O Los Hermanos acabou,
mas deixou filhotes
para alívio dos universitários "cabeça"
Fotos de Cristiano Mariz,
Alexandre Campbell, Eduardo Queiroga, Roberto Setton
Los Hermanos: como na série
Alien, o grupo disseminou suas "ovas" pelo pop
nacional antes de se extinguir
Em
junho passado, o grupo carioca Los Hermanos fez seu último
show. Mas isso não significou o fim de sua linhagem,
por assim dizer. Como o bicho da série Alien,
o conjunto já havia disseminado suas ovas pelo pop
nacional. Delas já nasceram ao menos três herdeiros
de seu rock cabeça: a banda paulista O Teatro Mágico,
a recifense Mombojó e a brasiliense Móveis Coloniais
de Acaju. Os Hermanos misturavam guitarra com tuba? Não
seja por isso: suas crias tiram do baú instrumentos
como trombone, flauta transversal e escaleta (espécie
de teclado de sopro). Investiam na fusão de rock com
MPB? Bem, o Móveis Coloniais de Acaju mescla batucada
com ritmos do Leste Europeu, num estilo autodenominado de
"feijoada búlgara". A semelhança não
se esgota no campo musical. Assim como os Hermanos, as três
bandas ostentam letras "poéticas" e tome metáforas
tonitruantes e jogos de palavras como "mar drugada" (entendeu,
entendeu?). Por fim, levam adiante as bandeiras políticas,
digamos, de seu antecessor. Quando não as radicalizam,
como faz O Teatro Mágico. Se os Hermanos celebravam
a figura do palhaço como uma alegoria da melancolia
ou coisa que o valha, a banda resolveu ela própria
encarnar a palhaçada: seus integrantes só se
exibem em público vestidos como tais. "O circo fala
da pluralidade do ser", filosofa o líder, Fernando
Anitelli.
MÓVEIS COLONIAIS
DE ACAJU Por que é uma
banda cabeça:mistura
metais, ritmos do Leste Europeu e metáforas malucas
num estilo autodenominado "feijoada búlgara"
Pérola:"Minha intuição
não me engana / Você me faz ser tão
Copacabana" (Copacabana)
Essas bandas são
a trilha sonora do momento daqueles que Reinaldo Azevedo,
colunista de VEJA, batizou de "remelentos e mafaldinhas"
os universitários de classe média que adoram
embarcar em presepadas esquerdóides, como a recente
invasão da reitoria da Universidade de São Paulo.
Tanto o Mombojó quanto o Móveis Coloniais de
Acaju foram forjados por estudantes de universidades federais.
Já O Teatro Mágico foi composto por um pessoal
mais velho mas que trafega num meio não menos
cabeça, os saraus e oficinas de teatro. As três
bandas levam adiante a bandeira da "autenticidade" propalada
pelos Hermanos. Algo que, na música, se traduz numa
atitude calculadamente despojada e na pose de quem "não
se vende ao sistema". O Mombojó até se vincula
a uma gravadora mas uma que ainda mantém certa
aura alternativa, a Trama. Nos três casos, contudo,
a estratégia de divulgação é de
guerrilha. Elas disponibilizam todas as suas músicas
de graça na internet e usam os shows como principal
fonte de renda (e também como canal de venda de seus
discos).
Nem é preciso
dizer, tais grupos têm altas pretensões estéticas
para usar uma palavra que causa frisson nesse universo.
O Teatro Mágico prefere ser definido como uma "trupe",
e não uma banda. Tem formação variável
e chega a reunir vinte pessoas no palco (a superpopulação,
aliás, é um traço dos novos Hermanos:
o Móveis Coloniais tem dez integrantes e o Mombojó
contava com sete até a morte recente de um deles, o
flautista Rafael Torres, em decorrência de um ataque
cardíaco). E não se limitam a tocar e cantar:
dançam, fazem malabarismos e outras micagens. "Os palhaços
são personagens dispostos a fazer de tudo", diz Anitelli.
Em meio às músicas, há pausas para debates
sobre temas como a "cultura livre".
O TEATRO
MÁGICO Por que é uma
banda cabeça:seus
integrantes vestem-se de palhaço e celebram o circo
como uma alegoria da "pluralidade do ser". Seus shows
têm debates sobre cultura e "brasilidade" Pérola:"Quando Ana entra n'água
/ O sorriso do mar drugada / Se estende pro resto do mundo"
(Ana e o Mar)
Outra questão
cara a essas bandas é o que se convencionou chamar
de "brasilidade". A turma de O Teatro Mágico adora
um papo ripongo sobre natureza e folclore. Para explicar seu
nome, o Móveis Coloniais conta uma história
esquisita sobre uma batalha de tintas ufanistas que no século
XVIII (ou XVII) uniu índios e portugueses. Mas a moçada
é multicultural, faça-se justiça. "Todo
tipo de arte nos influencia", diz o tecladista Eduardo Borém.
O uso dos ritmos eslavos tem lá sua explicação,
por exemplo. "Esses elementos vêm da ascendência
de alguns integrantes e da estética dos filmes do diretor
bósnio Emir Kusturica", informa Borém. Em última
instância, porém, são as letras que dizem
tudo sobre os novos remelentos do rock. Em Pratododia,
O Teatro Mágico canta versos do tipo: "Como arroz
e feijão que só se encontram depois de abandonar
a embalagem". O Mombojó dá sua contribuição
ao bestiário. "O homem é como a espuma do mar
/ que navega pela superfície das águas", ouve-se
em Homem-Espuma. Quase dá saudade do Los Hermanos.
Quase.
MOMBOJÓ Por
que é uma banda cabeça: musicalmente,
emula o rock alternativo inglês. Já as
letras são divagações "oníricas"
sobre a vida e o amor Pérola:
"Nascendo em diversos hospitais / Do parto eu parti"
(Singular)