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Campo
de infâmia
Torcedores do Lazio ofendem
jogadores negros
do Roma e
clube recebe punição
Cristiano Dias
AFP
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AP
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| À
esquerda, torcedores do Lazio: "time de negros". À direita,
o símbolo fascista pintado na sede da torcida organizada |
A
sigla SS no escudo do Lazio significa Società Sportiva, mas muitos
torcedores do clube preferem ver nessas duas letras a lembrança
de um funesto passado fascista. No último domingo, 29 de abril,
no início do segundo tempo de uma partida decisiva pelo campeonato
italiano, a torcida do Lazio estendeu uma faixa em que se lia "time de
negros, torcida de judeus". Os insultos eram para o Roma, maior rival
do Lazio e adversário daquela noite, que tinha escalado os brasileiros
(e negros) Cafu e Aldair, e ainda o francês (também negro)
Jonathan Zebina. Cada vez que um deles tocava na bola, os torcedores do
Lazio ululavam, imitando macacos, nas arquibancadas. "Foi uma falta de
respeito", disse a VEJA o lateral Cafu. O preconceito racial não
é coisa nova no futebol. Na Itália, está ficando
tão banal que fizeram até uma lei para tentar bani-lo. Desde
fevereiro, toda vez que torcedores insultam um jogador negro seus times
podem ser multados e perder o mando de campo. Assim, o Lazio se tornou
o primeiro a cair nas garras da justiça desportiva italiana. Para
o clube, se foi ruim pagar 28 000 dólares de multa, será
muito pior ter de jogar em campo neutro um dos três últimos
jogos que faria em casa, o que poderia diminuir suas chances de conquistar
o bicampeonato.
A infâmia racial não está restrita à Itália.
Júlio César, ex-zagueiro da seleção brasileira,
jogava pelo Borussia, em 1994, quando foi barrado numa boate de Dortmund.
O motivo: era negro. O caso criou uma comoção tão
grande que até o prefeito da cidade alemã pediu desculpas
ao jogador. Há quatro anos, torcedores espanhóis riscaram
a palavra "macaco" na lataria do carro do lateral Roberto Carlos, do Real
Madrid. A questão racial também foi manchete quando os holandeses,
na última Copa do Mundo, levaram à França uma equipe
na qual brancos e negros não se bicavam. Na Itália, o racismo
já entrou até em campo. Em outubro do ano passado, numa
partida pela Liga dos Campeões da Europa, o sérvio Sinisa
Mihajlovic, do Lazio, passou os noventa minutos ofendendo com termos racistas
o francês Patrick Vieira, do Arsenal. Mihajlovic, que admitiu os
insultos, tomou uma suspensão de dois jogos e multa de 40 000 dólares.
AFP
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| O
brasileiro Cafu: "Foi uma falta de respeito" |
Símbolos e slogans fascistas são cada vez mais populares
em estádios europeus. Grupos neonazistas proliferam em quase todas
as torcidas organizadas da Itália. Na sede dos "Irriducibili" (algo
como "Invencíveis"), a mais importante torcida do Lazio, há
um retrato de Mussolini pendurado na parede e uma águia fascista
pintada sobre o escudo do clube. A má fama da torcida é
tanta que o último negro que passou por lá foi o holandês
Aaron Winter, há cinco anos. Um desastre. Além de negro,
Winter é judeu, fato que irritou parte da torcida. "Foi horrível.
Eu tinha medo de sair de casa", diz Winter, que hoje joga no Ajax de Amsterdã.
Segundo Sergio Cragnotti, presidente do Lazio, a solução
imediata para combater o racismo entre seus torcedores é a contratação
de jogadores negros e judeus. O primeiro passo já foi dado. Na
próxima temporada, o lateral César, do São Caetano,
vai vestir a camisa do time. Tranqüilo, o brasileiro diz que a história
toda não o abala. "Não estou nem aí. Quem não
gostaria de jogar no Lazio?", comentou. Aldair, que joga há onze
anos no Roma e já se diz acostumado com os corinhos racistas dos
rivais, não é tão otimista. "Ele vai ter problemas",
disse.
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