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Medo de dentista?
Chega ao Brasil o gel que promete
dissolver a cárie sem precisar de motor
Rachel Campello
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Tratamento de cárie com gel: mais caro
e demorado, mas sem dor
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Imagine sentar na cadeira do dentista, abrir a boca, ter
uma cárie obturada e não ouvir o barulho nem
sentir a ação do motor furando o dente. Foi
um sonho de gerações. Agora, existe uma alternativa.
Um gel cor-de-rosa inventado na Suécia desembarcou
no Brasil na semana passada, durante o 19º Congresso
Internacional de Odontologia, em São Paulo, com a
promessa de tratar das cáries sem precisar de motor
nem de anestesia, tudo isso com garantia de resultado sem
dor. O diabólico assobio agudo da broca perfurando
o dente não foi totalmente descartado, mas ele só
entra em ação na hora de aplicar a restauração.
"Nada elimina por inteiro o uso da broca ou da anestesia",
explica o dentista Carlos Dotto, assessor científico
da empresa sueca que fabrica o produto. "Mas o uso do gel
diminui a necessidade de métodos invasivos no tratamento
da cárie."
O gel começa a ser divulgado e usado na Europa,
no Japão e na América Latina. Nos Estados
Unidos, ainda depende de autorização da agência
oficial que cuida de remédios para ser liberado.
No Brasil, já foi aprovado e agora começa
a ser utilizado nos consultórios. Sua aplicação
é fácil e rápida. Munido de uma cureta,
aquele aparelhinho com um ganchinho na ponta, o dentista
aplica um pouco de gel na área cariada, sempre localizada
na dentina, como é chamada a área do dente
atrás do esmalte. Em cerca de trinta segundos, o
gel, uma mistura de hipoclorito de sódio com aminoácidos,
passa do rosa original a uma cor amarronzada, indicando
que o produto já conseguiu amolecer a dentina cariada.
O dentista remove todo o material amolecido e reaplica o
gel, até ele não mais mudar de cor sinal
de que toda a cárie foi removida. Dependendo do tamanho
dela, o processo pode demorar o dobro do tempo do método
tradicional, com broca e anestesia. Mas quem se importa?
"É o fim da agressão com o motor. Fiquei impressionado
com a facilidade", elogia o consultor Mário Sérgio
Bigongiari, de São Paulo, um medroso assumido diante
da dor nos tratamentos dentários em geral.
O gel não atua sobre a parte sã do dente
sua composição só reage com a parte
estragada da dentina. O risco de dor é nulo, porque
a cárie é removida com um instrumento manual
que não pressiona, não trepida e não
mexe, como faz o motor, com as várias terminações
nervosas existentes na dentina a causa dos lancinantes
gemidos de boca aberta. Encerrada a remoção
da cárie, o dentista passa à restauração
e aí pode precisar da broca para "esculpir" melhor
a área a ser preenchida. Esta, no entanto, é
uma invasão muito mais suave. A única dor,
no caso, seria no bolso o produto é importado
e tratar a cárie com ele custa 10% mais que pelo
método tradicional. "Queremos produzi-lo aqui em
menos de um ano", diz o dentista Hiran Simonato, coordenador
científico do laboratório que distribui o
gel no Brasil. "A intenção é que venha
a ser usado em larga escala."
Nem todos os dentistas pretendem aderir ao gel, e o motivo
mais citado é o tempo maior que leva para remover
a cárie. "Não vejo benefício no dia-a-dia.
Só acho indicado para crianças ou pacientes
difíceis", diz Wilson Garone Filho, professor da
Universidade de São Paulo. Pacientes difíceis
são provavelmente todos os pacientes que precisam
enfrentar a broca. Ninguém aceitará o argumento
de que perderá um pouco mais de tempo no tratamento
com o gel. Felizmente para as crianças, elas estão
se livrando do motor pelo trabalho de prevenção
que vem sendo realizado no Brasil. Hoje, na faixa etária
de 12 anos, a média nacional é de três
cáries, contra oito no início da década
de 90. Com flúor na água e nas pastas de dente,
mais informação sobre higiene bucal e prevenção
desde pequenininho, a maioria dos filhos das famílias
de algum poder aquisitivo nunca teve uma cárie na
vida. "O ideal é eliminar a cárie. Nós
ainda não chegamos lá, mas já atingimos
a meta estabelecida pela Organização Mundial
de Saúde", diz Antônio Luiz Mamede Neto, diretor
da Associação Paulista de Cirurgiões
Dentistas. Para quem já está mais crescidinho
e ainda precisa enfrentar a tortura do motor, o aparecimento
do gel é uma boa notícia.
