Edição 1 635 - 9/2/2000

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Suor, pão e vinho

Para o cardiologista das celebridades, a receita da longevidade é andar, comer com equilíbrio e beber duas taças diárias

Carlos Maranhão

 
Antonio Milena
"O médico tem de ser, antes de mais nada, um leitor das almas antes de receitar um remédio"

O médico paulista Bernardino Tranchesi Júnior é, aos 44 anos, uma espécie de Ivo Pitanguy da cardiologia. Graças à clientela estrelada que conquistou nos últimos anos, transformou-se numa grife em sua especialidade. Entre as 10.000 fichas que guarda em arquivos de aço enfileirados no consultório, sabe-se que há nomes como os do falecido ministro Sergio Motta, do banqueiro Aloysio Faria, do empresário Rolim Amaro, do governador cearense Tasso Jereissati, do ator Tarcísio Meira e da cantora Gal Costa. Na semana passada, ele deu alta a um de seus mais fiéis pacientes: o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, a quem tratou de uma pneumonia durante doze dias. Ser examinado por Tranchesi, que não trabalha com planos de saúde, é um privilégio caro. A consulta custa 350 reais. Além de pagar, muitos clientes lhe dão presentes. Já ganhou deles dezenas de canetas-tinteiro Montblanc, uma de suas manias, caixas e mais caixas de charutos cubanos, que fuma eventualmente, garrafas de vinhos fabulosos e quatro automóveis, entre os quais um BMW. Vaidoso assumido, é dono de um guarda-roupa com cerca de sessenta ternos e 100 camisas. Também recebeu quase tudo de graça. No caso, da empresária de moda Eliana Tranchesi, mãe de seus três filhos e de quem se separou há sete meses.

Veja – O senhor se formou na Faculdade de Medicina de Santo Amaro, uma instituição que não tem o renome das grandes escolas médicas do Brasil. Como conseguiu tornar-se um médico de tanto prestígio?
Tranchesi –
Minha faculdade era pequena, mas vários professores da Universidade de São Paulo lecionavam lá. Recebi uma formação teórica muito boa e sanei as deficiências da parte prática ao fazer residência, durante três anos, no Hospital das Clínicas e no Instituto do Coração, Incor. É durante a residência que o formando realmente aprende a ser médico. O Incor acabou me contratando. Ao mesmo tempo, abri consultório e decidi que jamais trabalharia para convênios ou como empregado. Queria ter meus próprios clientes e estabelecer com eles uma relação duradoura. O consultório ficou às moscas no primeiro ano. Eu aproveitava o tempo para ler. Aí apareceu um cliente, depois outro e assim foi, em progressão contínua. O boca-a-boca é que faz o prestígio de um médico. Em compensação, se ele erra, o mesmo boca-a-boca pode destruir sua reputação.

Veja – O senhor não atende pobre?
Tranchesi –
Atendi muito, no Hospital das Clínicas. Hoje trabalho exclusivamente com clientes particulares, que absorvem todo o meu tempo. Mas jamais deixei de tratar as pessoas que me foram encaminhadas ou casos de emergência.

Veja – Que qualidades um médico precisa ter para tornar-se uma sumidade em seu ofício?
Tranchesi –
Para o cirurgião, a qualidade fundamental é a técnica. Já um clínico tem de ser, antes de mais nada, um leitor de almas. Ele só vira um grande médico quando compreende que uma doença nunca é igual para duas pessoas. Suas causas e conseqüências dependem em grande parte do perfil psicológico do paciente, do meio em que ele vive, de sua situação econômica, social e afetiva. O médico precisa conhecer a alma humana até para receitar remédios.

Veja – Mas para cada doença não existe um remédio específico?
Tranchesi –
Nem sempre. Os efeitos colaterais variam e o que funciona para um pode não funcionar para outro. É muito diferente tratar o problema cardíaco de uma dona de casa disciplinada, capaz de submeter-se a uma mudança radical de hábitos de vida, e de um homem com poder nas mãos, impaciente, acostumado a ser obedecido e que espera resultados imediatos em tudo, inclusive em relação à sua saúde.

Veja – O senhor está falando de Antonio Carlos Magalhães?
Tranchesi –
Não apenas dele. As pessoas poderosas, sejam políticos, empresários ou mesmo artistas, têm uma característica de personalidade semelhante: trabalham com um propósito claro na vida e vão atrás dele obstinadamente. São indivíduos que não perdem tempo com detalhes. Olham para a frente, mirando no essencial. Encaram a doença como um obstáculo aos objetivos que perseguem e querem soluções rápidas, pois estão habituados a impor sua vontade.

