
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Limites da maldade
Crime
bárbaro gera tanta indignação que
até os coveiros se recusaram a enterrar
um dos bandidos, que morreu na cadeia
Silvio Ferraz
Álbum de família
 |
|
Márcia
só pedia calma. Em vão. Morreu depois de ser estuprada
|
O outrora bucólico bairro de Santa Tereza, nas montanhas do centro
do Rio de Janeiro, hoje cercado de favelas por todos os lados, foi mais
uma vez palco de uma barbárie que indignou a cidade. Uma família
viu sua casa invadida por criminosos. Mãe e filha foram estupradas
e esfaqueadas. A mãe, com requintes de selvageria, foi escalpelada
e seu rosto, desfigurado a golpes de facão. A menina, de 13 anos,
sobreviveu. E contaria a uma tia ao sair do hospital: "Nós estávamos
amarradas de bruços. Ele me deu uma facada e eu não gritei.
Depois ouvi mamãe levando uma facada e dando um gemido profundo.
Mamãe perguntou: 'Minha filha, você está bem?'. Eu
disse que sim. Ela disse sussurrando: 'Eu estou morrendo' ".
O crime
aconteceu num final de tarde, quando seu marido saíra e a fonoaudióloga
Márcia Maria Lopes Coelho Lyra estava acompanhada do casal de filhos
adolescentes. Os assassinos invadiram a casa, amarraram e enfiaram debaixo
da cama seu filho e o ex-marido, o engenheiro Luiz Paulo Castro Lyra,
que viera buscar os filhos para passear. Aos criminosos, Márcia
só pedia calma. "Não é preciso violência",
implorava. Em vão. Alan Marques da Costa, 18 anos, pedreiro que
trabalhava na reforma da casa e contava com a confiança e a amizade
da família, queria sangue. Portava uma faca tipo Rambo. Ele e seu
comparsa, Marcelo Melo Gonçalves dos Santos, 37 anos, armado com
um revólver, gritavam que pertenciam ao Comando Vermelho, facção
do crime que controla a droga no Rio. Marcelo, já com um assassinato
nas costas, agia com fúria. Havia consumido muita cocaína.
E na cozinha a dupla tomara duas garrafas de vinho e outra de vodca. Não
usavam máscaras. Afinal, pensavam, ninguém sobreviveria
para contar a história.
Perguntaram
a Márcia com quem ela queria ficar presa no quarto do casal. Ela
escolheu a filha de 13 anos. Do outro dormitório, podia-se ouvir
tudo e imaginar cenas inomináveis. Os dois bandidos amarraram as
vítimas na cama de casal e as estupraram. Em seguida, Alan deu
uma profunda facada no pescoço da menina, mas quer convencer a
polícia de que foi Marcelo quem ficou com o serviço pesado,
liquidando Márcia a golpes de facão. "Era a queima de arquivo
tramada", afirma o inconsolável engenheiro Celso Verçoza,
50 anos, há sete com Márcia. Durante a chacina, dois outros
marginais arrancaram senha e cartão bancário de Luiz Paulo
e saíram a fazer saques nos caixas eletrônicos. O lucro da
chacina: 500 reais. As cenas de selvageria só terminaram com a
chegada da Polícia Militar. Houve troca de tiros, mas os bandidos
conseguiram fugir. Marcelo, o mais experiente e violento, foi entregue
à polícia pela própria mulher, Erinalva Barbosa,
antes que o comando do tráfico da minúscula mas perigosa
favela do Bloquete, na Zona Oeste, a 50 quilômetros do centro da
cidade, ordenasse seu linchamento.
Levado para
a carceragem, teve de ser isolado. Da cela dos marginais, as ameaças:
"Estuprador aqui não entra". De outra, apelidada de "seguro", reservada
a homossexuais e alcagüetes, nova sentença: "Aqui vira picadinho".
