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No ritmo certo
Fórmula
de controle dos batimentos cardíacos usada como padrão
no esporte está superada

Gabriela
Carelli
Não
há esportista ou freqüentador de academia que desconheça
uma das regras da boa forma mais difundidas na última década:
exercício só não basta. Para atingir algum resultado,
seja perder peso, melhorar o sistema cardiovascular ou virar atleta de
elite, é necessário estar atento aos chamados do coração.
Contar quantas vezes o órgão bate por minuto e relacionar
o resultado com a idade não só evita infartos fulminantes
como é uma das poucas maneiras fáceis e eficientes de diferenciar
uma caminhada vigorosa de um passeio no bosque. Até aí,
nada de novo para quem faz da atividade física uma rotina. Todos
os templos de malhação têm impressa em aparelhos ergométricos
a fórmula para calcular a freqüência cardíaca
máxima, índice que permite achar as zonas ideais de treinamento.
Basta subtrair a idade de 220. Depois, é só adequar o número
final aos seguintes padrões: quem quer ativar o sistema cardiovascular
deve manter a freqüência cardíaca entre 70% e 85% da
máxima; quem quer perder peso deve ficar entre 55% e 70%. A novidade:
o cálculo acima, há mais de três décadas tido
como padrão de boa conduta esportiva em centros de fitness de todo
o mundo, está superado.
Num estudo
publicado recentemente, pesquisadores da Universidade do Colorado afirmam
que o cálculo não deve ser usado para estabelecer a faixa
de segurança da freqüência cardíaca. Quem segue
a fórmula clássica pode errar de duas maneiras. Os mais
jovens acabam se exercitando além de seus limites, colocando em
risco músculos, articulações e coração.
Já as pessoas acima dos 50 anos se exercitam abaixo de seu potencial.
Ou seja, gastam sola de tênis em horas de esteira sem nenhum benefício
coronário, exatamente o que os que estão nessa faixa etária
mais procuram. O cálculo para achar a freqüência cardíaca
máxima da população média foi rascunhado nos
anos 50 pelo cientista americano M.J. Kavornnen e refeito pelos fisiologistas
Samuel Fox e William Haskell em 1967. É a primeira vez que ele
é questionado de forma tão aberta. Para chegar às
novas conclusões, os fisiologistas do Colorado fizeram nada menos
que 351 estudos com 492 grupos. Ao todo, 18.712
pessoas, com idade entre 18 e 81 anos, foram avaliadas. Na pesquisa realizada
em 1967, não havia um indivíduo sequer que tivesse mais
de 60 anos. Encabeçada pelos médicos Douglas Seals e Hirofumi
Tanaka, a nova teoria ganhou reputação ao ser publicada
no Journal of the American College of Cardiology.
Haskell
e Fox desenharam sua fórmula apoiados num conceito simples. Depois
de avaliar a freqüência em repouso e durante exercícios
de pessoas das mais variadas idades, chegaram à conclusão
de que a cada ano de vida o ser humano perdia um batimento cardíaco
por minuto. Não é por acaso, portanto, que o número
220 é a base da fórmula. Ele representa o total de batimentos
do coração de um recém-nascido. Subtraindo-se a idade
do número se chegaria então ao valor mágico que poderia
orientar as atividades físicas. O novo estudo da Universidade do
Colorado submeteu os pacientes avaliados a extenuantes testes em esteira
realizados em laboratório. Tomou-se o cuidado de excluir do grupo
fumantes e pessoas com distúrbios do coração, para
não haver erros. Depois de tanta cautela, a fórmula encontrada
para achar a freqüência cardíaca máxima foi multiplicar
a idade por 0,7 e subtraí-la de 208.
O novo cálculo
pode não significar nada para a maioria das pessoas e afugentar
os que odeiam matemática, mas exemplos simples revelam o que ele
representa no dia-a-dia. Pela fórmula antiga, um homem saudável,
com seus 70 anos, poderia exercitar-se a no máximo 150 batimentos
cardíacos. Pelo novo cálculo, ele pode chegar a 159. Um
homem de 80 anos teria sua freqüência máxima alterada
de 140 para 152. Com um jovem de 20 anos ocorre o contrário. Se
se levar em consideração o padrão antigo, pode atingir
os 200 batimentos, enquanto a nova fórmula propõe 194.
A diferença
de batimentos por minuto, apesar de pequena, é significativa. Quando
o coração é levado a se esforçar mais do que
o suportável, bate tão rápido que não tem
tempo de se recuperar entre uma contração e outra. Isso
pode acarretar falta de fluxo sanguíneo no miocárdio, a
camada mais espessa da parede do órgão. Trata-se de uma
agressão poderosa, que pode resultar numa arritmia passageira para
quem é saudável ou até num infarto agudo em pessoas
debilitadas por hipertensão, diabetes ou outras doenças
do coração. "Esses poucos batimentos para mais ou para menos
representam riscos sérios, até morte em casos patológicos",
diz o professor de fisiologia da Universidade Federal de São Paulo
Turíbio Leite de Barros Neto. Ele ressalta que na fórmula
padrão já está embutida uma margem de segurança,
que contribui, em alguns casos, apenas para piorar a situação.
