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Edição
1 635 - 9/2/2000
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Em obrigações de curto e longo prazo, a companhia aérea
Vasp reúne dívidas de 3,2 bilhões de reais, o equivalente
a dois anos e quatro meses de seu faturamento. Desse total,
2,13 bilhões são com o governo, mas não foram pagos. Wagner
Canhedo, um senhor rechonchudo e simpático que começou a
vida como motorista de caminhão, não se abala. Acha um exagero
supor que ele se encontra numa encrenca financeira. Toma
emprestado, nunca paga, faz rolo, entra na Justiça, ninguém
nunca o impede de ir aumentando o rombo numa proporção lunática. Na semana passada, o nome da Vasp estava metido em mais
um rolo de proporções milionárias. Canhedo deve 380 milhões
de reais à Infraero e não paga. Infraero é aquela empresa
estatal que cuida dos aeroportos e, sem a colaboração dela,
Canhedo ficaria em situação difícil. Durante a semana, cresceram
os comentários de que, por causa da dívida que não foi honrada,
a Vasp poderia vir a ter sua licença de atuação cassada
pelo governo. Para não pagar o que deve, Canhedo tinha uma
liminar da Justiça que lhe dava o direito de continuar de
bolso fechado. Na sexta-feira, uma juíza do Rio de Janeiro
anunciou a cassação dessa liminar. Isso significa que, a
partir desta semana, se Canhedo não conseguir derrubar esta
última decisão judicial, a Vasp se verá obrigada a retomar
os pagamentos. No caso dela, como se mostrou inadimplente,
terá de recolher a taxa diariamente, 185.000
reais a cada 24 horas. É mais uma das muitas confusões em
que Wagner Canhedo se meteu na sua acidentada carreira empresarial.
Segundo suas próprias contas, Canhedo já era rico aos 26 anos de idade. Tinha 1 milhão de dólares e atuava na iniciativa privada. Mas foi em 1990, aos 55 anos e trabalhando a todo vapor à frente de empresas que prestavam serviço para o governo, que ele chegou ao primeiro bilhão de dólares. Ou seja, Canhedo virou bilionário graças à sua conexão estatal. Filho de um caminhoneiro espanhol, começou a trabalhar ainda criança, como ajudante de oficina mecânica no interior do Paraná. Aos 10 anos, lavava motores. Aos 16, tinha a sua própria oficina. Em seguida, comprou um caminhão em sociedade com o pai e passou a fazer entrega de cargas. Sem tempo para os estudos, não terminou o 2o grau. Com todo o tempo do mundo para os negócios, comprou terrenos, montou uma serraria e, em 1957, foi para Brasília com uma frota de oito caminhões. Hoje, Canhedo chefia um grupo de dezessete empresas e 15.000 funcionários que fatura 2,2 bilhões de dólares por ano, segundo suas contas. A Vasp representa 60% da receita total. Com interesses em áreas variadas como mineração, agropecuária e turismo, o conglomerado tem duas pérolas, além da Vasp: a transportadora Wadel, que reúne 300 caminhões, e a Viplan, que faz o transporte urbano em Brasília, com mais de 1.000 ônibus. Em sua trajetória, essas firmas foram peças vitais para o fortalecimento do empresário. Detalhe: ambas, Wadel e Viplan, tiveram o governo como principal cliente até bem pouco tempo.
Há um indicador bastante apropriado para tornar mais claro o grau de envolvimento de Canhedo com os negócios do Estado. Em quatro ocasiões, apurando operações feitas pelo governo, as comissões de investigação do Congresso chegaram ao nome de Wagner Canhedo. Em 1989, a Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara investigava o desvio de verbas na Companhia de Fomento da Produção. Os parlamentares não descobriram crime algum envolvendo Canhedo, é preciso esclarecer. Mas foram informados de que a transportadora Wadel recebia do governo 84 cruzados novos por tonelada de grãos que transportava. E subcontratava outras transportadoras pagando 14 cruzados novos por tonelada. Houve uma CPI da privatização da Vasp, outra sobre as empresas aéreas e a CPI do caso Collor-PC. Paulo César Farias se empenhou pessoalmente na vitória de Canhedo na concorrência de privatização da Vasp. Depois que ela ocorreu, fez de tudo para que o negócio fosse em frente. Em nenhum outro projeto dentro do governo Collor, a presença de PC foi tão ostensiva quanto na ajuda às necessidades da Vasp e de Canhedo. Chegou-se a imaginar que o caixa de Collor pudesse ser sócio do amigo no empreendimento. Canhedo nega. Graças à ajuda de PC, o "estilo empresarial" de Canhedo foi apresentado a todo o Brasil. Verbo renegociar E que estilo é esse? Basta um passeio a um dos rolos de Canhedo, sua dívida com a Infraero, para perceber como o mecanismo funciona. A Vasp deve 370 milhões de reais à estatal encarregada de cuidar dos aeroportos brasileiros. O bolo é formado por anos de atraso no pagamento da taxa de uso dos aeroportos e uma pesada multa prevista em lei que incide sobre o cálculo final. Todas as empresas de aviação devem dinheiro à Infraero, mas, com grau de resistência maior ou menor, pagam. Canhedo, não. Ele renegocia. E o verbo renegociar, para ele, tem um significado todo especial. Foram seis as renegociações, nenhuma delas cumprida. Numa dessas, a Vasp comprometeu-se a quitar a dívida em oito anos. Pagou a primeira prestação e só. Noutra das renegociações entregou 24 cheques pré-datados. Na data do primeiro depósito, o cheque havia sido sustado. A Infraero entrou na Justiça para receber o dinheiro. A Vasp respondeu com uma liminar obtida com um juiz de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, que até a nova decisão da sexta-feira passada lhe dava o direito de não pagar nem os atrasados, nem as prestações que iriam vencer. Como se nada tivesse acontecido. Canhedo