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Edição 1 699 - 9 de maio de 2001
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Minha casa,
meu trabalho

Os escritórios residenciais
conquistam seu espaço
e ganham mais estilo

Maurício Oliveira

Mario Rodrigues

A decoradora Brunete Fraccaroli: ambiente de loft feito em galpão de fábrica herdado do pai

Antes, bastavam uma mesa, uma cadeira, um abajur e prateleiras. Estava pronto o escritório doméstico, encaixado num canto qualquer do quarto ou da sala. Com a valorização do trabalho em casa nos últimos anos, esse espaço conquistou vida própria e já atende pela pomposa alcunha de home office. Aos poucos, deixa de ser um luxo reservado a profissionais endinheirados para se transformar em presença quase obrigatória nos projetos arquitetônicos de casas e apartamentos destinados à classe média. Especialistas da área imobiliária estimam que em breve ele será tão essencial quanto o banheiro e os quartos – muitos prédios já estão saindo da planta com espaço para o escritório. Pode-se atribuir a mudança a uma série de fatores: a separação entre a atividade na empresa e a vida familiar não é tão rigorosa quanto antes, as tecnologias de comunicação incentivam o trabalho a distância e os computadores se incorporaram de vez à rotina das residências.

Na esteira dessa tendência, os profissionais da prancheta vêm recebendo um número crescente de encomendas para projetar e acompanhar a instalação de home offices, um lugar que deve ser funcional, mas acima de tudo agradável e confortável, com a virtude adicional de ocupar área reduzida. "O fundamental é que não lembre nem um pouco os escritórios convencionais, aonde você é obrigado a ir todos os dias", define a arquiteta e decoradora Brunete Fraccaroli, uma das mais requisitadas de São Paulo, ela própria uma adepta da alternativa desde que a filha de 16 anos era recém-nascida. Segundo Brunete, não é nem mesmo necessário reservar um cômodo inteiro para instalá-lo, exceto para profissionais que trabalham o tempo todo na residência, o que exige privacidade para receber clientes e distância da balbúrdia familiar. Ainda assim, a decoração deve ser bem mais descontraída que a encontrada nas empresas, já que levar para casa aqueles móveis quadrados, frios e sem graça é uma alternativa impensável.

 
Fotos Tuca Reines
Fotos Tuca Reines

Dois dos projetos criados por Brunete: à esquerda, o chão de vidro permite ver o resto da casa. Acima, escritório em pleno jardim, cercado de vidro com película que reduz a incidência de raios solares

A tendência de derrubar as paredes, fundindo vários ambientes em um só, permite que o escritório seja compartilhado com a sala de estar, o quarto ou até mesmo a cozinha. "Falta de espaço deixou de ser desculpa para não ter um escritório em casa", diz o exclusivo Sig Bergamin, outro renomado profissional da decoração. "Com 5 metros quadrados é possível fazer uma boa área de trabalho." Ele mesmo acaba de sucumbir à tentação e inaugurou seu primeiro home office, no 3º andar da mansão onde mora, nos Jardins, a área mais nobre da capital paulista. Quem imagina um espaço amplo, luxuoso e caro, no entanto, errou feio. Bergamin gastou apenas 2.500 reais com a obra. Aproveitou uma área até então inútil, exatos 10 metros quadrados localizados sob um teto rebaixado que inviabilizava outras utilizações. Ali, instalou uma bancada de fórmica branca em forma de L, prateleiras para revistas e armários para guardar papeladas pessoais, como documentos e lembranças de viagem. Abriu uma janela no teto, chamada pelos decoradores de skylight, a fim de aproveitar a iluminação natural, ingrediente considerado vital aos home offices mais na moda. Para completar, enfeitou o ambiente com dezenas de fotos de amigos. "É tudo muito simples, mas acolhedor o suficiente para que eu acorde às 5 da manhã e venha aqui colocar um sonho no papel", conta Bergamin.

 
Rogério Voltan

Sig Bergamin em seu recém-inaugurado home office: canto inútil vira lugar ideal para reunir objetos pessoais e ter boas idéias

Por força das mudanças comportamentais, o arquiteto carioca Maurício Nóbrega batizou o cômodo formado pela fusão do escritório com outras partes da casa de "sala da família", área ideal para o convívio dos pais com os filhos. "Esse lugar assume o papel de ponto de encontro das gerações, que durante muito tempo foi da sala onde ficava a televisão", prevê Nóbrega. O novo conceito de escritório doméstico pressupõe a democratização desse espaço, tido até então como o lugar em que o chefe de família se refugiava quando tinha problemas sérios a resolver. O moderno home office é ocupado tanto pelo marido quanto pela mulher e filhos, cada um envolvido em seus afazeres. "Essa mudança se deve à popularização do computador, um equipamento que é compartilhado por todos e faz com que o local em que está instalado também seja dividido", diz o decorador carioca Chicô Gouveia. De uns tempos para cá, com o surgimento de novos designs e cores, o micro passou a ser tratado como elemento de destaque na decoração doméstica, particularmente com as inovações introduzidas pelos coloridos iMacs. "Antigamente, ninguém pensaria em colocar um PC no meio da sala. Hoje, já pode ser uma tentação", ressalta o arquiteto paulista Marcel Monacelli.

Com a maior variedade de mobiliário à disposição, tanto no que diz respeito aos materiais quanto aos formatos, ficou bem mais agradável e divertido montar o ambiente. Antes, o móvel era um trambolho de madeira pesada ou de aço esverdeado. Agora, é fácil encontrar uma mesa ou um armário na exata dimensão da necessidade. No mercado, existem verdadeiras megalojas de design, como a rede Tok & Stok, que oferecem centenas de opções de mesas, cadeiras, luminárias, estantes, arquivos e outros equipamentos e acessórios, com design de bom gosto e freqüentadas até por decoradores exigentes. Quem é ligado em estilo tem um amplo horizonte à frente. "Há uma tendência de valorização dos materiais naturais", explica o arquiteto João Mansur, responsável pelo projeto do home office da Casa Cor de São Paulo, mostra de decoração com abertura prevista para junho que costuma ditar moda no ramo. No ambiente chiquésimo que Mansur está preparando, com apenas 11 metros quadrados, a parede terá revestimento de couro de selaria, o piso receberá carpete de celulose e as cortinas serão de antílope natural, com iluminação a cargo de holofotes instalados no alto das paredes, lembrando cenografia teatral. Como contraponto, haverá um biombo japonês do século XVIII e a cadeira, um modelo francês da mesma época. Vai dar até para trabalhar lá de vez em quando.

 
 

   
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