Algemado, Marcelo acabou confinado em uma sala. Nela seria encontrado
enforcado, dois dias depois, com o fio do ventilador. O Instituto Médico
Legal atestou que ocorreu um enforcamento, ou seja, suicídio. O
laudo oficial não dissipou todas as suspeitas de que o monstro
possa ter sido estrangulado pelos carcereiros. As ONGs logo se mobilizaram:
querem perícia independente para verificar como o preso morreu.
"Para mim, nenhuma ONG telefonou oferecendo perícia que pudesse
encontrar mais indícios para ajudar a polícia a capturar
os assassinos", desabafa Celso. Nem o calejado chefe da Polícia
Civil, delegado Álvaro Lins, pôde conter-se ao ver as fotos
do corpo de Márcia: "Nunca imaginei que o ser humano fosse capaz
de tamanha selvageria. O rosto dela foi desfigurado a golpes de facão.
Um dos golpes chegou a seccionar a medula". Na primeira noite depois do
crime, Celso dormiu ao lado da poça de sangue no quarto. "Alguém
precisava exorcizar aquele ambiente fantasmagórico." No dia seguinte,
queimou colchão, lençóis e roupas de Márcia
na calçada. Um ritual de catarse: "Queimei tudo que pudesse lembrar
a terrível tortura de Marcinha, senão cada vez que visse
minhas cicatrizes iriam sangrar. Fiquei do lado, até tudo virar
cinza". "Sinto uma vontade incontrolável de fazer justiça
com as próprias mãos", declarou o ex-marido, o engenheiro
Luiz Paulo, à polícia. Marcelo, o monstro de Santa Tereza,
foi enterrado na quinta-feira, sem a presença de parentes, vizinhos
nem comparsas. Em protesto, só a muito custo os coveiros se resignaram
a jogar terra sobre seu corpo. Em repúdio à violência,
800 pessoas compareceram à missa de Márcia.
|
OBCECADO
PELA VINGANÇA
Oscar Cabral
 |
Nos quatro primeiros dias após a morte da mulher, Celso Verçoza,
50 anos, viúvo de Márcia, não comeu nada. Quando
tentava, vomitava. Vem-se alimentando de ódio. A perplexidade
com a chacina o mantém desperto. Chora muito. "Não
posso entender como esses monstros fizeram isso com a Marcinha",
desabafa, enquanto afaga a cadela poodle "Lucky", que mais lhe lembra
a companheira estuprada, escalpelada e trucidada. Celso quer justiça,
a morte dos assassinos. "Farei tudo para puni-los dentro da lei",
diz em seu desespero. "O que aconteceu aqui não tem nada
a ver com pobreza. Foi coisa de monstros. Uma barbaridade. O Alan
sabia que teriam três dias para roubar sem ser incomodados.
Poderiam ter levado os carros. Mas não. Vieram na quinta-feira,
quando sabiam que eu não estava. Queriam fazer perversidade
com a Márcia. Quiseram e conseguiram realizar esse ritual
bárbaro e macabro."
|
|
ADOTADA
PELO TRÁFICO
Oscar Cabral
 |
Em
um pequeno barraco amontoado na perigosa favela do Bloquete, vivem
Erinalva Barbosa, 42 anos cansados de guerra, viúva do bandido
Marcelo, e seus três filhos. Em um canto miserável,
um jardim de espadas-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode,
plantas protetoras. De nada lhe valeram. Agitado, o bandido acordou-a
na noite do crime. "O assalto sujou." Ao comprar pão, ouviu:
"Viu seu marido estuprador na televisão?" Voltou chorando.
"Roubo ainda passa. É para botar comida em casa. Mas matar?
Estuprar? Isso não tem cabimento. Eu também sou mãe
de família", desabafa. Marcelo era ladrão e já
havia matado antes. "Resolvi chamar a polícia antes que o
povo o linchasse. Ninguém tolera isso." Os donos do tráfico
na favela deram ordens para não mais molestarem Erinalva.
As vizinhas já lhe dão comida. As mais jovens já
a chamam de tia.
|
|
|
 |
|
 |

|
 |