A freqüência máxima encontrada pode variar dez batimentos
a mais ou a menos. "Um jovem de 33 anos que, usando a forma simplificada,
acha o número 187 pode se meter numa enrascada se sua máxima
real for 177", diz Turíbio Leite. Ele coordena uma pesquisa semelhante
a ser publicada em junho e chegou a resultados próximos dos encontrados
pelos cientistas do Colorado. Três mil brasileiros estão
sendo avaliados desde 1994. Dos que praticam exercícios cinco vezes
por semana e têm idade entre 20 e 29 anos, 71% superestimam seu
potencial cardíaco. Entre a população com idade de
60 a 69 anos, 91% trabalham aquém de suas possibilidades. O mesmo
ocorre com indivíduos na faixa dos 50 a 59 anos: 60% deles exercitam-se
abaixo de seu potencial.
Estudos
como o da Universidade do Colorado e do fisiologista brasileiro têm
uma outra utilidade, além de sugerirem uma fórmula mais
exata para descobrir a freqüência cardíaca. Esse subproduto
é justamente a busca de uma orientação individualizada.
"Qualquer fórmula generalizante está muito longe da ideal",
diz o médico esportivo Renato Lotufo, hoje responsável pela
preparação do time do Corinthians. Achar uma fórmula
de freqüência cardíaca que responda com segurança
à média da população é um desafio para
os fisiologistas. É uma das únicas formas viáveis
de atingir um grande público e evitar disparates. Justamente o
princípio que manteve o cálculo de Haskell válido
até agora. "Quem lida com atividade física precisa afastar
os desavisados de um perigo iminente. Entre a fórmula de Haskell
e nada, é melhor a primeira opção", diz o personal
trainer Roberto Toscano, especializado em fisiologia do exercício.
Ele conta que a fórmula de Haskell tornou-se popular em 1985. Era
a época da ginástica aeróbica e muitas pessoas se
deixavam embalar pela música e pela coreografia das aulas, elevando
seu ritmo cardíaco a níveis taquicárdicos sem ter
noção do que estavam fazendo. "Por ser simples e fácil,
ela trouxe resultados e continua orientando muitas pessoas."
Na
tentativa de amenizar as imprecisões das fórmulas generalizadas
que os médicos insistem em descobrir, uma corrente da fisiologia
se utiliza de outro recurso: relaciona a freqüência máxima
com outro valor referente aos batimentos cardíacos. A idéia
é simples. Não importa somente o limite cardíaco,
mas em quanto tempo o organismo se recupera. Uma pesquisa feita pela Cleveland
Clinic, nos Estados Unidos, mostrou que, em uma pessoa comum, os batimentos
devem cair vinte pontos após um minuto de repouso. Nos atletas,
o número deve beirar os cinqüenta. Os pesquisadores chegam
a afirmar que pessoas que diminuem apenas doze batimentos cardíacos
nessas condições sofrem quatro vezes mais riscos de morte
por problemas no coração nos próximos seis anos em
comparação às que diminuem treze ou mais pontos.
Médicos brasileiros discordam em parte das afirmativas. "A recuperação
é extremamente importante, mas extrair dessa medição
um diagnóstico cardíaco é chute", diz o fisiologista
Lotufo. Um dos poucos testes que podem informar fielmente a quantas anda
seu coração tem um nome tão complicado quanto a fórmula
recentemente prescrita: VO2 max. Ele verifica o volume máximo do
oxigênio consumido pelo organismo a cada minuto, que é proporcional
ao peso do corpo e depende da capacidade de bombeamento do coração.
Só que para fazê-lo é necessário tempo, dinheiro
e disposição.
Enquanto
os testes personalizados não se tornam populares e pesquisadores
não chegam a um acordo, o melhor é deixar prevalecer o bom
senso. "Estudos sobre preparo físico estão sujeitos a mudanças
e servem para orientar as pessoas a achar a fórmula mais adequada
a seu biotipo e modo de vida", disse a VEJA William Haskell, criador da
fórmula mundialmente conhecida. "Não a idealizamos para
doentes ou atletas. Aliás, nunca dissemos que era verdade absoluta",
comenta Haskell, que disse ter assistido atônito à transformação
de seu estudo num dogma. Realmente não há como negar que
sua fórmula cumpriu um papel. Desde que a tabela passou a ilustrar
as academias de ginástica, as pessoas começaram a se preocupar
com algo mais do que a largura das passadas. Nos últimos dois anos,
praticantes de atividade física em todo o país passaram
a adornar o tórax com os freqüencímetros, aparelhos
que informam com precisão o número de batidas do coração.
A venda desses equipamentos pulou de dez unidades ao mês em 1994,
quando chegaram ao Brasil, para 250 numa única loja de São
Paulo. Sozinhos eles ajudam pouco. Cada esportista deve, com a ajuda de
seu médico, encontrar sua faixa de segurança de freqüência
cardíaca.
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