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Edição 1 699 - 9 de maio de 2001
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Limites da maldade

Crime bárbaro gera tanta indignação que
até os coveiros se recusaram a enterrar
um dos bandidos, que morreu na cadeia

Silvio Ferraz


Álbum de família

Márcia só pedia calma. Em vão. Morreu depois de ser estuprada


O outrora bucólico bairro de Santa Tereza, nas montanhas do centro do Rio de Janeiro, hoje cercado de favelas por todos os lados, foi mais uma vez palco de uma barbárie que indignou a cidade. Uma família viu sua casa invadida por criminosos. Mãe e filha foram estupradas e esfaqueadas. A mãe, com requintes de selvageria, foi escalpelada e seu rosto, desfigurado a golpes de facão. A menina, de 13 anos, sobreviveu. E contaria a uma tia ao sair do hospital: "Nós estávamos amarradas de bruços. Ele me deu uma facada e eu não gritei. Depois ouvi mamãe levando uma facada e dando um gemido profundo. Mamãe perguntou: 'Minha filha, você está bem?'. Eu disse que sim. Ela disse sussurrando: 'Eu estou morrendo' ".

O crime aconteceu num final de tarde, quando seu marido saíra e a fonoaudióloga Márcia Maria Lopes Coelho Lyra estava acompanhada do casal de filhos adolescentes. Os assassinos invadiram a casa, amarraram e enfiaram debaixo da cama seu filho e o ex-marido, o engenheiro Luiz Paulo Castro Lyra, que viera buscar os filhos para passear. Aos criminosos, Márcia só pedia calma. "Não é preciso violência", implorava. Em vão. Alan Marques da Costa, 18 anos, pedreiro que trabalhava na reforma da casa e contava com a confiança e a amizade da família, queria sangue. Portava uma faca tipo Rambo. Ele e seu comparsa, Marcelo Melo Gonçalves dos Santos, 37 anos, armado com um revólver, gritavam que pertenciam ao Comando Vermelho, facção do crime que controla a droga no Rio. Marcelo, já com um assassinato nas costas, agia com fúria. Havia consumido muita cocaína. E na cozinha a dupla tomara duas garrafas de vinho e outra de vodca. Não usavam máscaras. Afinal, pensavam, ninguém sobreviveria para contar a história.

Perguntaram a Márcia com quem ela queria ficar presa no quarto do casal. Ela escolheu a filha de 13 anos. Do outro dormitório, podia-se ouvir tudo e imaginar cenas inomináveis. Os dois bandidos amarraram as vítimas na cama de casal e as estupraram. Em seguida, Alan deu uma profunda facada no pescoço da menina, mas quer convencer a polícia de que foi Marcelo quem ficou com o serviço pesado, liquidando Márcia a golpes de facão. "Era a queima de arquivo tramada", afirma o inconsolável engenheiro Celso Verçoza, 50 anos, há sete com Márcia. Durante a chacina, dois outros marginais arrancaram senha e cartão bancário de Luiz Paulo e saíram a fazer saques nos caixas eletrônicos. O lucro da chacina: 500 reais. As cenas de selvageria só terminaram com a chegada da Polícia Militar. Houve troca de tiros, mas os bandidos conseguiram fugir. Marcelo, o mais experiente e violento, foi entregue à polícia pela própria mulher, Erinalva Barbosa, antes que o comando do tráfico da minúscula mas perigosa favela do Bloquete, na Zona Oeste, a 50 quilômetros do centro da cidade, ordenasse seu linchamento.

Levado para a carceragem, teve de ser isolado. Da cela dos marginais, as ameaças: "Estuprador aqui não entra". De outra, apelidada de "seguro", reservada a homossexuais e alcagüetes, nova sentença: "Aqui vira picadinho". Algemado, Marcelo acabou confinado em uma sala. Nela seria encontrado enforcado, dois dias depois, com o fio do ventilador. O Instituto Médico Legal atestou que ocorreu um enforcamento, ou seja, suicídio. O laudo oficial não dissipou todas as suspeitas de que o monstro possa ter sido estrangulado pelos carcereiros. As ONGs logo se mobilizaram: querem perícia independente para verificar como o preso morreu. "Para mim, nenhuma ONG telefonou oferecendo perícia que pudesse encontrar mais indícios para ajudar a polícia a capturar os assassinos", desabafa Celso. Nem o calejado chefe da Polícia Civil, delegado Álvaro Lins, pôde conter-se ao ver as fotos do corpo de Márcia: "Nunca imaginei que o ser humano fosse capaz de tamanha selvageria. O rosto dela foi desfigurado a golpes de facão. Um dos golpes chegou a seccionar a medula". Na primeira noite depois do crime, Celso dormiu ao lado da poça de sangue no quarto. "Alguém precisava exorcizar aquele ambiente fantasmagórico." No dia seguinte, queimou colchão, lençóis e roupas de Márcia na calçada. Um ritual de catarse: "Queimei tudo que pudesse lembrar a terrível tortura de Marcinha, senão cada vez que visse minhas cicatrizes iriam sangrar. Fiquei do lado, até tudo virar cinza". "Sinto uma vontade incontrolável de fazer justiça com as próprias mãos", declarou o ex-marido, o engenheiro Luiz Paulo, à polícia. Marcelo, o monstro de Santa Tereza, foi enterrado na quinta-feira, sem a presença de parentes, vizinhos nem comparsas. Em protesto, só a muito custo os coveiros se resignaram a jogar terra sobre seu corpo. Em repúdio à violência, 800 pessoas compareceram à missa de Márcia.

 

OBCECADO PELA VINGANÇA

Oscar Cabral


Nos quatro primeiros dias após a morte da mulher, Celso Verçoza, 50 anos, viúvo de Márcia, não comeu nada. Quando tentava, vomitava. Vem-se alimentando de ódio. A perplexidade com a chacina o mantém desperto. Chora muito. "Não posso entender como esses monstros fizeram isso com a Marcinha", desabafa, enquanto afaga a cadela poodle "Lucky", que mais lhe lembra a companheira estuprada, escalpelada e trucidada. Celso quer justiça, a morte dos assassinos. "Farei tudo para puni-los dentro da lei", diz em seu desespero. "O que aconteceu aqui não tem nada a ver com pobreza. Foi coisa de monstros. Uma barbaridade. O Alan sabia que teriam três dias para roubar sem ser incomodados. Poderiam ter levado os carros. Mas não. Vieram na quinta-feira, quando sabiam que eu não estava. Queriam fazer perversidade com a Márcia. Quiseram e conseguiram realizar esse ritual bárbaro e macabro."

 

ADOTADA PELO TRÁFICO

Oscar Cabral


Em um pequeno barraco amontoado na perigosa favela do Bloquete, vivem Erinalva Barbosa, 42 anos cansados de guerra, viúva do bandido Marcelo, e seus três filhos. Em um canto miserável, um jardim de espadas-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode, plantas protetoras. De nada lhe valeram. Agitado, o bandido acordou-a na noite do crime. "O assalto sujou." Ao comprar pão, ouviu: "Viu seu marido estuprador na televisão?" Voltou chorando. "Roubo ainda passa. É para botar comida em casa. Mas matar? Estuprar? Isso não tem cabimento. Eu também sou mãe de família", desabafa. Marcelo era ladrão e já havia matado antes. "Resolvi chamar a polícia antes que o povo o linchasse. Ninguém tolera isso." Os donos do tráfico na favela deram ordens para não mais molestarem Erinalva. As vizinhas já lhe dão comida. As mais jovens já a chamam de tia.

 



   
 
   
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