
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
A mão que
retoca
as obras do Louvre
Mestre
entre os restauradores,
brasileira cuida de preciosidades
no museu francês
Juliana
Saboia
Arquivo pessoal
 |
| Regina
Moreira: empolgação com desafios técnicos |
Há poucos meses, quando os conservadores do Museu de Arte de São
Paulo decidiram restaurar uma das jóias de sua coleção,
uma pintura do francês Nicolas Poussin, não tiveram dúvida
sobre onde fazer o serviço. O quadro Himeneu Travestido Durante
um Sacrifício a Priapo, pintado no século XVII e avaliado
em mais de 7 milhões de dólares, só poderia ser reparado
nas oficinas do Museu do Louvre, em Paris. Não apenas no Louvre,
mas por uma determinada restauradora, a baiana Regina da Costa Pinto Dias
Moreira. Ela é estrela de primeira grandeza na conservação
da maior coleção de arte do mundo, que inclui o Louvre e
outros 33 museus nacionais da França. Por suas mãos passaram
ícones da história da arte, como os renascentistas Rafael,
Ticiano e Botticelli. Regina também retocou artistas mais modernos
cuja simples menção tira o fôlego dos conhecedores,
como o espanhol Francisco Goya, o holandês Vincent van Gogh e os
impressionistas franceses Monet e Manet.
Girandon
 |
Quadros
tão valiosos só são confiados à mão
de restauradores selecionadíssimos um punhado entre dezenas
de profissionais à disposição do Louvre. Regina foi
estudar belas-artes na Espanha, em 1964, onde descobriu a vocação
para a restauração. Ali tocou pela primeira vez numa obra
de valor inestimável, uma pintura de Goya. Depois, fez estágio
no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa e no Instituto Real do Patrimônio
Artístico de Bruxelas, na Bélgica. Entrou para o Louvre
por concurso, em 1973, e não parou mais de aprimorar a perícia.
"Regina tem um retoque muito sensível e muito leve", elogia Nathalie
Volle, conservadora-chefe do Centro de Pesquisa e Restauração
dos Museus da França. "Ela domina de forma exemplar as técnicas
antigas de pintura." Há 37 de seus 57 anos na Europa, fez um único
trabalho no Brasil. Restaurou obras da coleção do conde
Francisco Matarazzo, em 1974. Não pergunte à restauradora
detalhes sobre o que foi feito. A ética da profissão proíbe
comentários desse tipo, que podem desvalorizar a obra. "A relação
do restaurador com a obra é tão íntima que você
acaba se tornando um co-autor", diz Regina.
Girandon
 |
A
ironia é que quanto mais imperceptível melhor é o
resultado do esforço do restaurador. No Louvre, tudo o que é
feito é devidamente documentado para que se saiba com exatidão
qual a intervenção efetuada. No caso das chamadas obras
sagradas aquelas de valor inestimável , o trabalho
é acompanhado por seguranças. No ateliê do Louvre,
historiadores, cientistas e restauradores operam em conjunto. Químicos
e físicos examinam e analisam o estado do quadro, produzindo um
dossiê científico que inclui fotos em infravermelho, ultravioleta
e radiografia. Se um quadro italiano do século XVI mostra um manto
azul, os raios ultravioleta permitem identificar o pigmento usado na fabricação
da tinta. "Italianos como Ghirlandaio e Veronese faziam o azul com pigmentos
obtidos do lápis-lazúli", explica a restauradora. "Para
retocar obras como essas, precisamos levar esses detalhes em consideração."
Depois dessa avaliação técnica, o que conta mesmo
é a mão do restaurador.
Quanto custa seu trabalho de expert? Isso depende do volume do serviço
a ser realizado, do grau de dificuldade e mesmo da importância da
peça. Regina garante que muitas vezes nem se preocupa com o pagamento,
pois se deixa arrebatar pelo desafio técnico da restauração.
Ela já teve em suas mãos o quadro Retrato do Dr. Gachet,
de Van Gogh, vendido por 82,5 milhões de dólares num leilão
em 1990, no entanto não o incluiu no currículo. Isso não
apenas porque mantém sigilo sobre reparos em obras de coleções
particulares, mas também porque "fiz uma coisinha à toa".
Uma pista sobre a remuneração do trabalho de um restaurador
de elite é dada pela preocupação do Masp em levantar
dinheiro para recuperar seu Poussin. "Por ser uma das maiores autoridades
em restauração da França, Regina é cara",
diz Luiz Marques, consultor da presidência do museu paulista. Estima-se
que o trabalho no quadro, o maior pintado por Poussin, com 1,67 metro
por 3,76 metros, fique entre 80.000 e 120.000 dólares.

VEJA também
|
|
|
|
|
|
 |
|
 |

|
 |