Edição 1857 . 9 de junho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

São Paulo
O propinoduto do contrabando

A prisão do chinês Law Chong
revela a guerra contra a corrupção
que se trava dentro da polícia


Sandra Brasil

 
Joedson Alves/AE
Depois de ser preso por tentar pagar propina a Medeiros (abaixo), da CPI da Pirataria, Chong foi irônico: "Todo mundo sabe que o Medeiros é incorruptível"
Tiago Queiroz/AE

O empresário chinês Law Kin Chong, de 43 anos, foi preso na semana passada, depois de ser flagrado tentando subornar por 1,5 milhão de reais o deputado Luiz Antonio de Medeiros, do PL de São Paulo, que preside a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pirataria, na Câmara dos Deputados. Chefão do comércio de produtos contrabandeados em São Paulo e um dos maiores do Brasil, Law Chong queria pagar pelo "favor" de ter seu nome protegido no relatório da CPI que deve ser lido nesta terça-feira. A pedido de Medeiros, a CPI da Pirataria gravou em vídeo toda a negociação. Preso, o empresário foi irônico: "Todo mundo sabe que o Medeiros é incorruptível".

Estima-se que Law Chong movimente 600 milhões de reais por ano com contrabando e pirataria. Ele é dono de mais de 600 lojas no centro de São Paulo – que até sexta-feira continuavam funcionando normalmente – e tudo leva a crer que seja proprietário de fábricas de produtos piratas em Manaus e na China. A CPI tem uma lista de "laranjas" de seus empreendimentos. Os negócios do empresário chinês só se tornaram tão vastos (e despudoradamente visíveis) porque 10% do que fatura é gasto com propinas a fiscais, policiais e outros funcionários de órgãos públicos. Eles compõem sua rede de proteção. Segundo a Polícia Federal, o propinoduto de Law Chong abastece cerca de 200 pessoas.

A operação que resultou na prisão do chinês Law – batizada curiosamente de Shogun, nome dado a antigos líderes militares japoneses – revela como está acirrada a guerra contra a corrupção que se trava dentro da Polícia Federal. Nenhum integrante da PF paulista sabia da operação, que foi planejada, coordenada e executada por seus colegas de Brasília. Montou-se uma delicada estratégia para evitar qualquer tipo de vazamento de informação para os policiais federais em São Paulo. Tanto que foi uma surpresa e tanto a chegada de Law, algemado, à sede da Superintendência da PF na capital paulista. Explica-se: o comando da polícia em Brasília e a CPI da Pirataria dão como certo que delegados da PF e subordinados seus em São Paulo estão na folha de pagamentos de Law.

Os detalhes da Shogun parecem compor o roteiro de um filme. Designado pelo diretor da PF, Paulo Lacerda, para comandar a missão, o delegado federal Protógenes Queiroz e 37 policiais federais viajaram de carro e de ônibus de Brasília para São Paulo. Se utilizassem avião, os paulistas seriam comunicados da movimentação pelo pessoal da inteligência e poderiam desconfiar. O quartel-general da operação foi instalado num hotel da região central da cidade, localizado a 8 quilômetros do prédio da Superintendência da PF. Para evitar que houvesse vazamento da operação na Justiça, o mandado de prisão de Law só foi expedido momentos antes da ação.

Não é a primeira vez que a PF de São Paulo fica de fora de uma ação importante de combate à corrupção. Isso também ocorreu durante a condução da Operação Anaconda, que resultou em nove prisões em dezembro do ano passado. Com o monitoramento de 181 linhas telefônicas durante um ano, por meio de um moderno sistema de escuta, a Anaconda conseguiu prender em São Paulo, entre outros, o juiz federal João Carlos da Rocha Mattos. Na mesma operação, pegou também o delegado federal José Augusto Bellini e o agente César Herman Rodriguez, ambos lotados na PF em São Paulo. Os dois estavam envolvidos no esquema que incluía a venda de sentenças judiciais por parte de Rocha Mattos. O superintendente da PF na capital paulista, Francisco Baltazar, desconhecia a existência da Anaconda até que os mais de 100 policiais vindos de outros Estados chegaram a São Paulo para efetuar prisões. O nome de Law também apareceu na Anaconda. O empresário presenteava Bellini com alguns produtos importados.

 

PRAGA NACIONAL
A revista Exame que está nas bancas publica uma pesquisa inédita sobre a sonegação e o mercado informal no Brasil: uma queda de 20% nesse setor elevaria o PIB em 5%

Nas apreensões de documentos realizadas em seis endereços de Law, a PF encheu mais de 100 caixas, que foram lacradas. O material foi enviado para análise e perícia em Brasília. O delegado Queiroz determinou à sua equipe que lacrasse individualmente cada caixa para evitar que o importante conteúdo sumisse antes de chegar a Brasília. Quando os lacres começaram a ser feitos, um policial de São Paulo sugeriu aos colegas de Brasília que lacrassem apenas a sala onde foi colocado o material apreendido. Ouviu um redondo "não". O lacre geral permitiria a violação das caixas dentro do prédio da PF paulista. Um dos investigadores contou a VEJA que, ao todo, seis delegados federais em São Paulo são suspeitos de participar do esquema de Law. Todos deverão ser investigados e punidos, se ficar comprovado o seu envolvimento. A direção da PF tem priorizado operações que possam levar à eliminação de maus policiais da instituição, renovada em dois terços nos últimos seis anos. "Nós queremos ver a PF livre de corruptos", diz o mesmo investigador. Ele também afirmou a VEJA que existem indícios de que Law tinha cúmplices no escritório de São Paulo da Agência Brasileira de Inteligência e na Polícia Civil paulista. "Todo mundo em São Paulo sabe que há vinte anos o Law é contrabandista e faz pirataria. Por que não foi preso antes e por que os processos contra ele não andam? Há muita corrupção", diz o deputado Medeiros, o incorruptível.

Law Chong é um peixe graúdo de um cardume de meliantes que administram o Brasil da informalidade, da pirataria e do contrabando. Segundo estudo da consultoria McKinsey, publicado pela revista Exame que começou a circular na semana passada, 40% da renda brasileira resulta de negócios feitos à margem da legalidade. "O problema dessa economia informal é que a produtividade da economia é jogada para baixo. Ela ganha dinheiro com roubo de carga, importação ilegal de produtos e não gera emprego", diz o empresário Emerson Kapaz, presidente do Instituto Etco, uma ONG voltada para a defesa da ética nos negócios. "A prisão de gente como Law, que arrotava blindagem, dá um outro ânimo. Quando a polícia quer, prende."

 

Made in China

A CPI da Pirataria chegou a somas surpreendentes ao investigar os negócios ilegais do chinês Law Kin Chong. Descobriu-se que ele:

movimenta cerca de 600 milhões de reais por ano  

é dono de mais de 600 lojas no centro de São Paulo  

gasta 10% com propinas a fiscais e policiais  

tem uma rede de proteção de mais de 200 funcionários de órgãos públicos

 

 
 
 
 
topo voltar