Edição 1 635 - 9/2/2000

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Liberdade ameaçada

"As instituições que protegem a liberdade têm
sido repetidamente atacadas no Brasil. E, como as instituições são frágeis, é preciso
também protegê-las das mínimas ameaças"

Ilustração: Alê Setti

A liberdade é o mais essencial dos valores humanos. Está associada aos direitos elementares da pessoa humana, principalmente ao direito à vida. A história política dos últimos dois séculos do segundo milênio pode ser contada como a saga da humanidade pela liberdade. E ela foi atacada pela direita e pela esquerda. Sempre em nome de outros valores, que não se sustentam na sua ausência, a não ser como farsa. O prêmio Nobel de Economia Amartya Sen publicou, no ano passado, um livro de grande importância, mostrando que a liberdade é parte indissociável da idéia de desenvolvimento humano. Ele sabe o que diz, criou um importante indicador para medir a pobreza, o índice de Sen, e desenhou a metodologia para o índice de desenvolvimento humano, calculado pela ONU. Esse índice permite comparar os resultados de distintos modelos de desenvolvimento, exatamente porque mede os requisitos essenciais do progresso. Sen mostra, em seu novo livro, que onde não há liberdade a alocação dos recursos da sociedade sempre termina por beneficiar algum segmento da elite.

Mas a liberdade é a mais frágil das conquistas humanas. Thomas Hobbes foi um dos primeiros a mostrar sua debilidade diante dos ataques dos que buscam impor "outros valores". Não importa se a liberdade é suprimida em nome da igualdade ou da pátria ou de qualquer outro ideal. É tudo tirania. Só um conjunto legítimo de instituições de proteção da liberdade e a rigorosa punição dos que tentam suprimi-la podem preservá-la. E, como as instituições são frágeis, é preciso também protegê-las das mínimas ameaças. É o que Hobbes chamava de proteção da proteção. E isso é mais que um ato formal. A defesa e o uso das instituições democráticas consolidam uma prática coletiva de culto permanente à liberdade e fortalecem, diariamente, sua delicada proteção.

As instituições que protegem a liberdade têm sido repetidamente atacadas no Brasil. Agora o foram novamente. De um lado, por Leonel Brizola, sobrevivente do populismo autoritário, que sempre beirou o fascismo, no tipo de apelo às massas que protagonizava e no caudilhismo personalista. Há já algum tempo, Brizola — que vem perdendo espaço para outras lideranças no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, seus únicos redutos de influência — voltou a manifestar a tendência protofascista de sua linhagem populista, atacando a democracia. Uma atitude coerente com toda a sua história. Ele não foi contra a ditadura porque era uma ditadura, mas porque seu lado perdeu.

O outro ataque à democracia veio do capitão Jair Bolsonaro, hoje deputado federal. Este pertence diretamente às linhagens fascistas, ultradireitistas e ultranacionalistas. Usou uma pregação corporativista pela recuperação dos soldos para ganhar, pela via democrática, a tribuna parlamentar — uma das instituições de defesa da liberdade que foi importantíssima na luta contra a ditadura no Brasil. E agora usa essa mesma tribuna para atacar a democracia, para fazer a apologia do golpismo, da violência e da tortura e para atacar lideranças libertárias.

O deputado José Genoíno, que militou em partido que não era democrático, tem mostrado que soube reconhecer em sua trajetória — que honra a nação — a liberdade como o valor sobre os valores. Deu uma resposta digna aos ataques do capitão Bolsonaro, num emocionante relato que mostra como a tirania fere fundo a essência do ser humano. Nem Bolsonaro nem Brizola merecem respostas dessa qualidade. Mas o Brasil, a História do Brasil e a cidadania brasileira merecem. Foi para eles que Genoíno abriu sua alma. E, como pequena parte deles, agradeço emocionado. Genoíno está protegendo a nossa proteção.

Vocês, caros leitores, podem estar achando que exagero a dimensão do problema. Não é exagero, não. Qualquer mínimo ataque à democracia é ameaça demais. E deve ser punido com rigor, nos termos da lei.

Sérgio Abranches é cientista político