Edição 1 635 - 9/2/2000

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Ásia

O Muro da Coréia

O país marcado por uma guerra que não acabou
e no qual ainda sobrevive o fantasma da Guerra Fria

A finada Guerra Fria deixou um quisto encravado na Ásia: o conflito armado entre as duas Coréias, que em 25 de junho deste ano deve completar meio século. Como oficialmente ele não terminou, já entrou para a História como o terceiro mais longo de todos os tempos — só as Guerras Púnicas, entre Roma e Cartago, e a Guerra dos 100 Anos, entre França e Inglaterra, duraram mais. O auge da escalada militar ocorreu entre 1950 e 1953, envolveu a participação direta de duas grandes potências, Estados Unidos e China, e resultou num saldo de 3 milhões de mortos. Um armistício foi assinado para estancar a sanguinolência (garantido até hoje por 37.000 soldados americanos), sem que se chegasse a um acordo de paz formal. Desde então, vez por outra acontecem escaramuças entre a Coréia do Norte, que teima em ser comunista até a última palha de arroz, e a do Sul, hoje uma aluna aplicada das lições do capitalismo avançado. Assim como havia um Muro de Berlim, existe um Muro da Coréia: uma cerca de arame farpado, com aproximadamente 200 quilômetros de extensão, interpõe-se entre os adversários. É a fronteira mais vigiada — e explosiva — do mundo.

A península coreana é uma área de tensão permanente desde o início do século XX. De 1910 a 1945, foi ocupada pelos japoneses, que ali cometeram toda a sorte de atrocidades. Com a rendição do Japão na II Guerra, o país viu-se dividido em duas partes, no famoso paralelo 38: a do norte, sob a esfera de influência da União Soviética e China, e a do sul, protegida pelo guarda-chuva americano. Em 1950, a Coréia comunista invadiu a capitalista, detonando o início das hostilidades que se prolongariam por três anos. Desse período cruento sobraram a cerca de arame, os memoriais em homenagem aos que caíram em batalha e o filme M.A.S.H., do diretor americano Robert Altman, uma sátira para lá de cínica do assunto. A Guerra da Coréia pode não ter chegado ao fim no papel, mas tem um lado que pode ser considerado vencedor moral: a Coréia do Sul. A sociedade agrária e de estrutura semifeudal dos anos 40 transformou-se em uma nação industrializada, cuja população goza de ótimo nível de educação e padrão de vida. Nem mesmo os solavancos financeiros experimentados no final da década de 90 conseguiram derrubar esse Tigre Asiático. Passada a crise, a Coréia do Sul exibe agora uma das mais altas taxas de crescimento do planeta. Para a felicidade ser completa, só falta ela reformar seu sistema político viciado e corrupto, contra o qual explodem aquelas revoltas estudantis que invariavelmente são exibidas na televisão.

A pujança da parte capitalista ganha um brilho extra quando é comparada com a penúria do vizinho comunista. Um dos países mais fechados do mundo, a Coréia do Norte é um equívoco ideológico que produziu uma catástrofe humana. Até a década de 70, graças à generosidade interessada dos camaradas soviéticos e chineses, ela conseguiu tocar o barco de sua economia de molde socialista, ainda que mal e porcamente. Quando a fonte dos amigos poderosos secou, ficou impossível esconder a farsa montada pelo regime implantado por Kim II Sung, falecido em 1994, e que se perpetua na figura de seu filho, Kim Jong II, atual ditador do pedaço. A Coréia do Norte é, hoje, uma nação sem futuro, isolada do resto do mundo e faminta. Não bastasse o desastre provocado pela coletivização das terras — o preceito comunista que só resultou em colheitas magras e estatísticas fajutas —, enchentes seguidas arrasaram o país. Para se ter uma idéia, estima-se que nos últimos cinco anos a fome tenha causado a morte de mais de 2 milhões de pessoas. A tragédia é tamanha que a expectativa de vida, que em 1985 era de 74 anos, despencou em 1998 para 51 anos (veja quadro). Nem o Nordeste brasileiro exibe um quadro tão desolador. A escassez norte-coreana já adquiriu contornos geopolíticos: China e Rússia andam preocupadíssimas com a possibilidade de que hordas de famélicos norte-coreanos transbordem para seus territórios.

Lavagem cerebral A camarilha encastelada na capital, Pyongyang, mantém-se no poder por causa de uma repressão brutal a quem ousa apontar as suas mazelas. Quem não é morto ou segregado sofre lavagem cerebral. Martela-se dia e noite que a Coréia do Norte precisa manter-se unida para não ser destruída pelos terríveis inimigos externos (o resto da humanidade) e que seus líderes são divindades. O culto a Kim II Sung e Kim Jong II é um acinte à inteligência. Ambos têm estátuas gigantescas e reluzentes espalhadas pelas cidades, e suas biografias são recheadas de episódios inventados. A propaganda oficial transformou Kim II Sung em santo milagreiro e fez passar a versão de que o nascimento de Kim Jong II foi anunciado pelo surgimento de um gigantesco arco-íris. Há anos o país depende de ajuda internacional, mas a penúria não constrange os comunas de Pyongyang, que mantêm um Exército de mais de 1 milhão de homens e um programa atômico de causar pesadelos. A Coréia do Norte regularmente mostra os dentes e ameaça realizar testes de mísseis de médio alcance, como o que fez em 1998, sobre o Japão. Aos poucos, Estados Unidos e Coréia do Sul tentam domar a fera. O mais significativo avanço ocorreu na semana passada, quando os norte-coreanos aceitaram reunir-se com diplomatas americanos. Serão duas rodadas de conversações: neste mês, em Nova York, e em março, em Washington. A pauta de discussões deverá girar em torno da melhoria das relações comerciais, do maior controle do programa nuclear norte-coreano e da retirada da Coréia do Norte da lista negra de nações que apóiam o terrorismo internacional. Mas a diplomacia tem alcance limitado. "Os Estados Unidos podem fazer muito pouco. Qualquer mudança política na Coréia do Norte terá de partir de dentro daquele país, e não de pressões internacionais", disse a VEJA o professor Solomon Karmel, da London School of Economics. Até que apareça uma oposição interna digna de nota, tudo deve ficar como está acima do paralelo 38 — onde Karl Marx é festejado como herói, em meio a criancinhas que não comem.