Eu e Gisele Bündchen
Vi a modelo Gisele Bündchen na semana passada, numa
festa organizada por um provedor de internet. Tentei descobrir
quanto ela tinha ganho para comparecer ao evento, mas sou
um mau jornalista e não obtive a informação.
A festa se realizava num casarão abarrotado de gente.
Gisele Bündchen, porém, não se misturava
conosco, permanecendo numa salinha reservada, atrás
de espessas cortinas, com o acesso limitado apenas a uns
poucos privilegiados. Eu não era um deles, infelizmente.
Pelo contrário: tinha entrado de bico na festa, graças
à operosidade de um amigo fraterno. Como Gisele Bündchen
podia ser um bom tema para um artigo, tendo sido inclusive
reportagem de capa de VEJA, resolvi me empenhar para penetrar
em sua salinha. Minha primeira iniciativa foi tentar comprar
o crachá de um dos inúmeros fotógrafos
presentes à festa, mas nenhum se dispôs a aceitar
minha generosa oferta. Decidi então procurar outros
canais, falando com todas as pessoas que encontrava. Senti-me
como naquele filme do italiano Marco Ferreri, em que o protagonista
vai a Roma e perambula para cima e para baixo, em busca
de uma audiência papal. Por volta de 3 da madrugada,
finalmente, consegui encontrar um espírito benemérito
que me permitiu entrar na salinha-bunker de Gisele Bündchen.
Ela estava sentada numa poltrona de veludo. Percebendo meu
embaraço, levantou-se, reclinou o tronco para ficar
da minha altura e abençoou-me com dois beijos no
rosto.
Nesse exato instante, o artigo que eu havia composto na
cabeça foi para o espaço, dissolvendo-se irremediavelmente.
No artigo, eu pretendia estabelecer um paralelo blasfemo
entre a fila de admiradores diante da salinha de Gisele
Bündchen e a procissão de fiéis a um
santuário religioso. A partir daí, passaria
a tecer amargas considerações sociológicas
relativas à efemeridade do mundo contemporâneo.
Parecia-me excessiva a atenção em cima dela.
Quase patológica. Sempre considerei que era necessário
colocar esses fenômenos de massa nas devidas proporções.
Era essa minha intenção no artigo sobre Gisele
Bündchen. Quando a vi frente a frente, entretanto,
todas as minhas defesas intelectuais ruíram, e, para
minha grande vergonha, caí de joelhos numa espécie
de êxtase religioso, exatamente como os outros infelizes
que ali se encontravam. Nunca vivi tamanha humilhação.
Não tinha o menor cabimento que um intelectual sério
e desencantado como eu reagisse de maneira tão infantil
e obtusa diante de uma menina de 19 anos, que nem se deu
ao trabalho de abrir a boca. Mas foi o que aconteceu. Na
desesperada tentativa de racionalizar esse sentimento, perguntei-me
quanto eu havia sido influenciado pela propaganda e quanto
havia sido motivado, efetivamente, por sua extraordinária
beleza. Não cheguei a conclusão alguma. A
essa altura, a última arma que me restava era me
desincorporar e observar a cena do lado de fora. O que vi
foi uma fábula dos Irmãos Grimm, com um gnomo
aos pés de uma valquíria. Essa imagem patética
me permitiu recobrar a razão por uma fração
de segundo, tempo suficiente para que eu virasse as costas
e fugisse em disparada. Nunca mais quero ver Gisele Bündchen.
Vocês que fiquem com ela.