Tratamento com menos stress

O gel que dissolve a cárie é
a mais recente de uma série de mudanças
no tratamento dentário destinadas a melhorar
a vida de quem senta na cadeira do dentista. O primeiro
avanço em relação ao motor tradicional
ocorreu há seis anos, quando começou
a ser usada a remoção da cárie
a ar: um jato potente, turbinado por um abrasivo e
acoplado ao motor, limpa a área cariada por
pressão sem provocar dor. Desvantagens: espalha
uma nuvem de pó sobre o paciente e só
funciona nas cáries bem visíveis. A
grande revolução no tratamento dos dentes,
como de resto em todas as áreas da medicina,
é o uso do laser, método rápido
e preciso que desintegra a cárie, poupa o esmalte
e limpa o local para a restauração,
tudo sem anestesia. Desvantagens: não pode
ser usado em cáries mais profundas, daquelas
que exigem restauração de metal, e é
ainda muito caro.
Correndo paralelamente aos avanços no tratamento
das cáries, o próprio motor se torna
cada vez mais preciso e eficiente (infelizmente, continua
barulhento e sua aplicação, cada vez
menos traumática, ainda dói muito).
No início do século XIX, ele funcionava
manualmente e exigia certo malabarismo: o dentista
encostava a broca (a ponta removível) no dente
e girava uma manivela para acioná-la. O motor
com pedal facilitou o processo, mas o tratamento continuava
complicado. Em 1910, surgiu o primeiro motor elétrico,
que quase cinqüenta anos depois ganhou alta rotação
e muito mais eficiência. Mesmo assim, ainda
era um aparelho grande e desajeitado, de difícil
mobilidade. O design só foi dar um salto de
qualidade significativo na década de 70, quando
surgiu o motor em forma de caneta. Na última
década, esse modelo foi aprimorado com a instalação
de uma luz na ponta. Ou seja: imóvel na cadeira,
de boca aberta, ouvindo e sentindo aquele zunido estressante,
o paciente pelo menos não precisa mais agüentar
uma luz forte dirigida para seu rosto. Já é
alguma coisa. O gel que dissolve a cárie é
a mais recente de uma série de mudanças
no tratamento dentário destinadas a melhorar
a vida de quem senta na cadeira do dentista. O primeiro
avanço em relação ao motor tradicional
ocorreu há seis anos, quando começou
a ser usada a remoção da cárie
a ar: um jato potente, turbinado por um abrasivo e
acoplado ao motor, limpa a área cariada por
pressão sem provocar dor. Desvantagens: espalha
uma nuvem de pó sobre o paciente e só
funciona nas cáries bem visíveis. A
grande revolução no tratamento dos dentes,
como de resto em todas as áreas da medicina,
é o uso do laser, método rápido
e preciso que desintegra a cárie, poupa o esmalte
e limpa o local para a restauração,
tudo sem anestesia. Desvantagens: não pode
ser usado em cáries mais profundas, daquelas
que exigem restauração de metal, e é
ainda muito caro.
Correndo paralelamente aos avanços no tratamento
das cáries, o próprio motor se torna
cada vez mais preciso e eficiente (infelizmente, continua
barulhento e sua aplicação, cada vez
menos traumática, ainda dói muito).
No início do século XIX, ele funcionava
manualmente e exigia certo malabarismo: o dentista
encostava a broca (a ponta removível) no dente
e girava uma manivela para acioná-la. O motor
com pedal facilitou o processo, mas o tratamento continuava
complicado. Em 1910, surgiu o primeiro motor elétrico,
que quase cinqüenta anos depois ganhou alta rotação
e muito mais eficiência. Mesmo assim, ainda
era um aparelho grande e desajeitado, de difícil
mobilidade. O design só foi dar um salto de
qualidade significativo na década de 70, quando
surgiu o motor em forma de caneta. Na última
década, esse modelo foi aprimorado com a instalação
de uma luz na ponta. Ou seja: imóvel na cadeira,
de boca aberta, ouvindo e sentindo aquele zunido estressante,
o paciente pelo menos não precisa mais agüentar
uma luz forte dirigida para seu rosto. Já é
alguma coisa.
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