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Edição 1 699 - 9 de maio de 2001
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Campo de infâmia

Torcedores do Lazio ofendem
jogadores
negros do Roma e
clube recebe punição

Cristiano Dias

 
AFP
AP
À esquerda, torcedores do Lazio: "time de negros". À direita, o símbolo fascista pintado na sede da torcida organizada

A sigla SS no escudo do Lazio significa Società Sportiva, mas muitos torcedores do clube preferem ver nessas duas letras a lembrança de um funesto passado fascista. No último domingo, 29 de abril, no início do segundo tempo de uma partida decisiva pelo campeonato italiano, a torcida do Lazio estendeu uma faixa em que se lia "time de negros, torcida de judeus". Os insultos eram para o Roma, maior rival do Lazio e adversário daquela noite, que tinha escalado os brasileiros (e negros) Cafu e Aldair, e ainda o francês (também negro) Jonathan Zebina. Cada vez que um deles tocava na bola, os torcedores do Lazio ululavam, imitando macacos, nas arquibancadas. "Foi uma falta de respeito", disse a VEJA o lateral Cafu. O preconceito racial não é coisa nova no futebol. Na Itália, está ficando tão banal que fizeram até uma lei para tentar bani-lo. Desde fevereiro, toda vez que torcedores insultam um jogador negro seus times podem ser multados e perder o mando de campo. Assim, o Lazio se tornou o primeiro a cair nas garras da justiça desportiva italiana. Para o clube, se foi ruim pagar 28 000 dólares de multa, será muito pior ter de jogar em campo neutro um dos três últimos jogos que faria em casa, o que poderia diminuir suas chances de conquistar o bicampeonato.

A infâmia racial não está restrita à Itália. Júlio César, ex-zagueiro da seleção brasileira, jogava pelo Borussia, em 1994, quando foi barrado numa boate de Dortmund. O motivo: era negro. O caso criou uma comoção tão grande que até o prefeito da cidade alemã pediu desculpas ao jogador. Há quatro anos, torcedores espanhóis riscaram a palavra "macaco" na lataria do carro do lateral Roberto Carlos, do Real Madrid. A questão racial também foi manchete quando os holandeses, na última Copa do Mundo, levaram à França uma equipe na qual brancos e negros não se bicavam. Na Itália, o racismo já entrou até em campo. Em outubro do ano passado, numa partida pela Liga dos Campeões da Europa, o sérvio Sinisa Mihajlovic, do Lazio, passou os noventa minutos ofendendo com termos racistas o francês Patrick Vieira, do Arsenal. Mihajlovic, que admitiu os insultos, tomou uma suspensão de dois jogos e multa de 40 000 dólares.


AFP
O brasileiro Cafu: "Foi uma falta de respeito"


Símbolos e slogans fascistas são cada vez mais populares em estádios europeus. Grupos neonazistas proliferam em quase todas as torcidas organizadas da Itália. Na sede dos "Irriducibili" (algo como "Invencíveis"), a mais importante torcida do Lazio, há um retrato de Mussolini pendurado na parede e uma águia fascista pintada sobre o escudo do clube. A má fama da torcida é tanta que o último negro que passou por lá foi o holandês Aaron Winter, há cinco anos. Um desastre. Além de negro, Winter é judeu, fato que irritou parte da torcida. "Foi horrível. Eu tinha medo de sair de casa", diz Winter, que hoje joga no Ajax de Amsterdã. Segundo Sergio Cragnotti, presidente do Lazio, a solução imediata para combater o racismo entre seus torcedores é a contratação de jogadores negros e judeus. O primeiro passo já foi dado. Na próxima temporada, o lateral César, do São Caetano, vai vestir a camisa do time. Tranqüilo, o brasileiro diz que a história toda não o abala. "Não estou nem aí. Quem não gostaria de jogar no Lazio?", comentou. Aldair, que joga há onze anos no Roma e já se diz acostumado com os corinhos racistas dos rivais, não é tão otimista. "Ele vai ter problemas", disse.


   
 
   
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