Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Ministério
Vampiros no gabinete

Com dois homens de confiança acusados de
corrupção, o ministro da Saúde, Humberto
Costa, fica em situação delicada



Ed Ferreira/AE
Sérgio Tomisaki/Ag. O Globo
Luiz Cláudio Gomes da Silva (à esq.) e Reginaldo Muniz: Costa os trouxe do Recife para ocuparem cargos importantes em Brasília

Quando a Operação Vampiro estourou, no mês passado, prendendo dezessete lobistas, empresários e funcionários públicos envolvidos em fraudes nas licitações do Ministério da Saúde, pareceu que o caso seria estritamente policial. Os acusados eram todos desconhecidos, gente que não constava sequer do segundo escalão no organograma do ministério. Cada vez mais, contudo, o caso ganha a dimensão de um escândalo político que deixa em situação delicada o próprio ministro da Saúde, Humberto Costa. Não há, até agora, sinais de que ele tenha ligação direta com as ilegalidades. Mas as investigações da Polícia Federal apontam o envolvimento de dois de seus homens de confiança nas falcatruas: Luiz Cláudio Gomes da Silva, que comandava as compras do ministério, e Reginaldo Muniz, que dirigia a Fundação Nacional de Saúde. Ambos são velhos conhecidos de Costa e foram trazidos por ele do Recife, sua base política, para os cargos de destaque que ocupavam. "Foi uma surpresa tremenda, uma decepção", repetia Humberto Costa pela enésima vez na semana passada, em seu gabinete. É preciso uma dose elefantina de complacência para aceitar de um ministro uma justificativa desse tipo. Um homem público que detém um posto tão elevado deve, sim, ser julgado no plano político por sua capacidade de cercar-se de assessores competentes e – mais ainda – honestos.

Sérgio Dutti/AE
Humberto Costa: "O presidente me apóia. Disse que às vezes até um pai se engana com o filho"


Humberto Costa tem gasto muita energia na tentativa de conter os danos causados pelo escândalo. Mostra bastante cansaço, mas garante que está firme no cargo. "O presidente me apóia. Disse que isso acontece, e que às vezes até um pai se engana com o filho", afirma. Se Lula está disposto a ser uma mãe para o correligionário, de quem é amigo desde a fundação do PT, o mesmo não ocorre em outras esferas. A idéia de que Humberto Costa deveria afastar-se do Ministério da Saúde ganha força em Brasília. "Os fatos são de alta gravidade. Não estou pedindo a cabeça do ministro, mas será extremamente comprometedor para o governo mantê-lo na equipe", afirma Jefferson Péres, líder do PDT no Senado. Mesmo dentro do PT há pressões semelhantes. "Com esses homens de confiança envolvidos no escândalo, das duas uma: ou ele sabia o que estava acontecendo ou não tem controle de sua pasta", diz um petista que é próximo de Lula e de José Dirceu. Para completar a confusão em torno de Costa, seus adversários na política de Pernambuco relembraram um caso em que a Secretaria da Saúde do Recife, comandada por ele de 2001 a meados de 2002, fez quatro contratos sem licitação no valor de 3,2 milhões de reais com empresas prestadoras de serviço que depois foram doadoras de sua campanha ao governo estadual, em 2002. Na gerência dos contratos estava Luiz Cláudio Gomes da Silva – o homem de confiança do ministro que a PF encarcerou em 19 de maio. Nesse caso, Humberto Costa tem a seu favor a aprovação dada pelo Tribunal de Contas do Estado aos negócios e o fato de as doações terem sido declaradas em sua documentação de campanha.

Não bastassem os apuros do ministro da Saúde, outro petista graúdo enredou-se no baile dos vampiros na semana passada. Trata-se do tesoureiro da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, Delúbio Soares. O nome de Delúbio surgiu nas investigações a partir do depoimento do empresário Francisco Danúbio Honorato, que foi preso. Honorato declarou à Polícia Federal e ao Ministério Público ter ouvido comentários de que o lobista Laerte Corrêa Júnior, um dos integrantes da quadrilha, conhecido como "Gordo", tinha o aval de Delúbio para pedir dinheiro às empresas farmacêuticas e representar os interesses dessas no Ministério da Saúde. Todo lobista costuma espalhar que possui uma influência maior do que a que detém de verdade. Mas Laerte Corrêa Júnior foi justamente o lobista que intermediou as doações das empresas farmacêuticas para a campanha presidencial do PT no segundo turno, quando Lula já estava praticamente eleito. Ao saber do conteúdo do depoimento, Delúbio Soares confirmou ter feito reuniões com o Gordo. Disse que ele fora indicado pelas indústrias farmacêuticas e que, depois da eleição, foi à sede do PT algumas vezes, supostamente para filiar algumas pessoas ao partido. Segundo Delúbio, a ação de Laerte rendeu à campanha presidencial 1,5 milhão de reais em doações de empresas farmacêuticas. Menos da metade, 700.000 reais, aparece na prestação de contas oficial da campanha. "Ninguém está autorizado a falar nem a intermediar interesses em nome do PT ou em meu nome. Nossos advogados vão processar todos os que disserem coisas inverídicas. Não vamos deixar barato", declarou Delúbio na semana passada.

 
 
 
 
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