Edição 1 635 - 9/2/2000

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Congresso

Gol contra

Deputado que contratou time de futebol é condenado

Sandra Brasil

 
Gomes da Rocha pagava jogadores do Itumbiara com verba da Câmara

O deputado José Gomes da Rocha, do PMDB de Goiás, pode ser o primeiro parlamentar da História a perder o mandato por decisão da Justiça. Na semana passada, ele foi condenado por improbidade administrativa e pode ser obrigado a ficar até oito anos sem se candidatar a cargo público algum. O crime: montar uma equipe de craques em seu gabinete — uma equipe, explique-se, de futebol. Há dois anos, o deputado contratou como assessores seis jogadores do Itumbiara Esporte Clube, um timeco do interior de Goiás que disputou em 1997 a terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Zé Gomes, como é conhecido nos meios esportivos, vai ter de devolver todo o dinheiro que gastou indevidamente e ainda pagar uma multa de 84.000 reais. O deputado ficou surpreso com a virada de mesa e anunciou que vai recorrer. A Corregedoria da Câmara, que na época chegou a instaurar uma investigação, acabou arquivando o processo de cassação contra o deputado.

Os parlamentares recebem verba de 20.000 reais por mês para pagar a seus funcionários. Contratam secretárias, contínuos, motoristas, advogados, jornalistas e técnicos em várias áreas. Muitos, é verdade, preferem gastar a verba pagando salários a parentes que nem sempre aparecem para trabalhar. Houve até o caso do deputado licenciado Wigberto Tartuce, do PPB do Distrito Federal, que usava a verba para pagar a jardineiros, copeiros e outros profissionais que trabalham em sua residência. Agora, manter um time de futebol com dinheiro do contribuinte a mais de 400 quilômetros de Brasília foi uma cartolada de fazer inveja. Além dos seis craques, Zé Gomes, que era presidente do clube, aproveitou para contratar também as esposas dos jogadores. Não é preciso dizer que nem os craques nem suas distintas senhoras apareciam para trabalhar. O deputado acha que não fez nada de mais. Muito pelo contrário. A verba de gabinete, segundo ele, serve para pagar a assessores que ficam à disposição do parlamentar, estejam eles lotados num escritório ou concentrados num campo de futebol. Os jogadores e suas esposas estariam cumprindo uma função de imenso alcance social, acha o parlamentar. Como o clube não precisava pagar salários, já que o contribuinte fazia isso em seu lugar, também não cobrava ingresso nos jogos. Os torcedores ficavam felizes com a entrada grátis e o deputado garantia a próxima eleição. Zé Gomes, apesar do escândalo, conseguiu reeleger-se em 1998, mas corre o risco de perder o mandato por decisão de juiz. Não de futebol, é claro.