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"Misterioso
presente"
Três
meses depois do acidente,
Herbert Viana está apenas no
início de sua mais árdua batallha
Lucila
Soares e Cristina Poles
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| Herbert:
ele tem crises de ausência, lapsos de memória recente e dificuldade
de escolher as palavras certas |
A
família de Herbert Vianna finalmente quebrou o silêncio a
respeito do seu estado de saúde, por meio de um relato do irmão
mais velho do cantor, o antropólogo Hermano Vianna, divulgado na
semana passada. Na queda do ultraleve que pilotava, em fevereiro passado,
Herbert sofreu traumatismos em todo o cérebro, o que lhe comprometeu
parte das funções neurológicas. Houve ainda o esmagamento
da 12ª vértebra torácica, que se partiu em vários
pedaços. Um deles migrou para dentro do canal da medula, deixando-o
paraplégico. O que mais impressionou na descrição
de Hermano foi o fato de que o músico parece viver "num misterioso
presente, sem se lembrar do que aconteceu há poucos minutos", para
usar as palavras do antropólogo. Segundo Hermano, seu estado de
confusão mental é grande. Confirmou-se, também, que
ele ainda não foi informado de que sua mulher, Lucy, morreu no
acidente. "Que adianta lhe dar essa notícia se Herbert não
vai entendê-la e, sobretudo, se ele vai esquecê-la daqui a
cinco minutos e a notícia vai ter de ser dada novamente, gerando
mais sofrimento?", justifica Hermano.
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Em
1993, o ator Flávio Silvino sofreu um acidente na estrada
que liga Cabo Frio ao Rio. Teve traumatismo craniano e ficou 103
dias em coma. Hoje, anda e fala, ainda que com dificuldade
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Fernando Martinho
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Herbert
voltou a falar. Articula as palavras perfeitamente, mas tem enorme dificuldade
para encontrar os vocábulos certos que exprimam seus desejos e
sentimentos. Ele, por exemplo, pode chamar "cadeira" de "mesa".
Isso não significa que não saiba a diferença entre
as duas coisas. O que ocorre é que seus comandos cerebrais simplesmente
não conseguem encontrar a palavra exata para designar o objeto
ou o conceito que o músico quer enunciar. O arquivo mental de Herbert
está desorganizado. Também é comum que o músico
se mostre completamente ausente, sem manifestar nenhuma reação
ao que ocorre a seu redor. Outro comportamento de Herbert que angustia
a família são os seus apagões mnemônicos. Sua
memória dificilmente registra feições ou nomes novos.
O músico, no entanto, reconhece todas as pessoas que conhecia antes
do acidente. Chama cada um dos filhos Luca, de 8 anos, Hope, de
5, e Phoebe, de 1.
A evolução
do músico é lenta, mas segue no ritmo esperado pelos médicos.
"Ele nunca deixou de melhorar", afirma o neurocirurgião Paulo Niemeyer
Filho, que trata de Herbert. Se a recuperação do líder
do Paralamas do Sucesso fosse um livro de 500 páginas, ela estaria
apenas no prefácio. Há muito que fazer. Antes, acreditava-se
que cada região cerebral era a responsável exclusiva por
uma ou mais atividades. Os neurologistas, contudo, vêm constatando
que o cérebro é uma estrutura maleável do ponto de
vista da funcionalidade. Embora certas partes sejam especializadas nessa
ou naquela tarefa, a plasticidade do órgão é tanta
que possibilita a sua adaptação a situações
imprevistas. Por meio de exercícios específicos de fisioterapia,
fonoaudiologia e terapia ocupacional, é possível transferir
as funções de uma área lesionada para outra que esteja
intacta.
Renato Chaui
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Osmar
Santos perdeu 5% de massa encefálica em um acidente de carro,
em 1994. Submetido a fisioterapia e fonoaudiologia, ele hoje anda
e balbucia dezenas de palavras |
"Suficientemente estimulado, o cérebro é capaz de reorganizar-se",
explica o neurologista Paulo Bertolucci, da Universidade Federal de São
Paulo. Um bom exemplo disso é o caso do locutor esportivo Osmar
Santos, que, em 1994, perdeu 5% da massa encefálica num acidente
de carro. A lesão afetou as áreas que controlam o lado direito
do corpo e a fala. Seu cérebro teve de aprender a realizar essas
tarefas em outras regiões. Hoje, ele caminha e consegue se comunicar
com um arsenal de três dezenas de palavras. As compensações
realizadas pelo cérebro, no entanto, têm um limite que varia
de pessoa para pessoa. Quanto mais extensa a área prejudicada,
o processo é mais difícil. Quanto mais velho o paciente,
idem. Os pessimistas acreditam que o cérebro de Herbert terá
dificuldade redobrada para transferir funções de uma parte
para outra. Isso porque, em geral, as tarefas de uma área lesionada
são deslocadas para a correspondente no outro hemisfério
cerebral. O maior problema é que o lobo temporal esquerdo do músico
foi muito afetado e sua área correlata, no lado direito, também
sofreu danos consideráveis entre eles, a retirada de 3 a
4 centímetros de tecido necrosado. Como se disse, ainda é
cedo para esboçar prognósticos. Apenas em dois anos, será
possível traçar um quadro de até onde a recuperação
de Herbert poderá chegar. Aos familiares, amigos e admiradores
do líder do Paralamas do Sucesso, só resta torcer. "É
uma questão de fé e esperança", resume Hermano.


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Dos
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Rasante trágico |
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Reportagem
de VEJA de 14/02/2001 sobre o acidente de ultraleve com
o cantor Herbert Vianna. |
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