é sereno ao explicar o episódio: "Nós fizemos alguns acordos com a Infraero, mas chegou determinado momento em que a Vasp não pôde honrar o que havia acertado. Como não tinha condições de cumprir, fomos renegociar as dívidas e não encontramos o devido apoio da estatal. Agora, vamos esperar a Justiça. Serão nomeados peritos e a dívida vai ser analisada". Simples assim. Outro exemplo do estilo Canhedo de negociar é o rolo que ele mantém com o INSS. Diz a lei que empresa com dívida com a Previdência não pode trabalhar para o governo. E a Vasp, que deve 380 milhões de reais aos cofres previdenciários, tinha um contrato com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos para transporte de correspondência. O negócio rendia 60 milhões de reais por ano à Vasp. Ameaçada de perder o filé mignon por ser inadimplente, a companhia apresentou prova de que nada devia à Previdência Social na forma de duas certidões negativas de débito. Pasme-se: as certidões eram falsas. Descoberta a fraude, a Vasp teve o contrato desfeito. Para o ministro Waldeck Ornélas, da Previdência, que se pronunciou oficialmente sobre o assunto, a palavra adequada para descrever o que fez a Vasp nesse caso é só uma: crime. Para Canhedo, não é nada disso: "Nenhum diretor, muito menos o presidente da empresa, toma conhecimento de certidões. Mas estamos apurando os fatos e vamos provar que a denúncia não é verdadeira". A Canhedo poderia ser atribuída uma nova versão do famoso ditado sobre caloteiros: devo, não nego, não pago enquanto puder. Durante a tramitação das ações, recorre a um entre dois expedientes, conforme a ocasião. Em alguns casos, retoma o pagamento em juízo, mas sua equipe de contadores recalcula as prestações reduzindo-as para o patamar que ele acha justo. A Previdência Social, por exemplo, propôs um refinanciamento da dívida da Vasp em oito anos. Canhedo não concordou, e seus depósitos mensais na Justiça correspondem a algo como um terço da prestação original. Quer quitar a dívida em vinte anos. Em outros casos, Canhedo procura o credor propondo um acordo, que seria bom para os dois lados se ele cumprisse sua parte. O caso da Infraero é, de novo, um bom exemplo. Qualquer pessoa tem o direito de recorrer à Justiça quando lhe cobram o que considera não dever. Até porque, no Brasil, algumas empresas e órgãos públicos mandam mesmo contas erradas a seus clientes. No caso de Canhedo é diferente. Ele questiona sistematicamente todas as grandes dívidas em que se pendurou. Canhedo não aceita o cálculo feito pelo Banco do Brasil segundo o qual ele deve à instituição 500 milhões de reais. Como discorda da dívida, entrou com ação na Justiça. "Ela vai mostrar que estamos certos", diz. Na mesma linha, também não admite dever 200 milhões de reais ao Banespa, banco oficial paulista. Confirma o credor, mas nega o valor. "É muito menos do que isso, e vamos provar na Justiça." Por essas reações do empresário, um observador desavisado poderia imaginar que todos os seus credores teriam combinado uma ação simultânea de perseguição ao empresário. Bancada da Vasp Parece não ser por acaso que o grosso das dívidas questionadas por Canhedo tem como credor o Estado. Embora a Vasp enfrente diversos problemas com fornecedores da iniciativa privada, há certa predileção de sua parte por brigar com o governo. Talvez porque, no mundo privado, a regra geral é a impessoalidade. Nas diversas ocasiões em que a Vasp não pagou o leasing dos jatos que usa, as companhias que lhe cederam as aeronaves apareceram e conseguiram o arresto dos bens. Já no mundo de Brasília as coisas funcionam de forma diferente. Morador do Distrito Federal desde sua construção, Canhedo mantém uma rede de relações poderosas. No Congresso, haveria uma "bancada da Vasp", conforme a piada corrente. Canhedo até acha graça na expressão, mas nega a existência do grupo. "Tenho muitos amigos senadores e deputados, mas nunca precisei pedir o apoio deles para nada", afirma. Sorte dele. Nem precisa pedir, porque os amigos parecem movimentar-se por conta própria. Quando estava na presidência do Banco Central, Gustavo Loyola recebeu certa vez uma comitiva com dezenove senadores (detalhe: quase um quarto do Senado Federal). O político mais falante do encontro era o senador Edison Lobão (PFL-MA). Queriam os senadores que Loyola se empenhasse no Banespa para que o banco paulista aceitasse uma redução significativa da dívida da Vasp. Canhedo diz que a visita não aconteceu. O senador Edison Lobão confirma. Aconteceu, sim. Todas as companhias aéreas mantêm uma estrutura de lobby
forte na capital, que inclui a distribuição de passagens
aéreas e de recursos financeiros durante a eleição. Conta-se
que uma das companhias chegou a testar um programa de computador
em que estavam listados os nomes das principais autoridades
da República. O programa avisava ao funcionário do balcão
do aeroporto sempre que um sobrenome ilustre se apresentasse
para o embarque. Dessa forma, seria possível acomodar a
autoridade na classe executiva sem que ela passasse pelo
constrangimento de pedir. Canhedo admite a distribuição
de passagens a políticos e também confirma que dá ajuda
a amigos candidatos. "Se algum político precisa de
passagem para transportar uma pessoa doente, nós ajudamos",
informa o dono da Vasp, fazendo questão de frisar que nunca
deu passagens ao senador Edison Lobão. O senador admite
ter pego carona no jatinho de Canhedo e aceito um convite
para um vôo inaugural da companhia. "Estive uma vez
em Osaka, no Japão, num desses eventos. Canhedo é meu amigo
e pode contar comigo para o que for preciso."
