Edição 1 635 -9/2/2000

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O texto e o contexto das leis

"Sem uma mudança de mentalidade das burocracias dirigistas, o Brasil não alcançará as economias de escala necessárias para ser um player internacional respeitável"

 

Ilustração: Alê Setti
Há trágicas coincidências no Brasil. A proporção de mortes por crime (com uso de armas) é igual à dos acidentes de trânsito. Já temos uma lei bastante restritiva sobre compra e porte de armas. Mas os bandidos não compram armas registradas em lojas. Obtêm-nas pelo contrabando, como subproduto do tráfico de drogas. Estima-se existirem no país 1.200 pistas de pouso clandestinas, principalmente nas áreas fronteiriças. Talvez o projeto Sivam, que permitirá a supervisão por satélite do contrabando de drogas e armas, contribua mais para a repressão da violência do que o projeto governamental de desarmamento de cidadãos inocentes. Não há correlação entre população civil armada e violência homicida, como o provam Suíça e Israel. Pesquisadores da Universidade de Chicago concluíram que, nos 31 Estados americanos em que se permite a adultos mentalmente sãos e sem antecedentes criminais o porte de armas, a taxa de homicídios era inferior à dos demais. A insuportável violência que aflige nosso país tem causas complexas: tráfico de drogas, contrabando de armas, impunidade pela incompetência investigativa e tolerância para reincidentes, desemprego, corrupção policial e desintegração das famílias. Talvez a venda e a posse de armas, com identificação e registro, incomodem mais os bandidos do que uma lei severíssima que desarme as vítimas.

Se há leis que "não pegam", há leis que "pegam demais" pela mudança de contexto. É o caso de nossa legislação antitruste, concebida em 1962 numa economia fechada e inflacionista. Os conceitos de "participação no mercado" ou "posição dominante da empresa" eram relevantes. Numa economia globalizada eles perdem importância relativa porque os desafios à "posição dominante" podem vir de fora do país. A flexibilidade das tarifas de importação passa a ser instrumento mais importante que o fatiamento da capacidade produtiva interna, imposta pela ação das burocracias dirigistas, como a Seae e a SDE.

A globalização faz com que a política antitruste gire em torno de novos conceitos, como: contestabilidade, substitutibilidade, importabilidade e essencialidade. Além disso, na estratégia econômica, tem-se de levar em conta os ganhos de escala atingíveis mediante fusões e incorporações, pois só assim o Brasil passará da integração "passiva" (receber empresas multinacionais) para a integração ativa (criar as próprias multinacionais). Paradoxalmente, a legislação do Cade ficou adormecida na época em que poderia ser útil e está sendo energizada agora, quando precisa ser flexibilizada, à luz da globalização comercial. Compreende-se a apatia anterior. A legislação era fundamentalmente hipócrita, pois o governo era o principal monopolista, por meio de suas várias "brás" – Petrobras, Telebrás etc. E o monopólio público é o pior dos monopólios por ser legalmente "incontestável" e economicamente "indesafiável" por contribuintes amedrontados.

Surpreende-me a reação que provocou, nesta era de globalização, a proposta da AmBev de fusão das cervejarias Antarctica e Brahma. A indústria é "contestável" pelo ingresso de competidores nacionais ou estrangeiros. O produto é altamente "substituível"; em caso de abuso de preços perderia mercado para competidores, que já dispõem de redes independentes de distribuição, ou ainda para refrigerantes e "tubaínas". O produto é facilmente "importável", podendo o governo a qualquer momento baixar as alíquotas de importação. Muito mais prioritário para a economia nacional seria investigar a cartelização do cimento, produto de baixa importabilidade, alta essencialidade e baixíssima substitutibilidade. Ou então acabar com monopólios residuais, como o do correio e o de resseguros, que ganhariam eficiência sob o acicate da concorrência.

Há duas vantagens na fusão AmBev. A primeira vem da sinergia no processo, com ganhos de produtividade que a competição repartirá com os consumidores. A segunda vem da criação de uma multinacional brasileira, com impacto no comércio mundial, pois seria o terceiro grupo cervejeiro do mundo. Em vez de lacrimejar contra as multinacionais, o negócio para o Brasil é criar as próprias multinacionais. O BNDES já percebeu o problema e está abrindo uma linha de crédito para encorajar a implantação de empresas brasileiras no exterior. Sem uma mudança de mentalidade das burocracias dirigistas, o Brasil não alcançará as economias de escala necessárias para ser um player internacional respeitável.

 

Roberto Campos, economista e diplomata, foi deputado federal, senador e ministro do Planejamento