Remédios
O escândalo é muito maior
O aumento nos preços dos remédios
é apenas um dos muitos abusos numa
área que ninguém controla no Brasil
Alexandre Secco e Alexandre Mansur
Ana Araújo
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| Walterci de Melo: o homem dos genéricos
ludibriava donas de casa |
Nos últimos tempos, Brasília parece mais preocupada com
quem bebe cerveja do que com quem toma remédio. Na semana
passada, a burocracia federal ergueu mais um obstáculo contra
a AmBev, a empresa resultante da fusão da Brahma com a Antarctica.
Nesse caso, o governo está preocupado com o preço que a
cerveja poderá atingir no futuro. Teme-se que, operando
juntas, as duas cervejarias criem um monopólio e cometam
abusos de preços. Enquanto o governo mobilizava seus técnicos
para cuidar do assunto, no Congresso Nacional os deputados
precisaram montar uma CPI para saber se, nos últimos anos,
os medicamentos tiveram aumentos abusivos ou não. Só com
os relatórios do governo era impossível ter essa informação
de forma segura. Um estudo do Ministério da Saúde, divulgado
no final de janeiro, sustentava que os aumentos depois do
Plano Real tinham sido de 165% acima da inflação. Esse estudo
foi desmentido por outro, do Ministério da Fazenda, segundo
o qual o acréscimo médio foi de 17% acima do índice inflacionário.
Cada ministério usou períodos e listagens diferentes de
remédio para chegar a conclusões tão opostas.
Coube à CPI tentar decifrar o que realmente houve com o
preço dos remédios. Descobriu-se que a metade dos itens
da lista de medicamentos essenciais mais vendidos no país
aumentou acima da inflação medida no Real. Em muitos casos
houve acréscimo de até 100%. Até agora ninguém conseguiu
justificá-los. Curiosamente, a CPI descobriu que inúmeras
matérias-primas tiveram, no mesmo período, o preço reduzido
pela metade. Constatado o aumento abusivo de preços, a CPI
enviou o caso à Secretaria de Direito Econômico do Ministério
da Justiça, o mesmo órgão governamental que na semana passada
estava bastante empenhado em descobrir quanto a cerveja
vai custar no futuro. Finalmente, 47 laboratórios vão ser
convidados a apresentar suas planilhas de custos para esclarecer
por que os remédios subiram mais que a inflação.
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Concorra a viagens
A Estátua da Liberdade e uma deslumbrante paisagem
tropical são alguns dos argumentos usados pela indústria
farmacêutica para convencer os médicos a receitar
seus produtos. Distribuídos pelos laboratórios Merck
S.A. e SmithKline Beecham, os folhetos ao lado oferecem
viagens para o médico que preencher o cupom fornecido
pelos representantes comerciais. Um dos concursos
teve o apoio da Sociedade de Pediatria de São Paulo
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Controle pífio O bate-cabeça do governo na questão
dos preços é apenas uma faceta de um problema muito maior.
Quem controla o mercado de remédios no Brasil? Pela confusão
estabelecida até a semana passada, suspeita-se que ninguém.
A falta de controle é responsável por uma quantidade assustadora
de abusos. Os remédios falsificados já ocupam 20% do mercado
brasileiro. A CPI levantou suspeitas de evasão fiscal e remessa
ilegal de lucros pelos laboratórios. O controle de qualidade
de remédios por parte do governo é pífio. Anualmente são feitos
só 1% dos testes necessários para averiguar a qualidade dos
10
.000 medicamentos vendidos
no país. De acordo com padrões internacionais, cada tipo de
remédio deveria passar por duas análises ao ano.
Na última quinta-feira, causou indignação a declaração
do presidente da Associação Brasileira de Redes de Farmácias,
Aparecido Bueno Camargo. Segundo ele, no jargão das farmácias,
alguns remédios são classificados como B.O., ou "bons
para otário". Esses medicamentos, inócuos, são empurrados
pelos balconistas a consumidores que não tiveram acesso
a orientação médica. "No Brasil, a indústria farmacêutica
está fazendo uma festa e mandando a fatura para o consumidor",
diz o deputado Arlindo Chinaglia, do PT de São Paulo, membro
da CPI.