Colegas de peso Pressão política, lobby, acertos com favorecimento junto ao governo e corrupção existem em todos os países do mundo. A diferença é que, em algumas nações, há instituições capazes de coibir os abusos mais ostensivos. O Brasil vive num espaço de indecisão entre duas realidades. Há leis para quase tudo, mas elas não são aplicadas. Há regras de moralidade, mas em muitos casos se admite que sejam contornadas. Canhedo anda na dobra da legislação sem tecnicamente contrariá-la. Assim, vem fazendo fortuna num país em que o cidadão comum vai parar no Serviço de Proteção ao Crédito ao menor calote na prestação da geladeira. Outros percorreram o mesmo território entre o legal e o ilegal para fazer fortuna, até que um dia foram apanhados do lado errado da cerca. O ex-deputado Sérgio Naya é um caso. Com sua fortuna e também com certas alianças em Brasília, Naya ergueu um pequeno império construindo prédios, vários deles embargados pela Justiça. Soube-se da maneira mais trágica, pelo desabamento do Palace II, no Rio de Janeiro, que a empresa do deputado misturava areia de praia no cimento. Comprador compulsivo de empresas, Ricardo Mansur é outro que acabou se complicando na Justiça, este sem qualquer ajuda de amizades no terreno político. Surgiu no mercado como um gênio empresarial. Endividou-se de forma temerária ao adquirir o Mappin e a Mesbla, quebrou e foi morar em Londres como um paxá latino-americano. Bem-sucedido empresário brasiliense, o senador Luiz Estevão acabou acusado de participação na maracutaia do prédio do TRT de São Paulo e agora luta contra a cassação. Pedro Paulo Souza, dono da Encol, tomava milhões no Banco do Brasil e rolava os papagaios sem pagar, com o beneplácito de diretores da instituição, até que um dia se descobriu que não tinha lastro nem para penhorar um despertador na Caixa Econômica. Quebrou deixando 40 000 famílias na rua da amargura, sem receber os apartamentos que haviam comprado. Esses empresários têm poucas características em comum, menos uma. Encontraram pela frente uma malha institucional cheia de furos, por meio dos quais é mais fácil um camelo passar do que aparecer alguém para lhes dizer que estavam ultrapassando algum limite. Pela brecha, Canhedo conseguiu ficar sem pagar impostos à Receita Federal (300 milhões), não recolheu contribuições à Previdência (380 milhões) e não pagou o fundo de garantia dos empregados (100 milhões). Até avião passa pela brecha. Sem crédito no mercado internacional, a Vasp se viu obrigada a transformar um avião MD 11 numa espécie de almoxarifado ao ar livre. Essa aeronave está parada há um ano num descampado do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e desde então vem sendo canibalizada pela companhia para equipar outros modelos do mesmo tipo com peças de que necessitam. Pergunta: como Canhedo vai encontrar saída para seus problemas? Ele tem uma proposta a todos os credores do governo. Quer fazer um encontro de contas. Paga o que deve com um crédito que afirma ter com a União. Acha que irá ganhar uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo 2,3 bilhões de reais do governo federal por defasagem de tarifas ocorridas durante o Plano Cruzado. A Transbrasil ganhou ação semelhante em 1997. O governo não admite a hipótese. A Vasp já teria saído saneada do processo de privatização. Indenizá-la agora equivaleria a obrigar o contribuinte a pagar duas vezes pela mesma conta. Da maneira como as coisas andam, não será muita surpresa se a vítima de sempre tiver de enfiar a mão no bolso outra vez. Com reportagem de Thomas
Traumann, Cristine Prestes,
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