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Edição 1 699 - 9 de maio de 2001
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Com dia marcado
para morrer

Circo em torno da execução do
responsável pelo maior atentado
da
História dos Estados Unidos
alimenta polêmica da pena de morte

José Eduardo Barella

Os 60.000 moradores de Terre Haute, sonolenta cidade no Estado de Indiana, já estão contando os dias para o maior evento de sua história. Milhares de manifestantes, jornalistas e curiosos deverão espremer-se do lado de fora da penitenciária federal e o comércio local espera faturar com a venda de camisetas, chaveiros e bonés. É nesse clima de quermesse que os Estados Unidos se preparam para executar Timothy McVeigh, de 33 anos, autor do maior atentado terrorista da história do país. Há seis anos, ele explodiu um prédio do governo federal na cidade de Oklahoma, matando 168 pessoas e ferindo 700. Às 7 horas da manhã da quarta-feira da semana que vem, o terrorista vai pagar a conta, amarrado a uma maca na câmara da morte do presídio. Ele deverá receber três injeções – 5 gramas do anestésico pentotal sódico, 50 mililitros do relaxante muscular brometo de pancurônio, que interrompe a respiração, e, por fim, uma dose de 50 mililitros de cloreto de potássio, que pára o coração. A morte deverá ocorrer em cerca de um minuto.

McVeigh já conseguiu uma proeza. É o condenado que mais atraiu o ódio dos americanos desde a restituição da pena capital, em 1976. De lá para cá, foram 710 execuções. Em geral, os inimigos da pena de morte transformam o condenado num mártir, por pior que seja seu crime. Não é o caso desta vez. Arrogante, o terrorista não demonstra arrependimento por seu ato bárbaro, que justifica como uma vingança contra a repressão do governo a grupos radicais de extrema direita. Nas últimas semanas, passou a ironizar a execução, "um suicídio assistido pelo Estado". Até seu pai, Bill McVeigh, admitiu: "Como perdoar alguém que matou 168 pessoas?". O governo americano fez um sorteio entre os familiares das vítimas interessados em assistir à agonia do assassino. Trinta estarão no presídio. Outros 250 vão acompanhar a execução em Oklahoma por um circuito fechado de TV. Será a maior platéia desde que as execuções públicas foram suspensas, em 1936.

Doido para se tornar um mártir para outros alucinados de extrema direita, McVeigh chegou a propor que sua morte seja transmitida para todo o país. Um site de internet tentou, em vão, autorização da Justiça para mostrar a execução on-line. Com suas bravatas e ironias, McVeigh deixou numa situação embaraçosa o barulhento lobby contrário à pena de morte, que vinha propondo um debate revisionista baseado em argumentos técnicos. O surgimento de recursos modernos de investigação, como os testes de DNA, além de falhas processuais, já levou a Justiça a reverter 93 condenações à morte, colocando em xeque a eficiência do sistema. Hoje, dezesseis dos 38 Estados americanos que a adotam estudam reavaliá-las.

A pesquisa mais recente mostra que 67% dos americanos permanecem favoráveis à pena de morte. Em 1994 eram 80%. Mas com McVeigh a história é diferente: 71% acham que ele deve morrer. Mesmo porque teve direito a se defender num julgamento público e não há dúvida quanto a sua culpa. Essa é a diferença entre a pena de morte, uma condenação polêmica mas prevista na legislação, e a justiça com as próprias mãos, dos fuzilamentos sumários em países pouco atentos aos procedimentos judiciais. A ferida aberta por McVeigh explica a postura irredutível dos americanos quanto à execução. O atentado de Oklahoma ocorreu na manhã de 19 de abril de 1995. McVeigh estacionou uma caminhonete alugada com 2.000 quilos de explosivos na garagem do prédio do governo. Acionou a bomba, saiu a pé tranqüilamente e, enquanto virava a esquina, o edifício desmoronava. Preso dois dias depois, assumiu a responsabilidade pelo ataque, mas fechou-se em silêncio. Guardou os detalhes para o plano que bolou para forjar a imagem de herói de uma causa insana. Primeiro, recusou-se a apelar da condenação. Depois, contou sua versão num livro lançado oportunamente há um mês, que virou best-seller. Nele, destila seu ódio paranóico contra o governo, assegura ter agido sozinho e não mostra arrependimento nem por ter causado a morte de dezenove crianças de uma creche, "um efeito colateral que ofuscou a minha causa".

Os americanos ainda se perguntam como um jovem de família de classe média, que teve amigos e namoradas, se transformou num terrorista cruel. Seu perfil em nada lembra o dos fanáticos taciturnos que promovem matanças sem nenhum motivo em lugares distantes, como o Oriente Médio. O governo americano, porém, está preocupado com a possibilidade de vingança após a execução. "Temos evidências de que grupos radicais pretendem realizar atos terroristas como forma de protesto pela morte de McVeigh. Para esses grupos, a morte dele é a prova final de que o governo não tem jeito", disse a VEJA o especialista Bruce Hoffman, autor do livro Inside Terrorism (Por Dentro do Terrorismo).

 
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Dos arquivos de VEJA
  Confissões do assassino
Reportagem de VEJA de 04/04/2001 sobre as confissões do terrorista de Oklahoma

 

 
 
   
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