Topless, um enigma
do nosso tempo
Qual seu significado
profundo?
A verdade é que ele não veio para
esclarecer, mas para confundir
A que veio o topless? Seria ele libertador ou opressor?
Significaria avanço ou recuo, na causa da mulher?
Visto de certo ângulo é avanço, visto
de outro é recuo. O topless é um enigma de
nosso tempo. Costumava-se dizer que urna, barriga de mulher
e cabeça de juiz nunca se sabe o que contêm.
O progresso desmoralizou o velho adágio. As pesquisas
de opinião permitem conhecer com razoável
segurança o que contêm, ou conterão,
as urnas. O ultra-som pôs ponto final ao segredo da
barriga da grávida. Resta a cabeça do juiz,
mas não se perde por esperar... a súmula vinculante
promete torná-la mais previsível. Já
o topless é o contrário. Não tem nada
de urna, nem de barriga de grávida. Nada esconde.
Em vez disso mostra, abre, escancara. E no entanto contém
um enigma. Qual seu significado profundo? O topless, esta
é a verdade, veio para confundir.
Senão, vejamos. O topless é libertador quando
considerado à luz de que tudo o que solta, tudo o
que destrava, o que desinibe e estoura convenções,
é libertador. No mesmo momento em que cai aquela
singela tirinha de cima, desaba uma carga de alguns milhares
de anos de mistificação em torno do seio feminino,
ora santificado como matriz da nutrição, ora
demonizado como território da perdição
e, por um ou outro motivo, mantido enrolado, embrulhado,
empacotado, estigmatizado como proibido ou condenado como
pecaminoso. Soltá-lo à brisa do mar e à
carícia da areia seria como tirar o preso do cárcere.
Premiá-lo com a vida e a inocência primitiva.
Além do mais, se o homem pode ir à praia sem
cobrir o peito, por que não a mulher?
Na década de 60, as feministas queimaram os sutiãs
no mesmo quadro de quebra de amarras. Há toda uma
série de peças do vestuário feminino
cuja eliminação significou, cada uma delas,
um passo no rumo da libertação. Assim a anágua
e o espartilho. Não por acaso, como metáfora
para a condição da mulher, trata-se de peças
que amarravam, prendiam, trancafiavam. Em matéria
de trajes de banho foi-se, nos últimos cinqüenta
anos, do maiô inteiriço ao biquíni,
do biquíni ao biquininho, do biquininho ao fio-dental,
daí ao topless. É um avanço, sem dúvida.
Contínuo e inexorável. Ou não?
Não. O topless não é avanço,
mas recuo, na luta da mulher, se considerado pela exclusiva
face de artifício de sedução. Se depois
do decote, depois das transparências e do bustiê,
numa escalada infrene, apresenta-se agora o peito aberto
como chamariz para o olhar e o desejo do homem, então
é porque a mulher ainda uma vez deixa-se conduzir
pelo interesse em agradá-lo e conquistá-lo.
É a dependência de sempre sob nova roupagem
ou falta de roupagem. Pode-se argumentar que a sedução
é parte indispensável da comunicação
homem-mulher e que a luta da mulher pela igualdade não
objetiva revogá-la. De acordo. O problema é
o excesso. Ou melhor: a obsessão. Se a mulher antes
passava o dia a vestir-se para agradar ao homem e hoje passa
o dia despida pela mesma razão, mudou a estratégia,
mas não o objetivo. Ela permanece obcecada pela sedução.
Ou melhor: continuam a mantê-la obcecada pela sedução,
o que é maneira de conservá-la, ainda uma
vez e sempre, dependente.
Época de paradoxos, esta nossa. Nunca as mulheres
conheceram tantos avanços. Estão em todas
as profissões e nos governos. Ao mesmo tempo, no
Brasil, nunca tiveram tantas oportunidades de ascensão
utilizando-se exatamente das armas femininas tradicionais
rosto e corpo. As meninas hoje querem ser modelos.
No mínimo, querem ser garotas do tchan. No caso do
topless, há a agravante de, no Brasil, ele iniciar-se
sob o império da lei masculina. Pratica-o quem pode,
eis o que mais se tem dito sobre o assunto, e não
apenas como gracinha de mesa de bar. Mostra quem tem o que
mostrar. Qual seja, há um vestibular, cuja nota de
corte é o poder de satisfazer os homens. São
eles que impõem as regras do jogo, originando mais
uma clivagem entre as mulheres, além da existente
entre as feias e as bonitas, ou entre as jovens e as maduras
a das que podem ou não praticar o topless.
Mas...
Mas o topless e advirta-se, a quem ainda não
percebeu, que estas linhas não se propõem
a expor certezas, só dúvidas pode ter
um efeito benéfico. Pode ajudar a curar a mania masculina
por mais um item da anatomia feminina. Já houve mania
por tornozelos, e a exposição deles curou-a.
Idem no caso de braços e colos. Quem sabe o topless
resolva a mania por seios, quer na encarnação
de sacrossanta matriz nutriente, quer na de fonte dos pecados?
Fala-se aqui em "mania", grave-se bem, não atração,
que é bom não acabar nunca. Quem sabe o topless
venha a fazer pelos seios o que o fio-dental fez pelo traseiro?
Há sérios indícios de que o fio-dental,
ao banalizar o traseiro, passou a funcionar como vacina
contra a mania nacional por este artigo, dentro do mesmo
princípio medicinal do "similia similibus curantur",
ou seja, para curar o veneno da cobra, nada melhor que o
próprio veneno da cobra. Depois do fio-dental, para
chamar a atenção, os bumbuns têm rebolado.
E como... Não pode ser por outra razão.