A indústria farmacêutica é uma das mais poderosas e rentáveis
do planeta. Embora lucrativo, o negócio de produzir remédios
é arriscado. A cada 10.000
substâncias pesquisadas, apenas uma chegará às prateleiras
das farmácias em forma de remédio. Além disso, com o custo
crescente das pesquisas, os medicamentos estão ficando mais
sofisticados e cada vez mais caros. A lucratividade alta
tem uma forte justificativa, pois precisa ser estimulante
o bastante para incentivar o investimento em pesquisa, algo
em torno de 60 bilhões de dólares ao ano no mundo todo.
Há também outra característica que torna essa indústria
diferente das demais. Geralmente, quem escolhe o remédio
não é o consumidor final, mas seu médico. É, portanto, um
campo em que a lei da oferta e da procura nem sempre funciona.
Se uma marca de cerveja fica mais cara ou se o consumidor
acha que a qualidade piorou, ele pode escolher outra. No
caso do remédio, só vale o que o médico mandar comprar.
É por isso que os governos estão compreendendo que as leis
de mercado sozinhas não bastam para regular o funcionamento
do negócio. É um grande desafio: como proteger o consumidor,
que necessita do medicamento para viver, e o acionista do
laboratório, que precisa ter lucro para fazer novas pesquisas
e descobrir novidades contra doenças como a Aids e o câncer.
No mundo inteiro, governos tentam encontrar esse equilíbrio
por meio de controles cada vez mais rigorosos sobre a indústria
farmacêutica.
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Empurre o remédio
A propaganda nas farmácias é agressiva. Há dois anos,
o laboratório Sintofarma distribuiu folhetos prometendo
premiar os balconistas que indicassem o remédio Deltacid
aos clientes com sintomas de sarna. Detalhe: pela
lei, só o farmacêutico pode recomendar algum produto
ao cliente. Além disso, esse tipo de promoção induz
ao consumo desnecessário de remédios, alerta o Conselho
Federal de Farmácia
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Mais baratos Nos Estados Unidos, o governo
produziu uma eficiente legislação de medicamentos genéricos.
Esses remédios possuem a mesma fórmula química de marcas
conhecidas, cuja patente original já se expirou. É o caso
da dipirona, um antitérmico, que o laboratório Hoechst fabrica
com o nome de Novalgina. O remédio genérico é a dipirona,
a mesma coisa da Novalgina, só que sem a marca. Outro exemplo
é o antibiótico Keflex, marca usada pela Eli Lilly para
vender o antibiótico cefalexina. Os genéricos chegam às
farmácias por um preço mais em conta porque os laboratórios
que os fabricam não precisam gastar em propaganda nem tiveram
de investir em pesquisa para inventar a fórmula original.
Desde 1994, quando a lei entrou em vigor, o preço dos remédios
sem marca baixou 40% nos Estados Unidos. No Canadá e na
Europa, além de incentivar a produção de genéricos mais
baratos, os governos exercem controle de preços. Na Alemanha
o governo obriga a vender até analgésico com receita médica.
Enquanto o mundo inteiro avançou na regulamentação do setor,
o Brasil patinou. A lei dos genéricos e a criação da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária estão sendo discutidas
desde a era Collor. A agência só começa a entrar em operação
agora. Na semana passada foi liberada a primeira leva de
medicamentos genéricos aprovados no país. Chegarão ao mercado
com preços entre 30% e 55% abaixo dos remédios de marca
conhecida. Há fortes suspeitas, no entanto, em relação à
idoneidade de alguns laboratórios que vão produzi-los. Metade
dos seis primeiros genéricos a entrar no mercado são do
laboratório Teuto Brasileiro de Goiás. Seu dono, o empresário
Walterci de Melo, fez fortuna na indústria de remédios e
tem uma história curiosa.
