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Conduta
exemplar
Segundo especialistas, só as empresas
transparentes
sobrevivem no mercado
Joana
Calmon
A Johnson & Johnson anunciou nas últimas semanas que irá
pagar uma indenização de 860 milhões de dólares
aos consumidores das lentes de contato descartáveis 1-Day Acuvue.
O erro da companhia foi instruir os compradores a trocá-las diariamente.
Só que alguns testes em laboratórios mostraram que o artigo
poderia ser aproveitado por até duas semanas, sem perda de qualidade
nem prejuízo para os olhos. Episódios como esse ilustram
uma nova etapa de evolução do relacionamento entre as empresas
e os clientes. Num primeiro momento, surgiram as descrições
detalhadas dos ingredientes dos produtos nas embalagens e os serviços
de atendimento ao consumidor. Agora, os fabricantes estão sendo
obrigados a aperfeiçoar suas normas de conduta. Essa mudança
de cultura empresarial mereceu uma análise aprofundada no livro
Ética Empresarial: Dilemas, Tomadas de Decisões e Casos,
dos pesquisadores americanos O.C. Ferrell, John Fraedrich e Linda
Ferrell. Recém-lançada no Brasil, a obra sustenta que agir
de forma transparente é tão importante hoje quanto praticar
bons preços. Segundo os autores, as empresas que não rezam
por essa nova cartilha estão arriscadas a perder metade dos clientes
em cinco anos, metade dos funcionários em quatro e metade dos investidores
em menos de um ano.
O livro lista quinze exemplos de escorregões éticos cometidos
por grandes companhias nos últimos anos. Uma das situações
foi o derramamento de óleo do petroleiro Exxon Valdez, no
Alasca, em 1989, considerado o mais grave acidente ambiental de todos
os tempos. No primeiro momento, a Exxon tentou minimizar os efeitos do
vazamento. Quando viu que era impossível varrer para baixo do tapete
o saldo da catástrofe, a empresa prometeu limpar em alguns meses
os 2 000 quilômetros de praia atingidos pelo óleo. Até
hoje, porém, a área apresenta sinais de sujeira. Outro caso
que criou enorme polêmica foi o dos implantes de silicone da Dow
Corning, empresa americana que se tornou alvo de milhares de ações
de indenização na década de 90 por fabricar próteses
mamárias que trariam riscos à saúde das pacientes.
Durante a pendenga judicial, os advogados de acusação descobriram
que, antes do lançamento do produto, a companhia sabia que a matéria-prima
poderia endurecer e vazar depois do implante, provocando dores e alterando
o formato dos seios. Com a reputação irremediavelmente arranhada,
a Dow Corning pagou o que devia e fechou as portas.
Por causa de episódios como esse, têm crescido os investimentos
das empresas na elaboração de manuais de conduta, na contratação
de consultores especializados e no treinamento de funcionários.
Congressos sobre o tema são realizados com regularidade em diversas
partes do mundo. No Brasil foi criado recentemente um ranking que avalia
as companhias de acordo com seu desempenho no campo da ética dos
negócios. Elaborado pela Fundação Getúlio
Vargas, o trabalho analisou vinte corporações, na maioria
multinacionais, que receberam notas de 1 a 7 de acordo com sua postura
em relação aos clientes, consumidores e fornecedores. Na
média, elas ficaram com o conceito de 5,3 entre regular
e bom. A mais bem colocada foi a fabricante de hardware Hewlett-Packard,
a HP, que recebeu nota 5,8. "Tratar bem os empregados, manter a qualidade
do produto, ser sincero com o consumidor e cumprir compromissos com clientes
e fornecedores são atitudes fundamentais à sobrevivência
da empresa", afirma Maria Cecilia Coutinho de Arruda, responsável
pelo estudo e professora da Fundação Getúlio Vargas.
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