Veja – Como curar alguém assim?
Tranchesi –
O médico deve entender as peculiaridades desse paciente e convencê-lo a usar sua principal característica – a determinação – a favor do tratamento. O problema de muitos políticos é tentar esconder a doença, pois acham que ela prejudica sua carreira. Foi o que ocorreu, em 1980, com o então ministro da Justiça Petrônio Portella, que tentou ocultar um infarto e acabou morrendo. Ou com Tancredo Neves, que imaginou ser possível esperar a posse como presidente da República para se tratar do tumor que lhe tirou a vida. Tudo indica que essa mentalidade está mudando. Recentemente, o governador Mário Covas mostrou muita coragem pessoal ao assumir que tinha câncer.  

Veja – Qual é o pior tipo de paciente?
Tranchesi –
Os próprios médicos. São desconfiadíssimos. Mais do que ninguém, o médico sabe que qualquer doença, em tese, pode evoluir mal. Ele conhece as estatísticas de sua moléstia. Se o índice de cura é de 98%, raciocina de forma inversa e passa a considerar que há um risco de 2%. Depois de se consultar com um colega, pede palpite para outros no corredor do hospital e muda o remédio por conta própria. Médico dá um trabalho...  

Veja – O senhor chefiou, durante vários anos, a unidade coronariana do Incor, em São Paulo. Quais foram as circunstâncias de sua saída?
Tranchesi –
Quem tem clientes famosos pode ficar exposto além da conta. Como em qualquer campo de atividade, na medicina também existe ciumeira.

Veja – Essa ciumeira a que o senhor se refere teria sido provocada pelo fato de que em 1995 o então ministro das Comunicações Sergio Motta, que era seu cliente, foi operado do coração no Hospital Albert Einstein e não no Incor?
Tranchesi –
O ministro Motta passou a ser meu cliente quando sofreu um infarto enquanto era examinado no Einstein de um problema de varizes. Recebi um chamado de emergência para atendê-lo e vi que o caso era cirúrgico. Seria um absurdo determinar sua remoção. Ele queria ser operado pelo doutor Sérgio Oliveira e pediu minha opinião. Respondi que era um cirurgião da maior competência. Falava-se que a indicação deveria recair sobre o doutor Adib Jatene, então ministro da Saúde, um cirurgião de indiscutível capacidade, mas quem fez a escolha foi o ministro Motta. Creio que isso provocou um mal-estar que precipitou minha saída do Incor. Eu era a bola da vez.

Veja – Por quê?
Tranchesi –
O Incor pertence à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Lá, como em muitas faculdades, existe uma espécie de ditadura dos professores titulares. Eles são muito fortes, têm um renome estabelecido e não gostam de ser superados por subalternos que estão subindo rapidamente na carreira.  

Veja – Na ocasião, os titulares das cadeiras de cardiologia e de cirurgia cardíaca eram os professores doutores Fúlvio Pileggi, que dirigia o Incor, e Adib Jatene. Foram eles que demitiram o senhor?
Tranchesi –
Depois de um longo processo de desgaste, fui chamado para uma reunião pelo diretor executivo do hospital. Ele, naturalmente, cumpria instruções. É possível que tenham vindo dos professores titulares. O diretor sugeriu que eu deixasse a chefia da unidade coronariana. Eu já sentia fazia muito tempo que estavam me fritando. A cirurgia do ministro Motta no Albert Einstein foi a gota d'água. Mas aquela conversa representou um choque para mim. O Incor havia sido minha escola, onde tudo aprendi. Um dos meus mestres foi o professor Pileggi, que me ajudou em toda a carreira. Naquela noite, fiquei meditando no terraço de casa até o amanhecer e resolvi sair para me dedicar exclusivamente ao consultório.

Veja – Qual foi o momento mais difícil de sua carreira?
Tranchesi –
Foi a morte do deputado Luís Eduardo Magalhães, no dia 21 de abril de 1998. Havíamos nos encontrado pela última vez um dia antes, no velório de Sergio Motta. Mais do que um cliente, Luís Eduardo era um amigo que eu admirava. Logo que ele sofreu o infarto, o senador Antonio Carlos Magalhães conseguiu me chamar para que eu fosse atender seu filho. Embarquei às pressas para Brasília. Depois dos primeiros exames, tentei tranqüilizar o Luís Eduardo: "Olha, a coisa não está tão ruim..." Na verdade, a situação era terrível. As artérias estavam bastante comprometidas e o infarto fora muito grande. Enquanto eu conversava, percebi que seus olhos ficaram estáticos e constatei no monitor que ele havia tido uma assistolia. Seu coração parou. Durante uma hora e meia, fizemos massagem cardíaca e tentamos todos os recursos, mas em nenhum momento ele reagiu. Quando a situação se tornou irreversível, me dei conta de que atrás da porta da UTI estava seu pai. Eu teria de contar para ele. Não precisei dizer nada. Ao me ver, ele compreendeu tudo e gritou: "Não! Não!" Foi brutal.