Em uma entrevista à revista Exame, publicada em
novembro do ano passado, Walterci de Melo contou os artifícios
que usava para enganar donas de casa quando era vendedor
de aparelhos de TV. Na época, havia no mercado uma tela
tricromática para televisores em preto-e-branco. Era conhecida
como "TV colorida de pobre". Para vender a tal
televisão, Melo mostrava à dona de casa um texto atribuído
ao Ministério da Saúde no qual se dizia que os aparelhos
de TV emitiam muita radiação e faziam mal à saúde dos telespectadores.
"Sem que ela (a dona de casa) se desse conta, eu aumentava
o brilho (do aparelho)", diz Melo. Quando a tela tricromática
era sobreposta ao monitor do televisor, a luminosidade diminuía,
indicando assim que os raios eram absorvidos e que a saúde
do espectador ficaria preservada. Evidentemente, era tudo
uma lorota, mas foi assim que Melo estreou no mundo dos
negócios. Depois passou a fabricar medicamentos e hoje é
uma das esperanças do Ministério da Saúde para moralizar
o setor.
Ganhe uma televisão
Eugênio Sávio
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A médica mineira Lia de Trujillo foi uma das pessoas
que venceram a promoção do Prazol, um remédio para
úlcera do laboratório Medley. Ela ganhou uma televisão
por ter cunhado uma frase de efeito (no detalhe,
em branco) com o nome do produto. "É bobagem imaginar
que ganhar um brinde exerça alguma influência na decisão
médica de receitar este ou aquele medicamento", diz
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A CPI também chamou a atenção para outro aspecto do problema
dos medicamentos. São as técnicas de marketing empregadas
pelos laboratórios para convencer os quase 300.000 médicos brasileiros a receitar seus remédios. Elas
estão entre as mais agressivas praticadas no mundo. Um em
cada cinco empregados na indústria farmacêutica no Brasil
é representante comercial, encarregado de assediar os médicos
com ofertas de brindes, sorteios de viagens e de eletrodomésticos.
Um desses fabricantes, o Merck S.A., patrocina a viagem
de 23 médicos por ano a congressos no Brasil e no exterior.
Em outro laboratório, o Merck Sharp & Dohme, os próprios
representantes comerciais indicam os médicos que podem ganhar
as viagens para os congressos. "São eles que sabem
qual médico está ligado a determinada especialidade e viria
a se beneficiar das palestras de cada congresso", explica
Marcos Levy, diretor de assuntos corporativos da empresa.
Jogo de sedução Muitas vezes, as próprias associações
profissionais se envolvem nesse jogo de sedução entre laboratórios
e médicos. Em 1997, a Sociedade de Pediatria de São Paulo
pediu ao laboratório SmithKline Beecham que bancasse a viagem
de um médico a um congresso em Sydney, na Austrália. A escolha
foi feita por sorteio, realizado na sede da própria entidade.
"Estamos oferecendo ao médico a chance de ele se atualizar
profissionalmente", diz Fernando Coimbra, diretor médico
da SmithKline. "Em troca, o laboratório ganha o reconhecimento
do seu nome." O assunto é delicado. "Não existe
corrupção direta de médicos, mas eles podem ser induzidos
a acreditar que o remédio mais anunciado é melhor do que
outro", diz Valmir de Santi, pesquisador da Universidade
Estadual de Ponta Grossa.
No Canadá, os médicos não podem aceitar nenhum tipo de
presente dos laboratórios, nem mesmo uma caneta. Nos Estados
Unidos, o código de ética orienta os médicos a só aceitar
presentes ligados à prática profissional, como um estetoscópio.
Lá, a maior arma dos representantes comerciais que assediam
os médicos são os livros e os folhetos explicativos a respeito
dos remédios que estão vendendo. No Brasil, vale tudo
de sorteios de televisão a viagens para o Caribe. As relações
perigosas entre médicos e representantes comerciais de laboratórios
mostram que a questão dos preços abusivos é apenas a ponta
de um novelo muito enrolado na indústria de medicamentos.
E que talvez tenha chegado a hora de se preocupar mais com
assuntos dessa natureza do que com os bebedores de cerveja.
Com reportagem de
Gisela Sekeff