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São
Paulo
O
propinoduto do contrabando
A
prisão do chinês Law Chong
revela a guerra contra a corrupção
que se trava dentro da polícia

Sandra
Brasil
Joedson Alves/AE
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| Depois
de ser preso por tentar pagar propina a Medeiros (abaixo),
da CPI da Pirataria, Chong foi irônico: "Todo mundo sabe
que o Medeiros é incorruptível" |
Tiago Queiroz/AE
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O
empresário chinês Law Kin Chong, de 43 anos, foi preso
na semana passada, depois de ser flagrado tentando subornar por
1,5 milhão de reais o deputado Luiz Antonio de Medeiros,
do PL de São Paulo, que preside a Comissão Parlamentar
de Inquérito da Pirataria, na Câmara dos Deputados.
Chefão do comércio de produtos contrabandeados em
São Paulo e um dos maiores do Brasil, Law Chong queria pagar
pelo "favor" de ter seu nome protegido no relatório da CPI
que deve ser lido nesta terça-feira. A pedido de Medeiros,
a CPI da Pirataria gravou em vídeo toda a negociação.
Preso, o empresário foi irônico: "Todo mundo sabe que
o Medeiros é incorruptível".
Estima-se
que Law Chong movimente 600 milhões de reais por ano com
contrabando e pirataria. Ele é dono de mais de 600 lojas
no centro de São Paulo que até sexta-feira
continuavam funcionando normalmente e tudo leva a crer que
seja proprietário de fábricas de produtos piratas
em Manaus e na China. A CPI tem uma lista de "laranjas" de seus
empreendimentos. Os negócios do empresário chinês
só se tornaram tão vastos (e despudoradamente visíveis)
porque 10% do que fatura é gasto com propinas a fiscais,
policiais e outros funcionários de órgãos públicos.
Eles compõem sua rede de proteção. Segundo
a Polícia Federal, o propinoduto de Law Chong abastece cerca
de 200 pessoas.
A
operação que resultou na prisão do chinês
Law batizada curiosamente de Shogun, nome dado a antigos
líderes militares japoneses revela como está
acirrada a guerra contra a corrupção que se trava
dentro da Polícia Federal. Nenhum integrante da PF paulista
sabia da operação, que foi planejada, coordenada e
executada por seus colegas de Brasília. Montou-se uma delicada
estratégia para evitar qualquer tipo de vazamento de informação
para os policiais federais em São Paulo. Tanto que foi uma
surpresa e tanto a chegada de Law, algemado, à sede da Superintendência
da PF na capital paulista. Explica-se: o comando da polícia
em Brasília e a CPI da Pirataria dão como certo que
delegados da PF e subordinados seus em São Paulo estão
na folha de pagamentos de Law.
Os
detalhes da Shogun parecem compor o roteiro de um filme. Designado
pelo diretor da PF, Paulo Lacerda, para comandar a missão,
o delegado federal Protógenes Queiroz e 37 policiais federais
viajaram de carro e de ônibus de Brasília para São
Paulo. Se utilizassem avião, os paulistas seriam comunicados
da movimentação pelo pessoal da inteligência
e poderiam desconfiar. O quartel-general da operação
foi instalado num hotel da região central da cidade, localizado
a 8 quilômetros do prédio da Superintendência
da PF. Para evitar que houvesse vazamento da operação
na Justiça, o mandado de prisão de Law só foi
expedido momentos antes da ação.
Não
é a primeira vez que a PF de São Paulo fica de fora
de uma ação importante de combate à corrupção.
Isso também ocorreu durante a condução da Operação
Anaconda, que resultou em nove prisões em dezembro do ano
passado. Com o monitoramento de 181 linhas telefônicas durante
um ano, por meio de um moderno sistema de escuta, a Anaconda conseguiu
prender em São Paulo, entre outros, o juiz federal João
Carlos da Rocha Mattos. Na mesma operação, pegou também
o delegado federal José Augusto Bellini e o agente César
Herman Rodriguez, ambos lotados na PF em São Paulo. Os dois
estavam envolvidos no esquema que incluía a venda de sentenças
judiciais por parte de Rocha Mattos. O superintendente da PF na
capital paulista, Francisco Baltazar, desconhecia a existência
da Anaconda até que os mais de 100 policiais vindos de outros
Estados chegaram a São Paulo para efetuar prisões.
O nome de Law também apareceu na Anaconda. O empresário
presenteava Bellini com alguns produtos importados.
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PRAGA
NACIONAL
A
revista Exame que está nas bancas publica uma
pesquisa inédita sobre a sonegação e
o mercado informal no Brasil: uma queda de 20% nesse setor
elevaria o PIB em 5%
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Nas
apreensões de documentos realizadas em seis endereços
de Law, a PF encheu mais de 100 caixas, que foram lacradas. O material
foi enviado para análise e perícia em Brasília.
O delegado Queiroz determinou à sua equipe que lacrasse individualmente
cada caixa para evitar que o importante conteúdo sumisse
antes de chegar a Brasília. Quando os lacres começaram
a ser feitos, um policial de São Paulo sugeriu aos colegas
de Brasília que lacrassem apenas a sala onde foi colocado
o material apreendido. Ouviu um redondo "não". O lacre geral
permitiria a violação das caixas dentro do prédio
da PF paulista. Um dos investigadores contou a VEJA que, ao todo,
seis delegados federais em São Paulo são suspeitos
de participar do esquema de Law. Todos deverão ser investigados
e punidos, se ficar comprovado o seu envolvimento. A direção
da PF tem priorizado operações que possam levar à
eliminação de maus policiais da instituição,
renovada em dois terços nos últimos seis anos. "Nós
queremos ver a PF livre de corruptos", diz o mesmo investigador.
Ele também afirmou a VEJA que existem indícios de
que Law tinha cúmplices no escritório de São
Paulo da Agência Brasileira de Inteligência e na Polícia
Civil paulista. "Todo mundo em São Paulo sabe que há
vinte anos o Law é contrabandista e faz pirataria. Por que
não foi preso antes e por que os processos contra ele não
andam? Há muita corrupção", diz o deputado
Medeiros, o incorruptível.
Law
Chong é um peixe graúdo de um cardume de meliantes
que administram o Brasil da informalidade, da pirataria e do contrabando.
Segundo estudo da consultoria McKinsey, publicado pela revista Exame
que começou a circular na semana passada, 40% da renda
brasileira resulta de negócios feitos à margem da
legalidade. "O problema dessa economia informal é que a produtividade
da economia é jogada para baixo. Ela ganha dinheiro com roubo
de carga, importação ilegal de produtos e não
gera emprego", diz o empresário Emerson Kapaz, presidente
do Instituto Etco, uma ONG voltada para a defesa da ética
nos negócios. "A prisão de gente como Law, que arrotava
blindagem, dá um outro ânimo. Quando a polícia
quer, prende."
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Made
in China
A
CPI da Pirataria chegou a somas surpreendentes ao investigar
os negócios ilegais do chinês Law Kin Chong.
Descobriu-se que ele:
movimenta cerca de 600 milhões de reais
por ano
é dono de mais de 600 lojas no centro de
São Paulo
gasta 10% com propinas a fiscais e policiais
tem uma rede de proteção de mais
de 200 funcionários de órgãos públicos
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