greenbrier Resort,
no Estado americano da Virgínia Ocidental. Foi neste último
que chamou a atenção dos caçadores de talentos
da Casa Branca, que, a pedido da então primeira-dama Rosalynn
Carter, tentavam encontrar um doceiro eclético o suficiente
para criar receitas extravagantes para os jantares de gala e sobremesas
comuns para as refeições da família. Em fevereiro
de 1980, Mesnier assumiu seu posto. "Foi bem complicado no início",
ele conta. "Os Carter não gostavam muito de doces. A primeira-dama
entrava na cozinha com uma neta e colocava cookies no forno. Achava
que minha função era ver quando os biscoitinhos estavam
prontos", lembra. O segundo susto foi quando o chef teve de deixar
de lado as porções delicadas para enveredar pelo mundo
das sobremesas grandiosas uma tradição na Casa
Branca. Fez um gigantesco bolo em forma de coqueiro que provocou
assombro no presidente do Egito, Hosni Mubarak. "Foi a primeira
e a última aberração que criei por conta própria
as que se seguiram me foram encomendadas", diverte-se.
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| Laura
Bush e um bolo de Natal: ela e o marido estão sempre de regime
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Depois
do episódio, Mesnier decidiu estudar com afinco os gostos
pessoais dos chefes de Estado a quem deveria servir e a cultura
do respectivo país. Acabou se tornando uma atração
entre os visitantes oficiais. Em 1994, seu suspiro de cereja recheado
de sorvete de amêndoas e coberto com um ramalhete de rosas
confeccionado de açúcar, feito para o imperador Akihito,
do Japão, impressionou tanto a imperatriz Michiko que ela
fez questão de conhecer Mesnier. "Disse-me que havia anos
não provava uma comida que a fizesse se sentir tão
bem", conta o chef. Alguns doces servidos a chefes de Estado foram
tão elogiados que o cozinheiro foi obrigado a divulgar a
receita para os colegas de outras residências presidenciais.
Entre eles estão as cestas de chocolate com musse de morango
e pequenos cookies no formato do Big Ben preparadas para o primeiro-ministro
britânico, Tony Blair .
Trabalhar
na Casa Branca não é um mar de rosas. O chef chega
pontualmente às 7 da manhã e não tem hora para
sair. "No governo atual, por causa de todos os acontecimentos internacionais,
trabalhei como nunca", diz ele. Mesnier precisa seguir inúmeras
exigências relacionadas à segurança dos alimentos.
"Não adianta eu cismar em usar um ingrediente que só
existe na China. Tudo o que entra aqui é comprado diariamente
por funcionários acompanhados de agentes da CIA, que visitam
um supermercado previamente inspecionado no mesmo dia", revela.
Além disso, tem de obedecer aos gostos e às orientações
das primeiras-damas que sempre tratam diretamente com ele,
todos os dias. "A partir do momento em que você entra na Casa
Branca, deve ouvir tudo com atenção e seguir as instruções,
nem que sejam as mais esdrúxulas. Se não quiser fazer
isso, é bom procurar outro emprego", diz ele.
Nancy
Reagan, por exemplo, queria sempre as sobremesas mais luminosas
e coloridas possíveis, nem que para isso o sabor fosse prejudicado.
Hillary Clinton adorava inventar formas para os doces das festas
familiares. Um deles foi um imenso bolo cor-de-rosa, cuja parte
superior estampava uma réplica de carteira de motorista,
para o aniversário de 16 anos de sua filha, Chelsea. Já
a atual primeira-dama, Laura Bush, é exigente no quesito
calorias. "O casal vive de dieta e ela está sempre de olho
para conferir se não usei gordura animal", conta o chef.
"No dia-a-dia, açúcar está proibido. Madame
Laura já me pediu para usar adoçante, mas me recuso
prefiro ousar uma pequena travessura e optar pelo mel. Adoçante
estraga qualquer receita!"
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