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Rio
de Janeiro
A
barbárie anunciada
Trinta
mortes em prisão carioca
expõem de modo selvagem o caos
do sistema penal brasileiro

Ronaldo
França
Ricardo Leoni/Ag. O Globo
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| Garotinho:
sumiço nos momentos de crise enfraquece sua imagem
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O sistema penal brasileiro se assemelha a uma ilha no Pacífico
Norte onde, volta e meia, um vulcão entra em erupção.
Nos períodos de calmaria, ninguém se lembra de que
ela existe. É assim nos presídios. Eles chamam atenção
quando ocorre uma rebelião, como a que culminou na morte
de pelo menos trinta detentos, na semana passada, numa cadeia de
Benfica, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. O caso ganhou notoriedade
pela forma brutal como os presos foram assassinados por seus colegas
de cela. Quatro deles tiveram cabeça e membros decepados,
numa demonstração de selvageria. A cena foi ainda
mais assustadora porque os rebelados formaram um tribunal, em que
decidiram quem deveria viver ou morrer. O caso também despertou
atenção por revelar as inacreditáveis fragilidades
de mais uma unidade prisional no Rio, Estado onde a epidemia da
violência tem deixado seqüelas mais graves. A rebelião
começou na manhã do sábado 29 e só chegou
ao fim na segunda-feira, graças à intervenção
de um pastor evangélico com ligações com um
dos líderes do crime no Rio. Encerrado o motim, as autoridades
se dedicaram às tradicionais explicações e
imputações de responsabilidade, temas que com o passar
dos dias vão sendo esquecidos até que a próxima
rebelião aconteça.
O
Brasil tem atualmente cerca de 240.000 homens e mulheres cumprindo
pena, nos mais variados regimes. Há nos presídios,
porém, apenas 180.000 vagas. Só em São Paulo,
existem 30.000 vagas a menos do que o número ideal. Nesse
ambiente é que floresce a selvageria. Como há poucas
celas para muitos presos, eles são amontoados, independentemente
do tipo de crime que cometeram. Jovens presos por furto de toca-fitas
ou por briga de rua são colocados ao lado de criminosos com
dezenas de passagens pela polícia e ligações
com o narcotráfico. Estima-se que apenas 10% dos condenados
cumpram algum tipo de pena alternativa. O grosso vai para as celas
superlotadas. Além disso, como os bandidos passaram a se
organizar em facções do crime, implantaram nas cadeias
o mesmo sistema de rivalidade e domínio de território
a que estão acostumados nas favelas de metrópoles
como o Rio.
Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
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| Rio,
2 de junho: parentes dos presos em desespero |
Uma
vez no presídio, colocar esses bandidos numa mesma cela é
o mesmo que dar início a uma rebelião por combustão
espontânea. A situação é de caos. E o
pouco dinheiro de que se dispõe para resolver o problema
não chega ao destino como deveria. Só no orçamento
do governo federal para este ano estão previstos 580 milhões
de reais para o sistema penitenciário. Boa parte dessa dinheirama
faz parte do Fundo Penitenciário Nacional, que, através
de convênios com os Estados, promove programas de reaparelhamento
do sistema. O problema é que, do total do orçamento,
só 18% foram reservados para uso nos programas, e apenas
0,42% foi efetivamente gasto na construção ou na reforma
de presídios.
Desafio
de risco As mortes na Casa de Custódia ajudam
a minar um projeto político de Anthony Garotinho iniciado
em abril do ano passado. Na ocasião, ele tomou uma decisão
de alto risco político. Com o governo de sua mulher, Rosinha
Matheus, pressionado por episódios de demonstração
de força do crime organizado, Garotinho assumiu o cargo de
secretário de Segurança Pública. Desde o início,
o ex-governador tinha consciência de que apostava seu futuro
nesse desafio. Se conseguisse reduzir as taxas de violência,
ganharia musculatura para alçar vôos maiores, como
uma nova candidatura à Presidência em 2002,
obteve 15 milhões de votos. Se fracassasse, poderia ver sua
popularidade minguar até mesmo entre o eleitorado fluminense,
em que tem boa aceitação. As trinta mortes da semana
passada foram mais uma evidência de que Garotinho está
perdendo a aposta. Em treze meses à frente da guerra contra
o crime, o secretário de Segurança teve de lidar com
uma série de episódios constrangedores para sua imagem
e a da polícia fluminense. A guerra previamente anunciada
entre traficantes na favela da Rocinha é um dos exemplos
mais eloqüentes.
O
secretário também tem pouco a mostrar quando o assunto
são estatísticas. Não houve nenhuma grande
mudança nas taxas de criminalidade desde que assumiu o cargo
(veja quadro). Na verdade, desde 1999
com uma interrupção nos nove meses do governo
Benedita da Silva, em 2002 Anthony Garotinho tem nas mãos
o comando da polícia fluminense, seja como governador, seja
como secretário. Nesse período, o índice de
crimes violentos permaneceu inalterado. É muito tempo para
tão pouco resultado. Nos primeiros cinco anos do programa
Tolerância Zero, Nova York baixou em 74% o índice de
homicídios. Desde o início da rebelião, Garotinho
e Rosinha evitaram a imprensa. A decisão de não dar
explicações sobre a rebelião também
não ajuda a compor a imagem de um executivo resolvedor de
problemas com a qual o ex-governador sonha se apresentar aos eleitores.
Conclui a cientista política Lúcia Hipólito:
"Agindo assim, Garotinho corre o risco de passar a imagem de um
governante que desaparece em momentos de crise, tudo de que o eleitor
não gosta".
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