Veja – Entre os fatores de risco para o coração, estão o tabagismo, a herança genética, a hipertensão, a obesidade, o stress, colesterol alto, vida sedentária e alimentação inadequada. Qual é o mais grave?
Tranchesi –
Em famílias com índice de colesterol muito elevado e determinados traços genéticos, o fator da hereditariedade é o risco principal e pode ocasionar doenças coronárias a partir dos 25 anos. Mas essas famílias são a exceção. Para a maioria das pessoas, o maior perigo é o fumo, cujos elementos nocivos destroem as artérias e criam as condições para o infarto.

Veja – Mesmo para quem fuma pouco o cigarro faz mal?
Tranchesi –
O fumo é nocivo em qualquer quantidade. Admito que dois cigarros diários, após o almoço e o jantar, não chegam a apressar a morte de ninguém. A questão é que não conheço nenhum fumante que se satisfaça com isso.

Veja – O senhor fuma?
Tranchesi –
Fumo cinco cigarros por dia, em minha casa ou em reuniões sociais. Ocasionalmente, fumo um charuto à noite. Tento largar há muito tempo o cigarro, que melhor do que ninguém sei ser maléfico. Neste ano acho que conseguirei parar.

Veja – Há pessoas com menos de 50 anos, não fumantes, tidas como saudáveis, que morrem subitamente de parada cardíaca. Algumas correntes médicas acreditam que boa parte dessas mortes é provocada por overdose de cocaína. Qual sua opinião?
Tranchesi –
Embora não existam estatísticas a respeito, isso ocorre com mais freqüência do que se supõe. A primeira causa de uma morte súbita, entre pessoas jovens, é a cardiopatia hipertrófica. Atinge esportistas que, ignorando o crescimento anormal de seu coração, morrem durante corridas ou exercícios físicos. A segunda causa é, provavelmente, a cocaína. Ela provoca aumento dos batimentos cardíacos, podendo se seguir um espasmo na coronária e o infarto. Como se comprovou no caso do ex-jogador Maradona, a cocaína é capaz de destruir o músculo cardíaco.

Veja – O cantor Frank Sinatra brindava com a expressão italiana cent'anni, desejando assim que todos à mesa vivessem até os 100 anos. É possível chegar lá, com saúde, sem abrir mão de alguns prazeres da vida?
Tranchesi –
Estamos mais próximos do que nunca dessa possibilidade. Ao lado dos progressos científicos e tecnológicos dos últimos anos, um número cada vez maior de pessoas adquiriu a consciência de que uma vida saudável exige atividade física regular, alimentação equilibrada e renúncia a vícios maléficos à saúde. Não é preciso virar atleta. Uma caminhada diária de quarenta minutos reduz os riscos cardiovasculares em até 40%. Os cent'anni já não são apenas um sonho. Hoje, quando fico sabendo que morreu algum conhecido de 70, 75 ou 80 anos, minha sensação é de que isso não foi natural. Essa pessoa poderia ter vivido bem mais tempo.

Veja – Que tipo de alimentação o senhor costuma recomendar?
Tranchesi –
Uma dieta na linha mediterrânea é altamente benéfica. Nela entram frutas, verduras, massas, azeite, carnes magras, pão e vinho.

Veja – Vinho faz mesmo bem à saúde?
Tranchesi –
Estou plenamente convencido disso, desde que o vinho seja bebido com cautela. Trabalhos científicos, apresentados em congressos internacionais e revistas médicas, mostram que a mortalidade por causas cardiovasculares é maior entre os abstêmios do que entre os que bebem moderadamente. Por moderadamente deve-se entender uma ou duas taças de vinho por dia. Não existe uma explicação definitiva para isso, mas nessa pequena quantidade a bebida tem efeito vasodilatador e protege as artérias.

Veja – Por que o senhor nunca usa roupa branca de médico?
Tranchesi –
Porque não gosto. Suja muito. Trabalho de terno e gravata. Vestido assim, posso ir do consultório para qualquer compromisso, sem trocar de roupa.

Veja – O senhor é um homem vaidoso, não?
Tranchesi –
De fato, sou. Nunca fiz plástica e não pinto os cabelos, mas adoro me vestir bem. Minhas roupas preferidas são as da grife italiana Ermenegildo Zegna.

Veja – O senhor ficou rico com a medicina?
Tranchesi –
Tenho uma qualidade de vida bastante boa, conquistada com muito trabalho. Pena que me falte talento para administrar dinheiro. Eu ganho bem, mas gasto bem. Gosto de ir a bons restaurantes, quando tenho tempo, gosto de viajar com conforto e gosto de carro.

Veja – Qual é o seu?
Tranchesi –
De tanto ouvir histórias sobre assaltos na rua, muitos deles vitimando meus clientes, resolvi comprar um Mercedes blindado. Sinto-me mais seguro dentro dele.