Edição 1 635 -9/2/2000

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Medo de dentista?

Chega ao Brasil o gel que promete
dissolver a cárie sem precisar de motor

Rachel Campello

 

Tratamento de cárie com gel: mais caro e demorado, mas sem dor

Imagine sentar na cadeira do dentista, abrir a boca, ter uma cárie obturada e não ouvir o barulho nem sentir a ação do motor furando o dente. Foi um sonho de gerações. Agora, existe uma alternativa. Um gel cor-de-rosa inventado na Suécia desembarcou no Brasil na semana passada, durante o 19º Congresso Internacional de Odontologia, em São Paulo, com a promessa de tratar das cáries sem precisar de motor nem de anestesia, tudo isso com garantia de resultado sem dor. O diabólico assobio agudo da broca perfurando o dente não foi totalmente descartado, mas ele só entra em ação na hora de aplicar a restauração. "Nada elimina por inteiro o uso da broca ou da anestesia", explica o dentista Carlos Dotto, assessor científico da empresa sueca que fabrica o produto. "Mas o uso do gel diminui a necessidade de métodos invasivos no tratamento da cárie."

O gel começa a ser divulgado e usado na Europa, no Japão e na América Latina. Nos Estados Unidos, ainda depende de autorização da agência oficial que cuida de remédios para ser liberado. No Brasil, já foi aprovado e agora começa a ser utilizado nos consultórios. Sua aplicação é fácil e rápida. Munido de uma cureta, aquele aparelhinho com um ganchinho na ponta, o dentista aplica um pouco de gel na área cariada, sempre localizada na dentina, como é chamada a área do dente atrás do esmalte. Em cerca de trinta segundos, o gel, uma mistura de hipoclorito de sódio com aminoácidos, passa do rosa original a uma cor amarronzada, indicando que o produto já conseguiu amolecer a dentina cariada. O dentista remove todo o material amolecido e reaplica o gel, até ele não mais mudar de cor – sinal de que toda a cárie foi removida. Dependendo do tamanho dela, o processo pode demorar o dobro do tempo do método tradicional, com broca e anestesia. Mas quem se importa? "É o fim da agressão com o motor. Fiquei impressionado com a facilidade", elogia o consultor Mário Sérgio Bigongiari, de São Paulo, um medroso assumido diante da dor nos tratamentos dentários em geral.

O gel não atua sobre a parte sã do dente – sua composição só reage com a parte estragada da dentina. O risco de dor é nulo, porque a cárie é removida com um instrumento manual que não pressiona, não trepida e não mexe, como faz o motor, com as várias terminações nervosas existentes na dentina – a causa dos lancinantes gemidos de boca aberta. Encerrada a remoção da cárie, o dentista passa à restauração e aí pode precisar da broca para "esculpir" melhor a área a ser preenchida. Esta, no entanto, é uma invasão muito mais suave. A única dor, no caso, seria no bolso – o produto é importado e tratar a cárie com ele custa 10% mais que pelo método tradicional. "Queremos produzi-lo aqui em menos de um ano", diz o dentista Hiran Simonato, coordenador científico do laboratório que distribui o gel no Brasil. "A intenção é que venha a ser usado em larga escala."

Nem todos os dentistas pretendem aderir ao gel, e o motivo mais citado é o tempo maior que leva para remover a cárie. "Não vejo benefício no dia-a-dia. Só acho indicado para crianças ou pacientes difíceis", diz Wilson Garone Filho, professor da Universidade de São Paulo. Pacientes difíceis são provavelmente todos os pacientes que precisam enfrentar a broca. Ninguém aceitará o argumento de que perderá um pouco mais de tempo no tratamento com o gel. Felizmente para as crianças, elas estão se livrando do motor pelo trabalho de prevenção que vem sendo realizado no Brasil. Hoje, na faixa etária de 12 anos, a média nacional é de três cáries, contra oito no início da década de 90. Com flúor na água e nas pastas de dente, mais informação sobre higiene bucal e prevenção desde pequenininho, a maioria dos filhos das famílias de algum poder aquisitivo nunca teve uma cárie na vida. "O ideal é eliminar a cárie. Nós ainda não chegamos lá, mas já atingimos a meta estabelecida pela Organização Mundial de Saúde", diz Antônio Luiz Mamede Neto, diretor da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas. Para quem já está mais crescidinho e ainda precisa enfrentar a tortura do motor, o aparecimento do gel é uma boa notícia.

