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Edição 1 699 - 9 de maio de 2001
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Vamos escapar dessa?

O Brasil salvou seu rebanho da
vaca
louca e agora monta um
cerco contra a febre aftosa

Diogo Schelp

 
AFP
Selmy Yassuda
Vacinação em fazenda do Uruguai: problema avança na fronteira

O mundo todo acompanhou nos últimos meses com grande dose de perplexidade as discussões em torno dos riscos do consumo de carne bovina. Provocado pela epidemia da vaca louca, o debate global adquiriu relevância porque a doença colocou sob suspeita a fonte de proteína que é a base de alimentação das pessoas. Comissões de especialistas reuniram-se para formular soluções de emergência, países como a Inglaterra gastaram bilhões de dólares em indenizações aos produtores que tiveram o gado exterminado e o consumo de carne no continente europeu, a região mais atingida, caiu 25%. Mal refeita ainda dos reflexos da crise da vaca louca, a humanidade assiste agora ao avanço de um novo e terrível perigo sobre o gado – a febre aftosa. A doença ataca países da Europa, como a Inglaterra, e é endêmica em algumas partes do mundo. Nas últimas semanas, a ameaça chegou à América do Sul. A Argentina já contabiliza 350 casos e o Uruguai, outros 160. Como a peste avança em direção à fronteira, as autoridades brasileiras foram obrigadas a juntar-se à corrente internacional no combate à nova epidemia.


Arquivo Museu do Zebu/ABCZ
Os brasileiros na Índia: em busca da raça zebu


Até o fim do ano, os países da União Européia prevêem gastar outra fortuna com o extermínio de animais, indenizações, campanhas de esclarecimento e fiscalização das condições do gado. Na proposta de orçamento para o ano fiscal de 2002, que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, enviou recentemente ao Congresso americano, está prevista uma verba de 32 milhões de dólares para aumentar o controle das fronteiras e evitar a entrada da febre aftosa no país. Na semana passada, foi a vez de o governo brasileiro se manifestar. O ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, anunciou um plano de emergência para conter o avanço da doença no território brasileiro. Serão investidos mais de 5 milhões de reais para imunizar 4,1 milhões de cabeças de gado em fazendas do Rio Grande do Sul. "O objetivo é formar uma espécie de cinturão para proteger nosso gado", explica Pratini de Moraes.


Causada por um vírus altamente contagioso, a febre aftosa provoca febre e feridas na boca e nas patas de bois, porcos e ovelhas. Impossibilitados de comer e de andar, os animais doentes vão definhando até se tornar comercialmente imprestáveis. Para os pecuaristas nacionais, a epidemia surgiu justamente no momento em que havia a esperança de aumento do volume de exportações. Afinal, o gado brasileiro foi classificado como de baixo risco em relação à contaminação pela doença da vaca louca. Agora o cenário mudou. Desde agosto do ano passado não se registram casos de febre aftosa no Brasil. Só que, diante da paranóia que se criou no mundo em torno da qualidade da carne bovina, o simples fato de haver um programa de vacinação em andamento é suficiente para deixar os compradores ressabiados. Com isso, o fantasma de um refluxo no volume das exportações passou a rondar a cabeça dos criadores. "É como se estivéssemos dentro de um prédio que está desabando sem ter para onde ir", define Wilson Dornelles, presidente do Sindicato Rural de Uruguaiana, que representa 1.200 pecuaristas da região fronteiriça.

 

Com um total de 165 milhões de cabeças, o Brasil possui o maior rebanho bovino comercial do mundo. O país começou a se tornar um gigante nessa área a partir do momento em que importou da Índia as primeiras espécies de gado zebu, no século XIX. Mais resistente ao clima tropical que os animais vindos da Europa, o zebu adaptou-se muito bem aos pastos nacionais. Hoje, 80% do gado descende dessa linhagem. Apesar de possuir 16% do rebanho mundial, o Brasil domina 8% do mercado da carne. É ainda uma posição modesta, mas as coisas vinham melhorando da última década para cá, quando ocorreu um aumento de 80% no volume de exportações, graças principalmente aos rígidos esquemas de fiscalização implementados pelo governo e pelos pecuaristas. Do total de 6 milhões de toneladas produzidas anualmente, apenas 10% são vendidas a outros países, que impõem barreiras sanitárias quase intransponíveis aos pequenos criadores brasileiros. A febre aftosa chegou à fronteira do país justamente no momento em que os criadores alimentavam a esperança de virar o jogo.

 
 
   
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