Ninguém pensaria
em atribuir algum potencial contestador a Titanic,
a superprodução náutico-romântica
de James Cameron. Mas em Cabul, durante o regime fundamentalista
do Talibã cuja idiotia ideológica e religiosa
proibia diversões comezinhas como televisão,
música e pipas , até mesmo assistir a
Titanic no videocassete de casa era um perigoso ato
de transgressão. Ou pelo menos assim consta em A
Cidade do Sol (tradução de Maria Helena
Rouanet; Nova Fronteira; 368 páginas; 39,90 reais),
novo romance do afegão (radicado nos Estados Unidos)
Khaled Hosseini, autor de O Caçador de Pipas,
sucesso mundial com mais de 8 milhões de livros vendidos.
Com uma atenção exaustiva a esses detalhes
cotidianos, Hosseini oferece um retrato palpável da
vida no Afeganistão ao longo das últimas quatro
décadas um conturbado período que inclui
a invasão soviética, guerras civis, o regime
talibã e a ocupação americana. Despertada
pelos eventos de 11 de setembro de 2001, a curiosidade ocidental
pela realidade dos países islâmicos responde
por parte do sucesso de Hosseini. Mas sua habilidade na construção
de um melodrama envolvente também conta muito.
O
Caçador de Pipas era uma história masculina,
sobre a amizade acidentada entre dois garotos de Cabul. A
Cidade do Sol é, ao contrário, uma espécie
de Sidney Sheldon islâmico: um romance sobre mulheres
sofredoras, amaldiçoadas pela sorte e humilhadas por
homens maus, mas que no fim conseguem (ou, pelo menos, uma
delas consegue) dar a volta por cima. Filha ilegítima
de um empresário endinheirado de Herat, cidade próxima
à fronteira com o Irã, Mariam é obrigada
pela família do pai a se casar com o comerciante de
sapatos Rashid, da capital, Cabul. O marido é um bruto,
que antes mesmo do Talibã já obrigava a mulher
a vestir a opressiva burca. A situação piora
quando, depois de uma série de abortos, fica provado
que Mariam jamais dará o sonhado herdeiro ao marido.
Rashid passa a destratá-la e a espancá-la. Paralelamente
ao drama de Mariam, Hosseini narra a história de Laila,
a esperta filha de um casal de classe média de Cabul.
Cerca de vinte anos mais nova do que Mariam, ela tem planos
de se tornar uma mulher independente, de um dia estudar em
uma universidade. Os sonhos de Laila são abreviados
quando, aos 14 anos, sua casa é explodida por um foguete,
em 1992, durante as guerras civis que dilaceraram o país.
Seus pais morrem no bombardeio e Laila ainda por cima
está grávida do namorado adolescente, que se
exilou com a família no Paquistão. Sem opções,
ela acaba se tornando a segunda mulher de Rashid.
A amizade que surgirá
entre essas duas mulheres é o centro do romance. Não,
elas não ficam podres de ricas, como no típico
livro de Sheldon. Hosseini ainda é mais realista do
que o autor de O Outro Lado da Meia-Noite. O final
de A Cidade do Sol, porém, é ensolarado,
esperançoso. Sim, os antigos guerrilheiros tribais
ainda dão as cartas na política afegã,
e o Talibã segue ativo, seqüestrando e matando
missionários coreanos. O último capítulo
do romance reconhece esses problemas, mas aposta no futuro
do país. Com irresistível ingenuidade, o renascimento
do Afeganistão é representado nas cápsulas
vazias de mísseis sobras da guerra civil
que os habitantes de Cabul transformaram em vasos de flores.
E no cinema que hoje pode exibir Titanic livremente.
Talibã
x Titanic
"No verão,
Cabul foi tomada pela febre do Titanic. As pessoas
contrabandeavam cópias piratas do filme do Paquistão.
Depois do toque de recolher, todos trancavam as casas,
apagavam as luzes, baixavam ao máximo o volume
das televisões e voltavam a chorar por Jack,
Rose e os demais passageiros do navio que naufragou.
(...) Vendedores desciam ao leito ressecado do rio Cabul.
Em pouco tempo, era possível comprar ali tapetes
e roupas Titanic, que enchiam carrinhos de mão.
Havia desodorante Titanic, pasta de dentes Titanic,
perfume Titanic e até uma burca Titanic."