 

 

Tratamento com menos stress


O gel que dissolve a cárie é a mais recente de uma série de mudanças no tratamento dentário destinadas a melhorar a vida de quem senta na cadeira do dentista. O primeiro avanço em relação ao motor tradicional ocorreu há seis anos, quando começou a ser usada a remoção da cárie a ar: um jato potente, turbinado por um abrasivo e acoplado ao motor, limpa a área cariada por pressão sem provocar dor. Desvantagens: espalha uma nuvem de pó sobre o paciente e só funciona nas cáries bem visíveis. A grande revolução no tratamento dos dentes, como de resto em todas as áreas da medicina, é o uso do laser, método rápido e preciso que desintegra a cárie, poupa o esmalte e limpa o local para a restauração, tudo sem anestesia. Desvantagens: não pode ser usado em cáries mais profundas, daquelas que exigem restauração de metal, e é ainda muito caro.

Correndo paralelamente aos avanços no tratamento das cáries, o próprio motor se torna cada vez mais preciso e eficiente (infelizmente, continua barulhento e sua aplicação, cada vez menos traumática, ainda dói muito). No início do século XIX, ele funcionava manualmente e exigia certo malabarismo: o dentista encostava a broca (a ponta removível) no dente e girava uma manivela para acioná-la. O motor com pedal facilitou o processo, mas o tratamento continuava complicado. Em 1910, surgiu o primeiro motor elétrico, que quase cinqüenta anos depois ganhou alta rotação e muito mais eficiência. Mesmo assim, ainda era um aparelho grande e desajeitado, de difícil mobilidade. O design só foi dar um salto de qualidade significativo na década de 70, quando surgiu o motor em forma de caneta. Na última década, esse modelo foi aprimorado com a instalação de uma luz na ponta. Ou seja: imóvel na cadeira, de boca aberta, ouvindo e sentindo aquele zunido estressante, o paciente pelo menos não precisa mais agüentar uma luz forte dirigida para seu rosto. Já é alguma coisa. O gel que dissolve a cárie é a mais recente de uma série de mudanças no tratamento dentário destinadas a melhorar a vida de quem senta na cadeira do dentista. O primeiro avanço em relação ao motor tradicional ocorreu há seis anos, quando começou a ser usada a remoção da cárie a ar: um jato potente, turbinado por um abrasivo e acoplado ao motor, limpa a área cariada por pressão sem provocar dor. Desvantagens: espalha uma nuvem de pó sobre o paciente e só funciona nas cáries bem visíveis. A grande revolução no tratamento dos dentes, como de resto em todas as áreas da medicina, é o uso do laser, método rápido e preciso que desintegra a cárie, poupa o esmalte e limpa o local para a restauração, tudo sem anestesia. Desvantagens: não pode ser usado em cáries mais profundas, daquelas que exigem restauração de metal, e é ainda muito caro.

Correndo paralelamente aos avanços no tratamento das cáries, o próprio motor se torna cada vez mais preciso e eficiente (infelizmente, continua barulhento e sua aplicação, cada vez menos traumática, ainda dói muito). No início do século XIX, ele funcionava manualmente e exigia certo malabarismo: o dentista encostava a broca (a ponta removível) no dente e girava uma manivela para acioná-la. O motor com pedal facilitou o processo, mas o tratamento continuava complicado. Em 1910, surgiu o primeiro motor elétrico, que quase cinqüenta anos depois ganhou alta rotação e muito mais eficiência. Mesmo assim, ainda era um aparelho grande e desajeitado, de difícil mobilidade. O design só foi dar um salto de qualidade significativo na década de 70, quando surgiu o motor em forma de caneta. Na última década, esse modelo foi aprimorado com a instalação de uma luz na ponta. Ou seja: imóvel na cadeira, de boca aberta, ouvindo e sentindo aquele zunido estressante, o paciente pelo menos não precisa mais agüentar uma luz forte dirigida para seu rosto. Já é alguma coisa.