Edição 1 635 - 9/2/2000

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Topless, um enigma
do nosso tempo

Qual seu significado profundo?
A verdade é que ele não veio para
esclarecer, mas para confundir

A que veio o topless? Seria ele libertador ou opressor? Significaria avanço ou recuo, na causa da mulher? Visto de certo ângulo é avanço, visto de outro é recuo. O topless é um enigma de nosso tempo. Costumava-se dizer que urna, barriga de mulher e cabeça de juiz nunca se sabe o que contêm. O progresso desmoralizou o velho adágio. As pesquisas de opinião permitem conhecer com razoável segurança o que contêm, ou conterão, as urnas. O ultra-som pôs ponto final ao segredo da barriga da grávida. Resta a cabeça do juiz, mas não se perde por esperar... a súmula vinculante promete torná-la mais previsível. Já o topless é o contrário. Não tem nada de urna, nem de barriga de grávida. Nada esconde. Em vez disso mostra, abre, escancara. E no entanto contém um enigma. Qual seu significado profundo? O topless, esta é a verdade, veio para confundir.

Senão, vejamos. O topless é libertador quando considerado à luz de que tudo o que solta, tudo o que destrava, o que desinibe e estoura convenções, é libertador. No mesmo momento em que cai aquela singela tirinha de cima, desaba uma carga de alguns milhares de anos de mistificação em torno do seio feminino, ora santificado como matriz da nutrição, ora demonizado como território da perdição e, por um ou outro motivo, mantido enrolado, embrulhado, empacotado, estigmatizado como proibido ou condenado como pecaminoso. Soltá-lo à brisa do mar e à carícia da areia seria como tirar o preso do cárcere. Premiá-lo com a vida e a inocência primitiva. Além do mais, se o homem pode ir à praia sem cobrir o peito, por que não a mulher?

Na década de 60, as feministas queimaram os sutiãs no mesmo quadro de quebra de amarras. Há toda uma série de peças do vestuário feminino cuja eliminação significou, cada uma delas, um passo no rumo da libertação. Assim a anágua e o espartilho. Não por acaso, como metáfora para a condição da mulher, trata-se de peças que amarravam, prendiam, trancafiavam. Em matéria de trajes de banho foi-se, nos últimos cinqüenta anos, do maiô inteiriço ao biquíni, do biquíni ao biquininho, do biquininho ao fio-dental, daí ao topless. É um avanço, sem dúvida. Contínuo e inexorável. Ou não?

Não. O topless não é avanço, mas recuo, na luta da mulher, se considerado pela exclusiva face de artifício de sedução. Se depois do decote, depois das transparências e do bustiê, numa escalada infrene, apresenta-se agora o peito aberto como chamariz para o olhar e o desejo do homem, então é porque a mulher ainda uma vez deixa-se conduzir pelo interesse em agradá-lo e conquistá-lo. É a dependência de sempre sob nova roupagem — ou falta de roupagem. Pode-se argumentar que a sedução é parte indispensável da comunicação homem-mulher e que a luta da mulher pela igualdade não objetiva revogá-la. De acordo. O problema é o excesso. Ou melhor: a obsessão. Se a mulher antes passava o dia a vestir-se para agradar ao homem e hoje passa o dia despida pela mesma razão, mudou a estratégia, mas não o objetivo. Ela permanece obcecada pela sedução. Ou melhor: continuam a mantê-la obcecada pela sedução, o que é maneira de conservá-la, ainda uma vez e sempre, dependente.

Época de paradoxos, esta nossa. Nunca as mulheres conheceram tantos avanços. Estão em todas as profissões e nos governos. Ao mesmo tempo, no Brasil, nunca tiveram tantas oportunidades de ascensão utilizando-se exatamente das armas femininas tradicionais — rosto e corpo. As meninas hoje querem ser modelos. No mínimo, querem ser garotas do tchan. No caso do topless, há a agravante de, no Brasil, ele iniciar-se sob o império da lei masculina. Pratica-o quem pode, eis o que mais se tem dito sobre o assunto, e não apenas como gracinha de mesa de bar. Mostra quem tem o que mostrar. Qual seja, há um vestibular, cuja nota de corte é o poder de satisfazer os homens. São eles que impõem as regras do jogo, originando mais uma clivagem entre as mulheres, além da existente entre as feias e as bonitas, ou entre as jovens e as maduras — a das que podem ou não praticar o topless. Mas...

Mas o topless — e advirta-se, a quem ainda não percebeu, que estas linhas não se propõem a expor certezas, só dúvidas — pode ter um efeito benéfico. Pode ajudar a curar a mania masculina por mais um item da anatomia feminina. Já houve mania por tornozelos, e a exposição deles curou-a. Idem no caso de braços e colos. Quem sabe o topless resolva a mania por seios, quer na encarnação de sacrossanta matriz nutriente, quer na de fonte dos pecados? Fala-se aqui em "mania", grave-se bem, não atração, que é bom não acabar nunca. Quem sabe o topless venha a fazer pelos seios o que o fio-dental fez pelo traseiro? Há sérios indícios de que o fio-dental, ao banalizar o traseiro, passou a funcionar como vacina contra a mania nacional por este artigo, dentro do mesmo princípio medicinal do "similia similibus curantur", ou seja, para curar o veneno da cobra, nada melhor que o próprio veneno da cobra. Depois do fio-dental, para chamar a atenção, os bumbuns têm rebolado. E como... Não pode ser por outra razão.