Ásia
O Muro da Coréia
O país
marcado por uma guerra que não acabou
e no qual ainda sobrevive o fantasma da Guerra Fria
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A finada Guerra Fria
deixou um quisto encravado na Ásia: o conflito armado
entre as duas Coréias, que em 25 de junho deste ano
deve completar meio século. Como oficialmente ele
não terminou, já entrou para a História
como o terceiro mais longo de todos os tempos só
as Guerras Púnicas, entre Roma e Cartago, e a Guerra
dos 100 Anos, entre França e Inglaterra, duraram
mais. O auge da escalada militar ocorreu entre 1950 e 1953,
envolveu a participação direta de duas grandes
potências, Estados Unidos e China, e resultou num
saldo de 3 milhões de mortos. Um armistício
foi assinado para estancar a sanguinolência (garantido
até hoje por 37.000 soldados americanos), sem que
se chegasse a um acordo de paz formal. Desde então,
vez por outra acontecem escaramuças entre a Coréia
do Norte, que teima em ser comunista até a última
palha de arroz, e a do Sul, hoje uma aluna aplicada das
lições do capitalismo avançado. Assim
como havia um Muro de Berlim, existe um Muro da Coréia:
uma cerca de arame farpado, com aproximadamente 200 quilômetros
de extensão, interpõe-se entre os adversários.
É a fronteira mais vigiada e explosiva
do mundo.
A península
coreana é uma área de tensão permanente
desde o início do século XX. De 1910 a 1945,
foi ocupada pelos japoneses, que ali cometeram toda a sorte
de atrocidades. Com a rendição do Japão
na II Guerra, o país viu-se dividido em duas partes,
no famoso paralelo 38: a do norte, sob a esfera de influência
da União Soviética e China, e a do sul, protegida
pelo guarda-chuva americano. Em 1950, a Coréia comunista
invadiu a capitalista, detonando o início das hostilidades
que se prolongariam por três anos. Desse período
cruento sobraram a cerca de arame, os memoriais em homenagem
aos que caíram em batalha e o filme M.A.S.H.,
do diretor americano Robert Altman, uma sátira para
lá de cínica do assunto. A Guerra da Coréia
pode não ter chegado ao fim no papel, mas tem um
lado que pode ser considerado vencedor moral: a Coréia
do Sul. A sociedade agrária e de estrutura semifeudal
dos anos 40 transformou-se em uma nação industrializada,
cuja população goza de ótimo nível
de educação e padrão de vida. Nem mesmo
os solavancos financeiros experimentados no final da década
de 90 conseguiram derrubar esse Tigre Asiático. Passada
a crise, a Coréia do Sul exibe agora uma das mais
altas taxas de crescimento do planeta. Para a felicidade
ser completa, só falta ela reformar seu sistema político
viciado e corrupto, contra o qual explodem aquelas revoltas
estudantis que invariavelmente são exibidas na televisão.
A pujança da
parte capitalista ganha um brilho extra quando é
comparada com a penúria do vizinho comunista. Um
dos países mais fechados do mundo, a Coréia
do Norte é um equívoco ideológico que
produziu uma catástrofe humana. Até a década
de 70, graças à generosidade interessada dos
camaradas soviéticos e chineses, ela conseguiu tocar
o barco de sua economia de molde socialista, ainda que mal
e porcamente. Quando a fonte dos amigos poderosos secou,
ficou impossível esconder a farsa montada pelo regime
implantado por Kim II Sung, falecido em 1994, e que se perpetua
na figura de seu filho, Kim Jong II, atual ditador do pedaço.
A Coréia do Norte é, hoje, uma nação
sem futuro, isolada do resto do mundo e faminta. Não
bastasse o desastre provocado pela coletivização
das terras o preceito comunista que só resultou
em colheitas magras e estatísticas fajutas ,
enchentes seguidas arrasaram o país. Para se ter
uma idéia, estima-se que nos últimos cinco
anos a fome tenha causado a morte de mais de 2 milhões
de pessoas. A tragédia é tamanha que a expectativa
de vida, que em 1985 era de 74 anos, despencou em 1998 para
51 anos (veja quadro). Nem
o Nordeste brasileiro exibe um quadro tão desolador.
A escassez norte-coreana já adquiriu contornos geopolíticos:
China e Rússia andam preocupadíssimas com
a possibilidade de que hordas de famélicos norte-coreanos
transbordem para seus territórios.
Lavagem cerebral
A camarilha encastelada
na capital, Pyongyang, mantém-se no poder por causa
de uma repressão brutal a quem ousa apontar as suas
mazelas. Quem não é morto ou segregado sofre
lavagem cerebral. Martela-se dia e noite que a Coréia
do Norte precisa manter-se unida para não ser destruída
pelos terríveis inimigos externos (o resto da humanidade)
e que seus líderes são divindades. O culto
a Kim II Sung e Kim Jong II é um acinte à
inteligência. Ambos têm estátuas gigantescas
e reluzentes espalhadas pelas cidades, e suas biografias
são recheadas de episódios inventados. A propaganda
oficial transformou Kim II Sung em santo milagreiro e fez
passar a versão de que o nascimento de Kim Jong II
foi anunciado pelo surgimento de um gigantesco arco-íris.
Há anos o país depende de ajuda internacional,
mas a penúria não constrange os comunas de
Pyongyang, que mantêm um Exército de mais de
1 milhão de homens e um programa atômico de
causar pesadelos. A Coréia do Norte regularmente
mostra os dentes e ameaça realizar testes de mísseis
de médio alcance, como o que fez em 1998, sobre o
Japão. Aos poucos, Estados Unidos e Coréia
do Sul tentam domar a fera. O mais significativo avanço
ocorreu na semana passada, quando os norte-coreanos aceitaram
reunir-se com diplomatas americanos. Serão duas rodadas
de conversações: neste mês, em Nova
York, e em março, em Washington. A pauta de discussões
deverá girar em torno da melhoria das relações
comerciais, do maior controle do programa nuclear norte-coreano
e da retirada da Coréia do Norte da lista negra de
nações que apóiam o terrorismo internacional.
Mas a diplomacia tem alcance limitado. "Os Estados Unidos
podem fazer muito pouco. Qualquer mudança política
na Coréia do Norte terá de partir de dentro
daquele país, e não de pressões internacionais",
disse a VEJA o professor Solomon Karmel, da London School
of Economics. Até que apareça uma oposição
interna digna de nota, tudo deve ficar como está
acima do paralelo 38 onde Karl Marx é festejado
como herói, em meio a criancinhas que não
comem.